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Ilca Maria Estevão

Centenário da Semana de 1922 reforça a necessidade da moda brasileira

Marco para a cultura brasileira, o evento se propôs a romper com os padrões estéticos e estilísticos antigos e abrir para a modernidade

10/02/2022 02:00, atualizado 10/02/2022 06:32
Água de Coco/Divulgação
Modelo loura com vestido amplo cuja estampa é um quadro da pintora Tarsila do Amaral

A Semana de Arte Moderna de 1922 completa 100 anos neste mês de fevereiro. O evento foi um marco na história brasileira e dividiu a cultura em “antes” e “depois”, afetando, principalmente, as artes plásticas e a literatura. Apesar de a indústria fashion beber frequentemente dessas áreas, segundo especialistas, os artistas responsáveis pela data não respondem pelo estabelecimento de uma moda genuinamente nacional.

Vem entender!

Giphy/Água de Coco/Divulgação

O Centenário da Independência do Brasil foi o gatilho para que um grupo de intelectuais organizasse, entre os dias 13 e 17 de fevereiro de 1922, no Teatro Municipal de São Paulo, um festival que incluía cerca de 100 obras. “Os artistas buscavam uma arte que também fosse independente e dialogasse com as especificidades do país, assim como uma linguagem literária que falasse português brasileiro”, conta Gisele Eberspächer. 

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A jornalista, professora e mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) assina o texto que abre a 126ª edição do jornal literário Cândido, editado pela Biblioteca Pública do Paraná. A primeira edição de 2022 traz reflexões sobre o Centenário da Semana de Arte Moderna. “O impacto do evento na literatura e na arte brasileiras é inegável — tanto que é recebida com entusiasmo pelas editoras, pelos museus e por outros espaços culturais”, aponta a especialista.

A moda, portanto, não poderia deixar de ser impactada por esse aniversário. Desde o ano passado, marcas, como a Melissa, de acessórios, e Água de Coco, de beachwear, lançaram coleções em homenagem à Tarsila do Amaral. A dicotomia, porém, é que os artistas da Semana não mostraram preocupação em redefinir as influências do guarda-roupa brasileiro.

Brunno Almeida Maia, pesquisador e curador de moda, explica que, para entender a influência da Semana nas vestimentas, é preciso investigar os movimentos que inspiraram artistas como Anita Malfatti e Oswald de Andrade. “O Fauvismo, o surrealismo e o futurismo, que foram as referências dos intelectuais brasileiros, propuseram temas ligados à moda e à roupa.”

Por outro lado, em apuração para reportagem especial da Folha de S.Paulo, o jornalista Pedro Diniz reforçou a ideia de que a Semana de 22 não trouxe “brasilidade” para a moda do país. “O modernismo brasileiro reafirmou o gosto das elites pelo estilo internacional e uma herança de moda colonial que até hoje repercute na idealização do Brasil sobre o ‘ser chique’”, escreveu.

Prefeitura de São Paulo/ReproduçãoConvite da Semana de Arte de 1922
Convite que anunciava o último dia da Semana de Arte Moderna
Instituto Tarsila do Amaral/DivulgaçãoA pintora Tarsila do Amaral com vestido xadrez e um de seus quadros ao fundo
Tarsila do Amaral também apostava em uma moda de influência europeia. Era constantemente vista com criações do francês Paul Poiret
Museu de Arte de São Paulo/DivulgaçãoQuadro de Anita Malfatti exposto no MASP
Em A Estudante, obra de Anita Malfatti, é possível perceber detalhes das vestimentas comuns à época: peças de alfaiataria

São Paulo como centro

Estudiosos das artes e da história colocam como hipótese para a falta de abrangência da Semana o fato de ela ter sido “financiada por políticos e figuras da elite financeira paulista, principalmente a oligarquia cafeeira”, como explicou Gisele Eberspächer. Luís Augusto Fischer, professor de literatura na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), escreveu, em coluna na Folha de S.Paulo, que o evento propagou a falsa ideia de que o movimento paulista foi o berço da modernidade no Brasil.

Essa reflexão pode ser trazida para a moda. Ao passo que estamos caminhando para a consolidação de uma moda genuinamente brasileira, marcas que importam as tendências internacionais e reproduzem em ritmo recorde saem à frente das etiquetas que apostam no design autoral e nas técnicas manuais e artesanais para a produção. 

A baiana Adriana Meira é um dos nomes que nada contra a corrente. Apesar de ter morado na capital paulista entre os anos 2010 e 2014, quando trabalhou em outras marcas de moda, manteve o estilo dos apliques manuais e reforçou a importância da história dos tecidos. À coluna a estilista afirma que o leque de etiquetas fora do eixo São Paulo – Rio de Janeiro “tornou-se bastante amplo, seja por um anseio de novidade do consumidor consciente ou pela construção de anos falando sobre a valorização da arte, ancestralidade, moda e artesanato brasileiro”.

Segundo a própria estilista, a estética da Adriana Meira foi definida na base da experimentação. A marca registrada da etiqueta homônima é o uso de recorte e aplicações que formam desenhos inspirados na história de cada cliente ou dos estudos da baiana sobre a sua ancestralidade. Já a confecção das peças segue regional e é dividida entre a cidade de Adriana, Brumado, na Bahia, e Sumé, na Paraíba. 

Água de Coco/DivulgaçãoModelo loura com roupa da marca Água de Coco em homenagem a Tarsila do Amaral
A estampa Floresta, da Água de Coco, reuniu elementos da fauna e flora das obras de Tarsila do Amaral
Água de Coco/DivulgaçãoModelo negra com roupa da marca Água de Coco em homenagem a Tarsila do Amaral
Em outras peças, a marca reproduziu as obras de forma fiel
Adriana Meira/DivulgaçãoEstilista Adriana Meira com roupa própria com estampa de Iemanjá
A estilista Adriana Meira com criação própria, um vestido que faz homenagem à Iemanjá, rainha das águas
Adriana Meira/DivulgaçãoJaqueta jeans da Adriana Meira com estampa de Cosme e Damião
Apesar de exportar para países, como Estados Unidos, a marca continua com a produção local e em pequena escala. Na foto, a estilista referencia Cosme e Damião

Celebração do centenário

O aniversário da Semana de 22 está estimulando o lançamento e o relançamento de diversos livros sobre o tema ou dos pensadores que participaram, como uma reedição de Macunaíma, de Mario de Andrade. Vale destacar o título O Guarda-Roupa Modernista, de Carolina Casarin, que destrincha a relação do casal Tarsila do Amaral e Oswald de Andrade com a moda.

A marca brasiliense Dobe apresenta uma coleção-cápsula que referencia o trabalho de Di Cavalcanti. Segundo a etiqueta, o artista plástico “contribuiu significativamente para distinguir a arte brasileira de outros movimentos artísticos de sua época, através de suas reconhecidas cores vibrantes, formas sinuosas e temas tipicamente brasileiros”.

Antofágica/DivulgaçãoCapa do livro Macunaíma, de Mário de Andrade, pela editora Antofágica
A reedição de Macunaíma da editora Antofágica vem com uma capa cheia de brasilidade, graças às ilustrações de Camille Sproesser
DOBE/DivulgaçãoCamiseta branca da marca DOBE com ilustração do convite de divulgação da Semana de Arte Moderna
Uma das estampas da coleção da Dobe traz o convite desenhado por Di Cavalcanti para a Semana de Arte Moderna de 1922
DOBE/DivulgaçãoManequim preto vestindo lenço da marca DOBE com estampa do quadro do artista Di Calvanti
Outro item da coleção inspirada em Di Cavalcanti é um lenço que reproduz a tapeçaria “Músicos”, presente no Palácio da Alvorada, em Brasília

O centenário da Semana de Arte Moderna e o bicentenário da Independência do Brasil são ótimas oportunidades para gerar discussões e reflexões sobre a história do nosso país e da nossa cultura, em especial no que tange a moda. Os dois eventos históricos são essenciais para entender a construção da identidade brasileira.

Para outras dicas e novidades sobre o mundo da moda, siga @colunailcamariaestevao no Instagram. Até a próxima!

Colaborou Carina Benedetti