Pollera boliviana: da imposição colonial às pistas de skate
Imposta na colonização, a saia tradicional boliviana hoje ocupa o skate e se consolida como símbolo de orgulho e resistência das cholitas

A pollera, saia ampla e rodada usada por mulheres indígenas na Bolívia, nem sempre foi motivo de orgulho. A peça foi imposta durante a colonização espanhola, no século 16, quando a Coroa determinou que os povos originários adotassem vestimentas europeias. Hoje, as mulheres indígenas usam a pollera muito além do cotidiano: a vestimenta já acompanhou montanhistas na conquista de grandes picos e, agora, também marca presença nas pistas de skate, desafiando estereótipos sobre esporte, tradição e feminilidade.
Vem conhecer!

Origem do traje tradicional
A origem do traje remete à região de Castela e Leão, na Espanha, onde, segundo a historiadora Sayuri Loza, mulheres conhecidas como “chulas” (termo que significa algo como “bonita” ou “graciosa”) vestiam roupas que depois foram transformadas na vestimenta das cholas bolivianas. A imposição do uso da peça durante a colonização não terminou com a independência do país, em 1825. Leis municipais das autoridades liberais bolivianas seguiram obrigando as populações indígenas a vestir roupas ocidentais, e foi nesse processo que a pollera, as anáguas e as tranças se consolidaram como parte do cotidiano das mulheres aimaras e quíchuas.

O que começou como uma imposição colonial — reforçada depois por leis republicanas — acabou incorporado à identidade dessas mulheres, hoje chamadas de “cholitas”, e transformado em símbolo de resistência.
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O bombín — chapéu-coco que completa o visual — tem uma origem “folclórica”. O acessório chegou à Bolívia por volta de 1920, importado da Europa para os trabalhadores da construção das ferrovias andinas. Segundo a lenda mais popular no país, um grande lote do acessório encomendado para os operários chegou pequeno demais; para não perder a mercadoria, os comerciantes decidiram revendê-los às mulheres indígenas. A moda pegou e o chapéu acabou virando um forte código social.

Discriminação e ressignificação
Durante boa parte do século 20, usar pollera era motivo de discriminação. Cholitas chegaram a ser impedidas de circular em determinados espaços públicos e de frequentar certos transportes. Foi a partir dos anos 1960 que essas mulheres começaram a se organizar socialmente para lutar por seus direitos civis como minoria; décadas depois, a vestimenta tornou-se um símbolo nacional de orgulho.

O uso da pollera fora do cotidiano ganhou um de seus capítulos mais conhecidos internacionalmente com as Cholitas Escaladoras. Em dezembro de 2015, um grupo de mulheres aimaras que trabalhavam como cozinheiras e carregadoras nos acampamentos-base das montanhas bolivianas decidiu ir além do apoio logístico. Lideradas por Lidia Huayllas Estrada, onze delas alcançaram o cume do Huayna Potosí — a 6.088 metros de altitude — em uma única tentativa, vestindo suas polleras tradicionais e sem o equipamento técnico adequado.

Uma das fundadoras do movimento, Ana Lía “Lita” González, contou à Unesco que a escalada nasceu também como uma resposta à violência. Em 2015, onze mulheres indígenas se reuniram ao pé do Huayna Potosí, decididas a realizar esse sonho coletivo: com medo, sim, mas sobretudo com coragem. Depois do Huayna Potosí, vieram outros grandes picos: o Illimani — a montanha mais emblemática de La Paz —, em 2017, e o Aconcágua, na Argentina, em janeiro de 2019, o cume mais alto do Hemisfério Ocidental, a 6.960 metros de altitude.

Cecilia Llusco, uma das líderes do movimento, resumiu a motivação do grupo: ele nasceu em 2015 em resposta ao alto índice de feminicídio no país e à discriminação contra as mulheres que usavam a pollera. Hoje, as Cholitas Escaladoras também atuam como guias de turismo de montanha e foram tema do documentário Cholitas (2019).
Do alto das montanhas para as pistas de skate
A mesma lógica de ocupar espaços historicamente negados às mulheres indígenas chegou às ruas de La Paz por meio do skate. O coletivo Warmis Sobre Ruedas (“mulheres sobre rodas”, em quíchua) nasceu em 16 de julho de 2021 e, desde então, organiza eventos como o La Paz Sobre Ruedas, reunindo meninas e jovens de 8 a 20 anos. A escolha de andar de skate usando a pollera é, para muitas, um jeito de reivindicar a própria cultura e homenagear as avós e mães que vestem a saia tradicional. Nas competições do grupo, técnica, criatividade e vestimenta entram na avaliação, existindo inclusive uma categoria específica para quem se apresenta de pollera.

O skate é conhecido por ser um esporte profundamente ligado às culturas urbanas e à ocupação criativa dos espaços públicos, incorporando música, arte, moda e diferentes identidades ao estilo de vida. Ao longo de sua história, a modalidade consolidou uma cultura pautada pela valorização da individualidade e da autenticidade, permitindo que diferentes grupos adaptassem a prática às suas próprias referências. É nesse contexto que a pollera encontra lugar nas pistas: longe de ser um obstáculo, a saia tradicional passa a integrar a identidade das skatistas, transformando a herança indígena em parte fundamental da estética e da experiência sobre rodas.





















