
Ilca Maria EstevãoColunas

Chanel é acusada de machismo e falta de consciência de classe em curta
A grife investiu no marketing, mas foi alvo de duras críticas por perpetuar o padrão da “mulher branca” como consumidora ideal da Chanel
atualizado
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Enquanto por um lado a Chanel é aplaudida e reverenciada por anunciar A$AP Rocky como o embaixador da marca — abrindo espaço para a diversidade ao mesmo tempo em que inclui a moda masculina no line-up de suas coleções — a grife francesa vem sofrendo duras críticas referentes a escolhas das mulheres que protagonizam espaços, imagens e campanhas da label. Não é de hoje que Gabrielle “Coco” Chanel — criadora da etiqueta de luxo fundada em 1910 — é retratada como “eugenista”, sendo conhecida por ter vivido romance com soldado nazista durante a Segunda Guerra.
Para completar, até o seu falecimento em 2019, Karl Lagerfeld estava a frente da maison. Embora fosse um gênio da moda, o estilista nunca negou sua preferência por vender, criar, e divulgar coleções voltadas para mulheres “padrão” — brancas, altas e magras: a estética elitista francesa. Agora, a discussão volta à tona com o curta-metragem que antecedeu a coleção Métiers D’Art 2026. Afinal, além da pauta conservadora do curta, escalaram A$AP Rocky vivendo um grande amor com a atriz Margaret Qualley, gerando a crítica de que as portas da diversidade da grife se abriram para os homens, e não para as mulheres. Surgiram ainda relatos que apontaram a desconexão da produção com a realidade: “Um casal que veste Chanel não moraria no West Village”.
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Sobre o curta
Matthieu Blazy estreou na direção criativa da grife francesa durante o Paris Fashion Week, em outubro deste ano, e foi amplamente elogiado pela coleção apresentada. No entanto, a recepção de sua primeira Métiers d’Art — a coleção anual de alta-costura da marca — foi mais dividida. Enquanto parte do público se encantou com as peças desfiladas, outra parcela direcionou críticas ao fashion film que antecedeu o lançamento.



Dirigido por Michel Gondry — cineasta responsável pelo cultuado Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças —, o filme acompanha a rotina de um casal interpretado por Margaret Qualley e A$AP Rocky, cuja normalidade é interrompida por um pedido de casamento. Ambientada em Manhattan, a narrativa mostra Qualley acordando, se vestindo para o trabalho e saindo de casa enquanto Rocky ainda dorme. Ao despertar e perceber que ela já partiu, ele deixa o apartamento às pressas, tentando alcançá-la.



O enredo alterna cenas de Qualley seguindo seu trajeto habitual pelo metrô de Nova York com imagens de Rocky atravessando a cidade em ritmo acelerado, quase cômico. Quando finalmente a encontra, ele a pede em casamento em frente à estação Astor Place, e ela aceita — também comemorando em velocidade aumentada. O casal então retorna ao metrô, sugerindo que Qualley deixa de ir ao trabalho após o pedido.

Reforço de estereótipo
Um dos pontos levantados na web foi a reprodução do estereótipo de que a vida e as aspirações de uma mulher giram em torno do casamento. A crítica toma como base a atitude de Qualley, enquanto personagem do fashion film, de retornar para o metrô após o pedido de casamento e não seguir com a sua rotina de trabalho. “É frustrante ver uma narrativa que retrata a mulher como alguém cuja vida é tão centrada no casamento, que ela pode faltar um dia de trabalho e nem ligar pra isso”, comenta internauta.



Ao longo dos anos, a imagem da “mulher Chanel” foi tomando forma e sendo reinterpretada sob diversas óticas criativas. Para Blazy, em sua primeira coleção para a grife francesa, foi por meio de códigos estéticos que marcaram o início da maison, durante o comando de Coco. O estilista revisitou criações da francesa e redefiniu o imagético com modernidade e praticidade.



Se Blazy pretende que a mulher moderna da Chanel seja prática, elegante e antenada, faz sentido que essa mesma personagem seja retratada pelas lentes do casamento? Apesar de uma das características principais dos fashion films ser o apoio narrativo em clichês cinematográficos, o estilo de conteúdo publicitário permite explorar a criatividade e inventividade na hora de elaborar tramas do universo da moda.

Casal interracial
Entre as críticas feitas pelo público, está a escolha de um casal interracial como protagonista da campanha: Qualley, uma mulher branca dos olhos azuis, e Rocky, um homem negro que se destaca pela estética associada ao hip-hop. “Por que escolher o marido negro de uma das mulheres negras mais influentes do mundo para casar com uma mulher branca no fashion film? Isso levanta questionamentos se a produção por trás está reforçando dinâmicas raciais antigas sem querer, ao invés de desfia-las”, criticou internauta.

Houve ainda um certo “incômodo” com o fato de que ambos os protagonistas são casados com outras pessoas na vida real. “Será que podemos fazer o mesmo vídeo, mas com a Rihanna da próxima vez?”, questionou uma usuária do Instagram. “Eles não poderiam ter escolhido atores solteiros para isso?”, indagou outra.


Esta não é a primeira vez que a atriz Margaret Qualley figura em um curta-metragem da Chanel: a artista já havia protagonizado o projeto anterior da marca, The Button. Já Rocky foi anunciado como embaixador da maison francesa há menos de um mês. O rapper é reconhecido não apenas pela música, mas pela capacidade de transformar a moda em expressão artística.
Classe social e poder de compra



