Por Ilca Maria Estevão, Rebeca Ligabue, Hebert Madeira e Sabrina Pessoa

Livros que inspiraram coleções de moda para ler no isolamento

Clássicos da literatura são referência para estilistas na criação de peças e desfiles icônicos. Relembre!

atualizado 05/05/2020 10:00

Marilyn MonroeEd Feingersh/Michael Ochs Archives/Getty Images

Para quem quer viajar sem sair de casa, os livros se tornaram refúgio durante a quarentena. As publicações oferecem aventura e consolo enquanto o isolamento social ainda é recomendado para evitar o contágio do novo coronavírus. O momento é propício para se reconectar com os clássicos que estão disponíveis na estante da sala e também dar oportunidade a novas obras. Se você está nesse mood, narrativas que inspiraram coleções de moda são uma boa opção para adicionar à lista de leituras.

Vem comigo!Giphy/Reprodução

Imergir na mesma literatura que serviu como referência e inspiração às mentes criativas da moda parece ser uma atividade interessante. Algumas delas despertaram novos olhares aos estilistas e serviram como temática para arrematar as criações que marcaram temporadas.

A relação do universo fashion com a literatura é reflexo da expressão cultural de cada época. Segundo o ensaísta Walter Benjamin, a moda é capaz de, por meio das imagens, sensivelmente traduzir e trazer uma constelação de significados de um período.

Autores que transitam entre os séculos 19 e 20, por exemplo, se apropriam da roupa para traçar um perfil psicológico de cada personagem. Elas mostram o contexto histórico, social e político do período. A roupa como protagonista ou como alegoria também é uma proposta utilizada na construção de histórias. 

Entre os estilistas que se inspiraram em livros, estava o saudoso designer Alexander McQueen, assim como Alessandro Michele, nome por trás da direção criativa da italiana Gucci. A designer de moda Grace Wales Bonner, a japonesa Rei Kawakubo e a grife Vaquera também bebem da literatura para embasar suas criações.

Alexander McQueen na passarela
Alexander McQueen, designer que morreu em 2010, costumava usar referências literárias

 

Alessandro Michele na passarela
Alessandro Michele, da Gucci, também está entre os estilistas que usam livros como inspiração

 

Confira livros que foram referência para coleções de moda:

Orlando

O romance Orlando, assinado por Virginia Woolf, foi publicado em 1928. É conhecido como “a mais longa e encantadora carta de amor de toda a literatura”.

Na obra, Orlando, um jovem inglês, vive seus 350 anos de idade no período da Idade Moderna. Com aspecto imortal, os amores e a ambiguidade da identidade de gênero são retratados. A vida do personagem ganha possibilidades fluidas quando ele acorda no corpo de uma mulher, durante uma viagem à Turquia. 

Durante os séculos, os princípios e a personalidade são mantidos e descritos com bom humor. Posteriormente, em 1992, o romance foi adaptado para o filme Orlando – A Mulher Imortal, protagonizado pela premiada atriz Tilda Swinton. Após ganhar as telonas, a narrativa influenciou a coleção de outono/inverno 2007 da marca homônima comandada por Ann Demeulemeester

Christopher Bailey se inspirou no mesmo romance para a temporada de outono/inverno 2016 da Burberry. A dualidade de gênero da personagem principal desembarcou na coleção masculina e feminina de primavera/verão 2020 da Comme des Garçons pelas mãos da fundadora Rei Kawakubo. Em seguida, as peças criadas pela estilista japonesa viraram figurino de uma ópera, com silhuetas distorcidas e peças acolchoadas. 

Desfile Ann Demeulemeester Paris Fashion Week Spring/Summer 2007
Ann Demeulemeester se inspirou no livro Orlando para o outono/inverno 2007

 

Desfile Burberry London Fashion Week
O romance também deu tom ao outono/inverno 2016 da Burberry

 

Comme des Garcons : Runway - Paris Fashion Week - Womenswear Spring Summer 2020
Comme des Garçons pincelou a temática na coleção de primavera/verão 2020

 

Figurino Comme des Garcons
A grife japonesa também criou o figurino de uma ópera com base na obra literária
Frankenstein

Ainda na linha de romances inspirados no romantismo, a obra clássica Frankenstein foi escrita em 1823 por Mary Shelley. Com essência de terror gótico, o livro de ficção científica conquistou o posto de clássico da língua inglesa.

A obra reverbera na moda com representações do monstro em estampas da Prada e em prints distribuídos na coleção de outono/inverno 2013 da marca Christopher Kane.  

Foto Street Style
Prada desenvolveu estampas com a temática do Frankenstein

 

Coleção Cápsula Christopher Kane
Coleção Cápsula Christopher Kane para o outono/inverno 2013


A literatura de ficção científica entrega a história do cientista Victor Frankenstein, que dá origem a um monstro em seu laboratório. A narrativa aborda as limitações humanas e outros temas, como poemas de implicações religiosas.      

De forma mais sutil, o livro também foi uma das referências para a primavera verão 1999 de Alexander McQueen e na temporada primaveril de 2019 da Feng Chen Wang. Na italiana Gucci, Frankenstein também serviu como base para o atual diretor criativo Alessandro Michele.   

Alexander McQueen 1999
O famoso vestido Dress nº 13, pintado no meio do desfile de Alexander McQueen, faz parte da coleção de primavera/verão 1999 inspirada na obra Frankenstein

 

Desfile Gucci 2018
Em 2018, o diretor criativo da Gucci Alessandro Michele usou o livro Frankenstein como inspiração para a icônica coleção
O Manifesto Ciborgue

O texto pós-moderno de Donna Haraway aborda ciência, tecnologia, feminismo e política. Originalmente publicado em 1984, o manifesto traz uma metáfora para rejeitar os binários e criticar a identidade.

De forma crítica, o estilista Alessandro Michele criou o seu próprio ciborgue para a Gucci em 2018, com elementos surrealistas em uma passarela que retratava um consultório médico.

Desfile Gucci 2018
Além de Frankenstein, o Manifesto Ciborgue foi base para desfile da Gucci

 

Desfile Gucci 2018
Elementos surrealistas surgiram na passarela que retratava um consultório médico
Laranja Mecânica

As imagens de Laranja Mecânica se tornaram icônicas. Na trama publicada em 1962, o jovem protagonista descrito por Anthony Burgess vive uma vida perigosa. Aos 15 anos,  Alex se torna membro de uma gangue de adolescentes que pratica crimes em Londres por puro prazer. 

A história foi adaptada para as telonas em 1972 e as imagens de Laranja Mecânica se tornaram icônicas.

O clássico foi referenciado pelo diretor criativo Jun Takahashi, em 2019, para o outono/inverno da grife Undercover. Nas passarelas, modelos tiveram os rostos cobertos por máscaras, chapéus de coco adornados com penas e trajes simbólicos dos personagens do livro clássico, como bastões.

Desfile Undercover
A marca se inspirou no livro Laranja Mecânica e trouxe drama para a passarela

 

Desfile Undercover
O outono/inverno da grife trouxe trajes simbólicos dos personagens do livro clássico

 

Desfile Undercover
Máscaras, chapéu de coco e penas detalharam a coleção
Mumbo Jumbo

Criado por Ishmael Reed, o livro Mumbo Jumbo detalha uma epidemia na década de 1920. A doença Jes Grew é causada por um vírus que é transmitido apenas por artistas negros. A história levanta princípios do jazz, preconceito racial e teorias das conspiração.

A narrativa encantou Grace Wales Bonner, que procurou inspiração para o outono/inverno 2019 da sua marca homônima. O desfile foi apresentado na semana de moda feminina de Londres e foi embalado com uma performance artística do poeta americano Ishmael Reed.

 

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?GRACE WALES BONNER @walesbonner WOMENS FW19 • Styled by @tom_guinness • Hair by @eugenesouleiman • Make up @lauren.parsons • Casting by @angusctmunro ?

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The Island of Doctor Moreau

The Island of Doctor Moreau é um romance com toque de ficção científica. Explora as definições e limitações do ser humano. No enredo, um sobrevivente de um naufrágio pousa em uma ilha pertencente ao doutor Moreau, um cientista que pratica vivissecções.

A icônica coleção intitulada como It’s a Jungle Out There, de McQueen, roubou os holofotes em 1997, e faz referência à obra romântica de HG Wells. Na época, o estilista traduziu a história por meio de uma maquiagem exagerada, com aparência de felinos e cabelos despenteados.

Além de inspirar os estilistas, essas obras embasam campanhas publicitárias, arte e até mesmo a arquitetura. Gostou da seleção? Leia e deixe a mente fluir!

 

Colaborou Sabrina Pessoa

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