Penas de avestruzes usadas por marcas de luxo têm origem em maus-tratos
Relatório revela que animais são submetidos a técnicas cruéis e dolorosas durante a retirada das penas

Uma ONG de proteção animal revelou que fornecedores de grifes de luxo, como Yves Saint Laurent, Louis Vuitton, Dior e Chanel, além da gigante de fast fashion Shein, estão associados a maus-tratos a avestruzes na África do Sul. A denúncia foi feita pela organização World Animal Protection, que afirma que os animais são submetidos a técnicas cruéis e dolorosas durante a retirada das penas.
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O que o relatório identificou
Intitulado Blood Feathers (Penas de Sangue, em tradução livre), o documento apresenta uma investigação realizada pela World Animal Protection em parceria com a organização sem fins lucrativos Collective Fashion Justice, que analisou a criação comercial de avestruzes e o processamento das penas desses animais na África do Sul. O país é responsável por cerca de 75% da produção mundial de produtos derivados do animal.

De acordo com o relatório divulgado, as aves eram encurraladas por trabalhadores, tinham a cabeça coberta com sacos e eram submetidas à retirada das penas ainda vivas. Os procedimentos seriam realizados sem o uso de medicamentos para aliviar a dor.
Durante visitas às fazendas de criação, investigadores revelaram ter encontrado animais machucados. Alguns eram, aparentemente, incapazes de ficar em pé e outros apresentavam ferimentos provocados por bicadas nos olhos e nas penas.
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O levantamento também identificou uma relação entre as fazendas investigadas e fornecedores de grandes marcas internacionais. Segundo a ONG, empresas que compram penas de avestruz dessas propriedades estão ligadas a grifes como Yves Saint Laurent, Louis Vuitton, Dior e Chanel, e também a Shein.

Para quê as penas são usadas
As penas de avestruz são utilizadas pela indústria da moda principalmente pelo volume, leveza e movimento. O material aparece em peças de luxo, detalhes de roupas, acessórios e produções de passarela, além de também estar presente no mercado de fast fashion.

De acordo com a investigação, as penas são um dos principais produtos responsáveis pela criação comercial de avestruzes na África do Sul. Uma das fazendas visitadas pelos pesquisadores afirmou que as penas são o produto mais lucrativo do animal e que são exportadas para diferentes regiões do mundo.
As plumas também são comercializadas junto a outros produtos derivados dos avestruzes, como carne e couro. Segundo o relatório, cerca de 1 kg de penas pode ser retirado de um animal antes ou depois do abate.

Os animais sofrem?
A investigação contesta a ideia de que as penas utilizadas pela moda sejam simplesmente recolhidas quando os avestruzes fazem a muda natural. A World Animal Protection diz que a quantidade de penas demandada pela indústria não poderia ser suprida apenas por esse processo natural.
Segundo o relatório, as penas dos avestruzes eram cortadas acima da chamada linha de sangue, o que significa que ainda estavam em crescimento e recebendo irrigação sanguínea no momento do corte. Depois, os restos das penas eram retirados da pele dos animais com alicates.

O médico veterinário Eduardo Marreiros explica que quando uma pena em crescimento é cortada, pode ocorrer hemorragia, e quando é arrancada, pode haver trauma do folículo, dor, inflamação e até mesmo infecção secundária. “A repetição desse procedimento também pode causar danos permanentes aos folículos e comprometer o crescimento das penas”, revela.

Além do sofrimento físico dos animais, o relatório registrou comportamentos que indicam estresse psicológico, manifestado por meio de movimentos repetitivos da cabeça, mordidas em cercas, automutilação e ataques a outras aves.
“Não existe uma técnica de arrancamento de uma pena que possa ser considerada isenta de dor. As penas não devem ser arrancadas, somente por motivos médicos e, se for necessário, o ideal é realizar o procedimento com analgesia ou anestesia e controle adequado do sangramento. Logo, a retirada traumática de penas, especialmente as que ainda estão em crescimento, representa um risco importante de dor, lesão e sofrimento para o animal”, reforça o profissional.
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A indústria na África do Sul
A África do Sul é responsável por aproximadamente 75% do comércio internacional de produtos de avestruz, que inclui, além das penas, também carne e couro do animal. Dados do governo sul-africano citados pela World Animal Protection mostram que mais de 150 toneladas de penas de avestruz foram exportadas pelo país na temporada de 2024–2025. No mesmo período, cerca de 150 mil animais foram abatidos.
A relação da África do Sul com o comércio de penas é antiga. No início do século 20, as penas de avestruz chegaram a ser o quarto maior produto de exportação do país, atrás de ouro, diamantes e lã. A alta demanda da indústria da moda ajudou a impulsionar o comércio durante aquele período.













