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Ilca Maria Estevão

Casa de Criadores: 49ª edição questiona o futuro da moda

Em modelo híbrido, com desfiles presenciais e vídeo-performances, evento contou com 28 marcas no lineup

13/12/2021 15:10, atualizado 14/12/2021 11:27
NotEqual/Divulgação
Modelo negro

A 49ª edição da Casa de Criadores ocorreu na quinta (9/12) e na sexta-feira (10/12) com um lineup de 28 marcas, entre estreantes e nomes consolidados. Com apresentações majoritariamente virtuais, o tom geral do evento foi de questionamentos para a moda nacional. 

Vem conferir os destaques!

Giphy/Casa de Criadores/Divulgação

Abertura

“Eu sou o Eterno Retorno / Eu sou o espaço cibernético / (…) Eu sou o garoto & a garota / Casa Grande & Senzala”. Os trechos de Poemas Vertigem, de Roberto Piva, embalaram a apresentação do paulista Leandro Castro, o start dessa edição da Casa de Criadores.

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No vídeo, três atores assistem uma blusa branca pegar fogo. O elemento “foi escolhido por aludir ao desejo do renascimento dos modos de vestir e de vida, como uma fênix”, explicou o estilista.

A camisa não foi uma escolha aleatória: seu trabalho é centrado na camisaria e na alfaiataria. As formas amplas e espaçosas e os recortes das peças da coleção foram inspirados justamente na miragem das chamas. E a paleta de cores também remete à escuridão, aos tons do fogo e às fibras naturais dos tecidos.

Simples, mas assertiva e autoral, a coleção Fogo, de Leandro Castro, traz uma reflexão sobre a moda como algo que é descartado para ganhar nova vida. Esse processo de transformação não visa garantir um ciclo sustentável e sim estimular o consumo. A roupa é queimada para que uma nova entre em seu lugar.

Leandro Castro/Divulgação
A coleção Fogo é uma crítica ao consumo exacerbado
Leandro Castro/DivulgaçãoModelo negra de roupa branca e casaco bege
A paleta de cores das peças foi inspirada na performance da camisa pegando fogo
Leandro Castro/DivulgaçãoModelo negro de roupa amarela
Leandro Castro tem como marca registrada uma alfaiataria precisa
Estreantes

Quem também trouxe uma apresentação provocativa foi a Guma Joana. A coleção da marca, que participa da Casa de Criadores pela primeira vez, foi intitulada D3SD1T4 03: TRAVA GOTH ELEGANCE e desenvolvida criativamente a partir do poema Alcoólicas, de Hilda Hilst.

As roupas rasgadas e tingidas de vermelho – para remeter a manchas de sangue – e detalhes como correntes e cartelas vazias de comprimidos fazem referência direta às dificuldades das pessoas transvestigênere. O assunto, inclusive, já foi abordado por Guma Joana em performances artísticas.

Quem também debutou no evento foi a Yebo, marca paulista de streetwear que apresentou um “filme-desfile-manifesto” com a temática “Pelo Direito de Brilhar”. “‘O que te impede de brilhar todos os dias e em todas as oportunidades?’. Esses questionamentos são inspirados por toda ocasião em que impede-se uma pessoa de ser uma potência solar em seu cotidiano”.

Guma Joana/DivulgaçãoPessoas com roupas futuristas e ensanguentadas
A coleção da estreante Guma Joana foi inspirada em obra da poeta Hilda Hilst
Guma Joana/DivulgaçãoMulher branca com roupa de remédios
A marca tem uma veia artística e performática forte. Críticas sociais são uma constante na Guma Joana
Yebo/DivulgaçãoPessoa andando com uma capa branca com frase escrita
Na sua estreia na Casa de Criadores, a Yebo optou por apresentar apenas um look
Yebo/DivulgaçãoMulher negra com capuz branco
A ideia da marca é trazer uma reflexão sobre o que impede as pessoas de chegarem à máxima potência
Nomes consolidados

A marca homônima do cearense David Lee, que tem como carro-chefe o crochê, também participou do evento. Trouxe tons vibrantes de rosa, laranjas e azuis para criar uma imagem de paralelos entre as ideias de restrição e liberdade. 

A coleção Travessia conseguiu usar a alfaiataria e referências militares de uma forma leve e alegre, brincando com amarrações, botões e faixas. As sandálias de crochê descombinadas reforçam o conceito de rompimentos e conexões e a maestria do estilista para trabalhar com o material em questão.

Já o mineiro Fábio Costa, que comanda a NotEqual, recorreu à psicologia para criar uma coleção sensível que mergulha no subconsciente e na raiz da construção das memórias afetivas. Brucutú Brut Couture mescla silhuetas estruturadas e leves; retalhos, tecidos lisos e cordas; com o objetivo de esboçar a ideia do rememorar. 

“Pensei em não contar uma história lógica, mas analisar através da sequência, colagem de imagens e movimentos a reestruturação [das] lembranças. Cada figura em cena assume um arquétipo, que dita seus movimentos”, explicou o diretor criativo em comunicado.

David Lee/DivulgaçãoHomem negro com calça de crochê
Os tons vibrantes dão vibração às peças em crochê
David Lee/DivulgaçãoMulher branca de vestido preto
Outro ponto alto de Travessia é alfaiataria
NotEqual/DivulgaçãoModelo negro com roupa branca em foto embaçada
A coleção da NotEqual traz, ao mesmo tempo, peças leves e outras estruturadas
NotEqual/DivulgaçãoCasaco de retalhos
Os retalhos fazem referência às memórias
Instituto Casa de Criadores

Com o objetivo de criar novas bases para a educação em moda e design no Brasil, foi lançado neste mês de dezembro o Instituto Casa de Criadores. Além do fundador e curador da Casa de Criadores, André Hidalgo, a nova empreitada tem um conselho formado pelo estilista Dudu Bertholini, pela ativista e pesquisadora Neon Cunha, pelo especialista em design para sustentabilidade André Carvalhal e pelo artista plástico e performer Dudx.

Qual moda, para qual mundo?, o primeiro curso do Instituto, foi gratuito e reforçou a ideia da Casa de Criadores de ser um espaço colaborativo. A ideia é auxiliar marcas e criativos a desenvolverem seus próprios projetos e a pensarem suas posições na moda nacional. 

Colaborou Carina Benedetti