
Ilca Maria EstevãoColunas

Chapéu de crochê vira tendência, mas flerta com a apropriação cultural
Os chapéus de crochê foram um destaque no street style do Copenhagen Fashion Week, mas lembram adereço religioso do Oriente Médio
atualizado
Compartilhar notícia

A moda da capital dinamarquesa teve um início de mês movimentado com a edição de primavera/verão 2026 do Copenhagen Fashion Week. No street style, um acessório em particular fez sucesso: os nostálgicos chapéus de crochê. Embora não sejam exatamente uma novidade, o item chamou atenção pela frequência com que foi visto. Além disso, é semelhante aos taqiyahs ou kufis usados pelos homens muçulmanos.
Seria a “coincidência” um flerte com a apropriação cultural de um símbolo religioso do islã? Vem entender o contexto por trás da peça!

Chapéus de crochê nas ruas de Copenhague
Nas ruas de Copenhague, o chapéu de crochê – assim como lenços e outros acessórios de cabeça, vistos com uma frequência similar – surgiram de diferentes formas e cores, das mais discretas, com design simples, às mais destacadas, com formas crochetadas. Algumas delas, adornadas com miçangas ou trabalhadas em materiais metalizados.
Por lá, vale lembrar, o início do outono se aproxima, tornando a escolha dos chapéus um meio-termo para curtir tanto o sol do verão, como proteger a cabeça da brisa em dias de temperaturas mais baixas. Segundo o WWD, uma marca em particular tem se destacado entre as entusiastas da tendência: a luxemburguesa Kroon 02, com diversas opções.






Ao longo da história
Entre o fim do século 19 e o início do século passado, mulheres usavam toucas para dormir e, assim, evitar o embaraço dos cabelos. Ao longo das décadas adiante, o shape do gorro rente à silhueta da cabeça ganhou adeptos em diferentes contextos. Nos anos 1920, por exemplo, eles eram parte do estilo inovador das mulheres conhecidas como melindrosas.
Trinta anos mais tarde, o item viria a ganhar um espaço mais voltado para a funcionalidade, na forma de toucas de banho. Nos anos 1970, foi adotado como adereço pelo movimento hippie e pelas estrelas do entretenimento da época. Como tudo na moda é cíclico, os chapéus de crochê também caíram nas graças das celebridades na transição entre os anos 1990 e 2000.



Kufis, chapéus muçulmanos
No islã, o gorro de oração costuma ser usado pelos homens durante a prece conhecida como Salah. Apesar de o uso do item não ser obrigatório, ele é considerado uma forma simbólica de demonstrar tradição, humildade e respeito. Principalmente, quando utilizado nas mesquitas.
Séculos atrás, o acessório era também uma forma de proteger a cabeça da poeira e do sol. As variações do gorro incluem o taqiyah, um modelo mais simples e arredondado, e o kufi, que costuma levar bordados e é mais estruturado. Além do turbante, que pode ter um taqiyah por baixo em alguns casos.
As variações do gorro de acessório representam a diversidade das diferentes culturas à qual ele está ligado, traduzidas em materiais e padronagens que refletem a tradição do artesanato local de regiões como Oriente Médio, África Ocidental e o Sudeste Asiático. Em muitos casos, fibras naturais, como algodão, seda e lã, são utilizadas na produção, e a escolha varia de acordo com a ocasião ou a temperatura da região.



Reflexão simbólica
A comparação entre o chapéu de crochê que fez sucesso em Copenhague e os gorros de oração dos homens muçulmanos revela uma dualidade na moda: ao mesmo tempo em que ela recicla formas e materiais a cada temporada, desperta discussões sobre os limites entre inspiração e uma possível apropriação.
O que pode surgir como tendência, sobretudo em países desenvolvidos do Ocidente, em alguns casos carrega significados profundos culturais e até espirituais em outros cantos do mundo. Cabe ao olhar contemporâneo de quem cria, consome ou aprecia, reconhecer essas camadas e buscar entender se gestos aparentemente estéticos também respeitam a história por trás do que já existe.
Na galeria abaixo, veja mais exemplos recentes no street style do Copenhagen Fashion Week:


















