Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Ilca Maria Estevão

Após agredir ativistas, CEO do Conselho de Moda dos EUA renuncia a cargo

Steven Kolb renunciou ao cargo de CEO do Conselho de Designers de Moda da América (CFDA) após viralizar por agredir ativistas da PETA

Steve Eichner/WWD via Getty Images
Após agredir ativistas, CEO do Conselho de Moda dos EUA renuncia a cargo

Após 20 anos à frente do Conselho de Designers de Moda da América (CFDA), Steve Kolb renunciou ao cargo de CEO da instituição. O anúncio ocorreu após viralizarem vídeos em que Kolb aparece imobilizando fisicamente ativistas da organização PETA (Pessoas pelo Tratamento Ético dos Animais) durante um dos desfiles da Semana de Moda de Nova York.

Desde a última segunda-feira (14/9), Kolb estava afastado das funções, enquanto o conselho analisava o caso. Na sexta-feira (18/9), ele anunciou oficialmente sua saída do CFDA.

Vem comigo entender o caso!

Steve Eichner/WWD/Penske Media via Getty ImagesSteve Kolb - Metrópoles
Steve Kolb esteve à frente do Conselho de Designers de Moda da América durante 20 anos, até sua renúncia, na última sexta-feira (18/9)

Agressão a ativistas

A agressão ocorreu durante um dos desfiles da Semana de Moda de Nova York, realizada entre 10 e 15 de setembro. No vídeo, Kolb aparece em dois momentos: em um deles, impede que um homem grite durante o desfile; no outro, contém os movimentos de uma mulher para que ela não atravesse a passarela.

Entre no canal de WhatsApp do Metrópoles

O episódio foi registrado no domingo (13/9), durante a apresentação da coleção primavera/verão 2027 da COS, marca do grupo sueco H&M. Os cinco ativistas que interromperam o desfile carregavam cartazes com a frase “ovelhas espancadas e ensanguentadas por lã, não compre” e protestavam contra o uso de lã de ovelha pelas marcas.

Gilbert Flores/WWD via Getty Images
Um manifestante na passarela durante o desfile da COS, parte da temporada Ready-to-Wear Primavera/Verão 2027, realizado no WSA, em 13 de setembro de 2026, em Nova York

Pedido de desculpas não foi suficiente

Ainda na noite do desfile, Kolb se manifestou nos stories do Instagram e admitiu que havia “reagido de forma inapropriada” e que deveria ter deixado a segurança lidar com a situação. Na segunda-feira, o CFDA o afastou oficialmente do cargo e informou que o caso seria analisado pelo conselho da entidade. Apesar do pedido de desculpas e do afastamento, a pressão por uma saída definitiva aumentou nos dias seguintes, culminando na renúncia.

Steve Eichner/WWD via Getty Images
Steve Kolb

Kolb havia entrado para o CFDA em 2006 e assumido o posto de CEO em 2011, período em que esteve à frente de iniciativas como o CFDA/Vogue Fashion Fund e o CFDA Awards. O conselho da entidade reúne nomes de peso do design americano, como Tory Burch, Ralph Lauren e Michael Kors.

Udo Salters/Patrick McMullan via Getty Images
Os participantes da marcha Aurora James, Steve Kolb, Thom Browne, Tory Burch, Michael Kors, Zac Posen e Joseph Altuzarra participam da manifestação “Fashion For Our Future”, organizada pelo CFDA em 2024

O que diz a PETA

Nos primeiros dias após o episódio, a PETA afirmou que registraria um boletim de ocorrência e buscaria responsabilizar Kolb criminalmente. Segundo Moira Colley, diretora de relações com a mídia da organização em Nova York, porém, a entidade mudou de estratégia após consultar a polícia e advogados. Em vez de levar a denúncia adiante, decidiu buscar uma reunião direta com Kolb para discutir o fim do uso de lã e couro pelas marcas.

A PETA também afirma que o protesto teve como alvo uma fazenda fornecedora certificada pela NATIVA e ligada à H&M Group. Segundo a organização, trabalhadores do local teriam sido flagrados maltratando ovelhas durante a tosquia.

 

Ver esse post no Instagram

 

Um post compartilhado por PETA (@peta)

Confrontos na passarela

A tática da PETA de invadir desfiles é, na verdade, uma estratégia deliberada e recorrente da organização há mais de três décadas. O primeiro protesto do tipo ocorreu em 1991, durante um desfile da Oscar de la Renta, quando ativistas nus subiram à passarela com uma faixa que dizia: “Prefiro ficar nu a usar pele”. A marca só baniu o uso de peles 30 anos depois, em 2021.

Em 2002, a organização também interrompeu um desfile da Victoria’s Secret para protestar contra a modelo Gisele Bündchen, então garota-propaganda da peleteria Blackglama. No mesmo ano, cartazes contra o uso de peles também marcaram presença em um desfile da Valentino.

Wally McNamee/CORBIS/Corbis via Getty Images
Protestantes da PETA fazem uma manifestação, quase nuas, em pleno inverno, durante o horário de pico, em uma das principais vias de acesso a Washington, D.C

Passarelas de grandes marcas seguem sendo alvo recorrente da organização a cada temporada: nos últimos anos, desfiles da Coach, Michael Kors, Burberry, Gucci, Hermès e Louis Vuitton já foram interrompidos por ativistas da PETA. Em Londres, em 2019, ativistas chegaram a se cobrir com lama preta para simbolizar o “lixo tóxico” da indústria do couro. Parte do público nas redes sociais apontou, inclusive, que a reação de Kolb foi tão extrema justamente em razão da reiterada intervenção de ativistas em eventos passados.

Após agredir ativistas, CEO do Conselho de Moda dos EUA renuncia a cargo - destaque galeria
6 imagens
Protesto contra o uso de couro do lado de fora do espaço de desfiles do BFC durante a London Fashion Week, em 13 de setembro de 2019
Apoiadores da PETA realizam um protesto “die-in” nus, usando apenas máscaras de urso e segurando cartazes em diferentes idiomas com a mensagem “Ursos são abatidos para os guardas da rainha – Indefensável”, próximo à Catedral de São Paulo, em Londres
Policiais de Nova York prendem ativistas pelos direitos dos animais que tentaram entrar nos escritórios da revista Vogue durante um protesto da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), em 2 de junho de 2003, em Nova York. Os ativistas da PETA derramaram tinta vermelha sobre casacos de pele para protestar contra o uso de peles de animais na indústria da moda
Manifestantes da PETA durante o protesto de Halloween contra o uso de peles por Anna Wintour, em 28 de outubro de 2005, no edifício da Condé Nast, em Nova York
Manifestantes protestam enquanto a modelo Gisele Bündchen (à direita) desfila durante o Victoria’s Secret Fashion Show, realizado no Lexington Avenue Armory, em 14 de novembro de 2002, em Nova York
Protesto da organização em frente ao desfile da H&M na London Fashion Week, realizado na Olympia London, em 17 de setembro de 2026
1 de 6

Protesto da organização em frente ao desfile da H&M na London Fashion Week, realizado na Olympia London, em 17 de setembro de 2026

Christian Vierig/Getty Images
Protesto contra o uso de couro do lado de fora do espaço de desfiles do BFC durante a London Fashion Week, em 13 de setembro de 2019
2 de 6

Protesto contra o uso de couro do lado de fora do espaço de desfiles do BFC durante a London Fashion Week, em 13 de setembro de 2019

Neil Mockford/GC Images
Apoiadores da PETA realizam um protesto “die-in” nus, usando apenas máscaras de urso e segurando cartazes em diferentes idiomas com a mensagem “Ursos são abatidos para os guardas da rainha – Indefensável”, próximo à Catedral de São Paulo, em Londres
3 de 6

Apoiadores da PETA realizam um protesto “die-in” nus, usando apenas máscaras de urso e segurando cartazes em diferentes idiomas com a mensagem “Ursos são abatidos para os guardas da rainha – Indefensável”, próximo à Catedral de São Paulo, em Londres

Fiona Hanson – PA Images/PA Images via Getty Image
Policiais de Nova York prendem ativistas pelos direitos dos animais que tentaram entrar nos escritórios da revista Vogue durante um protesto da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), em 2 de junho de 2003, em Nova York. Os ativistas da PETA derramaram tinta vermelha sobre casacos de pele para protestar contra o uso de peles de animais na indústria da moda
4 de 6

Policiais de Nova York prendem ativistas pelos direitos dos animais que tentaram entrar nos escritórios da revista Vogue durante um protesto da People for the Ethical Treatment of Animals (PETA), em 2 de junho de 2003, em Nova York. Os ativistas da PETA derramaram tinta vermelha sobre casacos de pele para protestar contra o uso de peles de animais na indústria da moda

Adam Rountree/Getty Images
Manifestantes da PETA durante o protesto de Halloween contra o uso de peles por Anna Wintour, em 28 de outubro de 2005, no edifício da Condé Nast, em Nova York
5 de 6

Manifestantes da PETA durante o protesto de Halloween contra o uso de peles por Anna Wintour, em 28 de outubro de 2005, no edifício da Condé Nast, em Nova York

J. Kempin/FilmMagic
Manifestantes protestam enquanto a modelo Gisele Bündchen (à direita) desfila durante o Victoria’s Secret Fashion Show, realizado no Lexington Avenue Armory, em 14 de novembro de 2002, em Nova York
6 de 6

Manifestantes protestam enquanto a modelo Gisele Bündchen (à direita) desfila durante o Victoria’s Secret Fashion Show, realizado no Lexington Avenue Armory, em 14 de novembro de 2002, em Nova York

Matthew Peyton/Getty Images

Público mais atento à cadeia têxtil

O episódio também precisa ser lido dentro de um movimento mais amplo: o consumidor de moda está cada vez mais atento ao que acontece por trás da confecção de uma peça. Segundo o estudo “Geração Ctrl+Z”, da Consumoteca, a Geração Z busca e quer saber como cada peça foi produzida, por quem, e quais os impactos ambientais e sociais da fabricação, o que vem pressionando marcas por mais rastreabilidade e transparência na cadeia produtiva, da origem da matéria-prima até o descarte.

Sven Kaeuler/dpa – picture alliance via Getty Images
Ativistas do Greenpeace, vestidos com macacões cor-de-rosa, protestam em frente a uma loja pop-up da empresa de moda Shein, segurando cartazes com as frases “Fechada devido à irresponsabilidade!” e “Combata o fast fashion”

Pesquisas acadêmicas recentes sobre o comportamento de compra desse público no Brasil também apontam menor propensão ao consumo de fast fashion entre os mais jovens. O público, portanto, está mais disposto a cobrar responsabilização do que há alguns anos, quando protestos de rua costumavam ser tratados como um incômodo passageiro e rapidamente esquecido.

Krisztian Elek/SOPA Images/LightRocket via Getty Images
Ativistas são vistos segurando cartazes em frente à loja da Louis Vuitton na New Bond Street