Jacquard transforma herança têxtil em tendência
Do brocado chinês à nobreza europeia, o jacquard atravessou séculos e impérios; hoje, domina as passarelas e o guarda-roupa do dia a dia

O tecido jacquard é uma das apostas mais fortes entre as tendências do momento. Nos desfiles de marcas como Celine, Michael Kors, Dior e Giorgio Armani, as estampas surgem em tons mais ousados e contrastantes. A textura também conquistou as it girls fora das passarelas, em um retorno que une a tradição têxtil a uma atitude contemporânea.
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Origem histórica
Poucas técnicas têxteis carregam uma história tão rica quanto o jacquard. O nome é frequentemente usado como sinônimo de ‘tecido com estampa’, mas, na verdade, descreve um método de tecelagem. Criado no início do século 19, esse processo conecta tramas que remontam à China Antiga a algumas das coleções mais comentadas da atualidade.
Muito antes de existir um tear chamado ‘Jacquard’, tecelões já tentavam resolver o mesmo dilema: como programar um padrão complexo sem depender exclusivamente da memória e da habilidade manual. Em 1725, o francês Basile Bouchon criou um sistema de fita de papel perfurada para guiar os fios do tear. Nas décadas seguintes, Jean-Baptiste Falcon e Jacques de Vaucanson aperfeiçoaram o mecanismo utilizando cartões perfurados, mas essas versões precursoras ainda apresentavam limitações.
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Foi Joseph Marie Jacquard, tecelão de seda nascido em Lyon, na França, quem uniu as tentativas anteriores em um sistema verdadeiramente funcional para a produção em escala. Apresentado entre 1801 e 1804, seu tear expandiu o mecanismo para oito fileiras de agulhas, permitindo controlar individualmente cada fio por meio de cartões perfurados — em um código simples de presença ou ausência de furo.

Tipos de jacquard
Um dos aspectos mais mal compreendidos sobre o termo é que ‘jacquard’ não designa um tecido específico, mas a técnica de tecer o padrão diretamente em sua estrutura — diferentemente de estampas aplicadas sobre a superfície ou de bordados. Essa técnica deu origem a diferentes tecidos com características próprias: o damasco, com padrões geométricos ou florais e contraste entre brilho e fosco; o veludo jacquard, que combina a maciez do tecido ao relevo do desenho; o tricô jacquard, hoje comum na malharia; e o brocado, historicamente o mais suntuoso de todos.

Brocado: o tecido dos impérios
O brocado é a variação do jacquard mais ligada ao poder e à nobreza. Sua origem remonta ao século III a.C., na China Antiga, onde a seda era tecida manualmente com fios de ouro e prata para confeccionar as vestes imperiais. Pela Rota da Seda, o tecido chegou à Pérsia e a outros centros do Oriente Médio, alcançando mais tarde o Império Bizantino — período apontado como um dos ápices dessa arte.

Na Idade Média, o brocado foi introduzido na Península Ibérica pelos mouros e tornou-se o material preferido dos reis e da nobreza europeia, muito utilizado em trajes cerimoniais e vestes religiosas. Durante o Renascimento, a Itália assumiu a liderança da produção — inclusive, é do termo italiano broccato (‘tecido em relevo‘) que deriva o próprio nome do tecido. Séculos depois, a invenção do tear Jacquard começou a tirar o brocado da exclusividade das elites. A técnica tornou a produção gradualmente mais acessível e, já na Era Vitoriana, o tecido passou a integrar também o guarda-roupa cotidiano da burguesia, sem jamais perder sua associação simbólica com o luxo e o status.

Da passarela para o dia a dia
Essa mesma dualidade — herança aristocrática e presença no cotidiano — explica por que o jacquard segue tão relevante nas coleções atuais. Na última coleção de Maria Grazia Chiuri para a Dior (outono/inverno 2025/2026), os veludos jacquard atravessaram boa parte do desfile, descritos pela própria maison como um encontro entre a tradição e a fluidez romântica. Já na temporada de outono/inverno 2026, Michael Kors e Giorgio Armani também apostaram no tecido, destacando padronagens mais gráficas e contrastantes.

Ao mesmo tempo, o jacquard tem migrado para contextos mais casuais, provando que uma técnica criada para vestir imperadores e a nobreza também sabe se adaptar ao guarda-roupa do dia a dia — sem perder o toque vintage e glamouroso que só um padrão tecido diretamente na própria trama consegue entregar.





















