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Ilca Maria Estevão

Livros que inspiraram coleções de moda para ler no isolamento

Clássicos da literatura são referência para estilistas na criação de peças e desfiles icônicos. Relembre!

05/05/2020 05:30, atualizado 02/01/2023 20:08
Ed Feingersh/Michael Ochs Archives/Getty Images
Marilyn Monroe

Para quem quer viajar sem sair de casa, os livros se tornaram refúgio durante a quarentena. As publicações oferecem aventura e consolo enquanto o isolamento social ainda é recomendado para evitar o contágio do novo coronavírus. O momento é propício para se reconectar com os clássicos que estão disponíveis na estante da sala e também dar oportunidade a novas obras. Se você está nesse mood, narrativas que inspiraram coleções de moda são uma boa opção para adicionar à lista de leituras.

Vem comigo!Giphy/Reprodução

Imergir na mesma literatura que serviu como referência e inspiração às mentes criativas da moda parece ser uma atividade interessante. Algumas delas despertaram novos olhares aos estilistas e serviram como temática para arrematar as criações que marcaram temporadas.

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A relação do universo fashion com a literatura é reflexo da expressão cultural de cada época. Segundo o ensaísta Walter Benjamin, a moda é capaz de, por meio das imagens, sensivelmente traduzir e trazer uma constelação de significados de um período.

Autores que transitam entre os séculos 19 e 20, por exemplo, se apropriam da roupa para traçar um perfil psicológico de cada personagem. Elas mostram o contexto histórico, social e político do período. A roupa como protagonista ou como alegoria também é uma proposta utilizada na construção de histórias. 

Entre os estilistas que se inspiraram em livros, estava o saudoso designer Alexander McQueen, assim como Alessandro Michele, nome por trás da direção criativa da italiana Gucci. A designer de moda Grace Wales Bonner, a japonesa Rei Kawakubo e a grife Vaquera também bebem da literatura para embasar suas criações.

Karl Prouse/Catwalking/Getty ImagesAlexander McQueen na passarela
Alexander McQueen, designer que morreu em 2010, costumava usar referências literárias
Venturelli/WireImage/via Getty ImagesAlessandro Michele na passarela
Alessandro Michele, da Gucci, também está entre os estilistas que usam livros como inspiração

Confira livros que foram referência para coleções de moda:

Orlando

O romance Orlando, assinado por Virginia Woolf, foi publicado em 1928. É conhecido como “a mais longa e encantadora carta de amor de toda a literatura”.

Na obra, Orlando, um jovem inglês, vive seus 350 anos de idade no período da Idade Moderna. Com aspecto imortal, os amores e a ambiguidade da identidade de gênero são retratados. A vida do personagem ganha possibilidades fluidas quando ele acorda no corpo de uma mulher, durante uma viagem à Turquia. 

Durante os séculos, os princípios e a personalidade são mantidos e descritos com bom humor. Posteriormente, em 1992, o romance foi adaptado para o filme Orlando – A Mulher Imortal, protagonizado pela premiada atriz Tilda Swinton. Após ganhar as telonas, a narrativa influenciou a coleção de outono/inverno 2007 da marca homônima comandada por Ann Demeulemeester. 

Christopher Bailey se inspirou no mesmo romance para a temporada de outono/inverno 2016 da Burberry. A dualidade de gênero da personagem principal desembarcou na coleção masculina e feminina de primavera/verão 2020 da Comme des Garçons pelas mãos da fundadora Rei Kawakubo. Em seguida, as peças criadas pela estilista japonesa viraram figurino de uma ópera, com silhuetas distorcidas e peças acolchoadas. 

Karl Prouse/Catwalking/Getty ImagesDesfile Ann Demeulemeester Paris Fashion Week Spring/Summer 2007
Ann Demeulemeester se inspirou no livro Orlando para o outono/inverno 2007
Catwalking/Getty ImagesDesfile Burberry London Fashion Week
O romance também deu tom ao outono/inverno 2016 da Burberry
Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty ImagesComme des Garcons : Runway - Paris Fashion Week - Womenswear Spring Summer 2020
Comme des Garçons pincelou a temática na coleção de primavera/verão 2020
@commedesgarcons/Instagram/ReproduçãoFigurino Comme des Garcons
A grife japonesa também criou o figurino de uma ópera com base na obra literária
Frankenstein

Ainda na linha de romances inspirados no romantismo, a obra clássica Frankenstein foi escrita em 1823 por Mary Shelley. Com essência de terror gótico, o livro de ficção científica conquistou o posto de clássico da língua inglesa.

A obra reverbera na moda com representações do monstro em estampas da Prada e em prints distribuídos na coleção de outono/inverno 2013 da marca Christopher Kane.  

Edward Berthelot/Getty ImagesFoto Street Style
Prada desenvolveu estampas com a temática do Frankenstein
Christopher Kane/DivulgaçãoColeção Cápsula Christopher Kane
Coleção Cápsula Christopher Kane para o outono/inverno 2013


A literatura de ficção científica entrega a história do cientista Victor Frankenstein, que dá origem a um monstro em seu laboratório. A narrativa aborda as limitações humanas e outros temas, como poemas de implicações religiosas.      

De forma mais sutil, o livro também foi uma das referências para a primavera verão 1999 de Alexander McQueen e na temporada primaveril de 2019 da Feng Chen Wang. Na italiana Gucci, Frankenstein também serviu como base para o atual diretor criativo Alessandro Michele.   

Guy Marineau/Conde Nast via Getty ImagesAlexander McQueen 1999
O famoso vestido Dress nº 13, pintado no meio do desfile de Alexander McQueen, faz parte da coleção de primavera/verão 1999 inspirada na obra Frankenstein
Catwalking/Getty ImagesDesfile Gucci 2018
Em 2018, o diretor criativo da Gucci Alessandro Michele usou o livro Frankenstein como inspiração para a icônica coleção
O Manifesto Ciborgue

O texto pós-moderno de Donna Haraway aborda ciência, tecnologia, feminismo e política. Originalmente publicado em 1984, o manifesto traz uma metáfora para rejeitar os binários e criticar a identidade.

De forma crítica, o estilista Alessandro Michele criou o seu próprio ciborgue para a Gucci em 2018, com elementos surrealistas em uma passarela que retratava um consultório médico.

Catwalking/Getty ImagesDesfile Gucci 2018
Além de Frankenstein, o Manifesto Ciborgue foi base para desfile da Gucci
Catwalking/Getty ImagesDesfile Gucci 2018
Elementos surrealistas surgiram na passarela que retratava um consultório médico
Laranja Mecânica

As imagens de Laranja Mecânica se tornaram icônicas. Na trama publicada em 1962, o jovem protagonista descrito por Anthony Burgess vive uma vida perigosa. Aos 15 anos,  Alex se torna membro de uma gangue de adolescentes que pratica crimes em Londres por puro prazer. 

A história foi adaptada para as telonas em 1972 e as imagens de Laranja Mecânica se tornaram icônicas.

O clássico foi referenciado pelo diretor criativo Jun Takahashi, em 2019, para o outono/inverno da grife Undercover. Nas passarelas, modelos tiveram os rostos cobertos por máscaras, chapéus de coco adornados com penas e trajes simbólicos dos personagens do livro clássico, como bastões.

Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty ImagesDesfile Undercover
A marca se inspirou no livro Laranja Mecânica e trouxe drama para a passarela
Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty ImagesDesfile Undercover
O outono/inverno da grife trouxe trajes simbólicos dos personagens do livro clássico
Victor VIRGILE/Gamma-Rapho via Getty ImagesDesfile Undercover
Máscaras, chapéu de coco e penas detalharam a coleção
Mumbo Jumbo

Criado por Ishmael Reed, o livro Mumbo Jumbo detalha uma epidemia na década de 1920. A doença Jes Grew é causada por um vírus que é transmitido apenas por artistas negros. A história levanta princípios do jazz, preconceito racial e teorias das conspiração.

A narrativa encantou Grace Wales Bonner, que procurou inspiração para o outono/inverno 2019 da sua marca homônima. O desfile foi apresentado na semana de moda feminina de Londres e foi embalado com uma performance artística do poeta americano Ishmael Reed.

 

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?GRACE WALES BONNER @walesbonner WOMENS FW19 • Styled by @tom_guinness • Hair by @eugenesouleiman • Make up @lauren.parsons • Casting by @angusctmunro ?

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The Island of Doctor Moreau

The Island of Doctor Moreau é um romance com toque de ficção científica. Explora as definições e limitações do ser humano. No enredo, um sobrevivente de um naufrágio pousa em uma ilha pertencente ao doutor Moreau, um cientista que pratica vivissecções.

A icônica coleção intitulada como It’s a Jungle Out There, de McQueen, roubou os holofotes em 1997, e faz referência à obra romântica de HG Wells. Na época, o estilista traduziu a história por meio de uma maquiagem exagerada, com aparência de felinos e cabelos despenteados.

https://www.youtube.com/watch?v=4Zt7iz6dMM8

Além de inspirar os estilistas, essas obras embasam campanhas publicitárias, arte e até mesmo a arquitetura. Gostou da seleção? Leia e deixe a mente fluir!

Colaborou Sabrina Pessoa