André Perugia fez história no design de calçados; conheça legado
Nos anos 1920, o estilista aplicava seus conhecimentos de engenharia para tratar sapatos como esculturas

Sapatos que parecem verdadeiras esculturas se tornaram praticamente um gênero à parte nas passarelas contemporâneas. Com formas improváveis e referências artísticas inesperadas, essas criações dominam as coleções atuais. No entanto, essa linguagem não é recente. Na década de 1920, o sapateiro franco-italiano André Perugia já tratava cada par como uma obra de arte usável, muito antes de essa proposta se tornar tendência.
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Pioneiro do design de calçados
Embora nunca tenha alcançado a popularidade de nomes como Salvatore Ferragamo ou Roger Vivier, André Perugia é considerado um dos grandes pioneiros do design de calçados. Seu repertório de formas inovadoras e saltos esculturais segue sendo citado como referência por designers como Manolo Blahnik e Christian Louboutin, além de inspirar marcas de perfil mais experimental, como Saint Laurent e Jacquemus.

Antes de desenhar sapatos, Perugia trabalhou durante a Primeira Guerra Mundial em uma fábrica de aviões. Foi nesse período que aprendeu sobre distribuição de peso e precisão estrutural, conceitos que mais tarde aplicaria na criação de seus calçados. Filho de um sapateiro, abriu sua própria loja ainda na adolescência, antes de ser descoberto pelo estilista Paul Poiret, que o levou para Paris.
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Parcerias icônicas
A parceria com Paul Poiret rendeu, em 1923, uma das primeiras incursões de André Perugia no universo das máscaras: um par inspirado no pintor italiano Amedeo Modigliani, conhecido pelos retratos de rostos alongados e estilizados. No ano seguinte, expandiu o conceito em uma série de calçados marcada por recortes triangulares que remetiam ao Arlequim, personagem mascarado mais emblemático da Commedia dell’Arte.

A coleção dialogava tanto com o universo de Poiret quanto com o de Pablo Picasso, que, naquele período, retratou o próprio filho fantasiado de Arlequim. A coincidência evidencia como o repertório visual das vanguardas circulava entre a moda e as artes plásticas nos anos 1920.

Perugia chocava a indústria com sapatos diferenciados, que iam de modelos inteiramente cobertos por strass a saltos com formatos inusitados. Essa linguagem experimental se aprofundou a partir de 1930, quando iniciou uma parceria com Elsa Schiaparelli, colaboração que duraria cerca de duas décadas.

Uma sandália despretensiosa criada por André serviu de ponto de partida para o icônico Shoe Hat, desenvolvido por Elsa em parceria com Salvador Dalí, em 1937. No ano seguinte, Perugia e a estilista assinaram as botas revestidas de pelo de macaco, inspiradas em uma pintura de René Magritte e consideradas um dos maiores símbolos do surrealismo na moda. Já em 1939, vieram as Three Sphere Sandals, com esferas sobrepostas que reforçavam sua proposta de tratar o calçado como escultura.
Homenagens a artistas
O gosto de Perugia por homenagear artistas atravessou toda a sua carreira. Em 1955, criou o chamado sapato-peixe, de bico arredondado e recortes que remetem a escamas, em homenagem ao pintor cubista Georges Braque. Na mesma década, desenhou um modelo com o contorno dos dedos destacado no calçado, inspirado pelo pintor Fernand Léger – peça que Daniel Roseberry recuperou quase setenta anos depois em uma coleção da Schiaparelli, em 2021.


Em 1953, Perugia criou a Sandália Cubista, desenvolvida em parceria com Andy Warhol e em homenagem a Pablo Picasso. Décadas depois, pesquisadores dedicados à obra do designer passaram a apontar semelhanças entre o modelo e a Hero Sandal, criada por Stefano Pilati para a Yves Saint Laurent na coleção primavera/verão 2008. A aproximação, no entanto, baseia-se apenas na semelhança visual entre os dois calçados, sem qualquer confirmação de uma inspiração direta.


Engenheiro dos calçados
Por trás da estética inventiva, havia também um espírito de inventor. Em 1942, André Perugia patenteou um solado articulado de madeira, desenvolvido para contornar a escassez de couro durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1956, André Perugia lançou, em parceria com a I. Miller, um sistema de saltos intercambiáveis batizado de “I. Miller Is The Trend”. Os sapatos eram vendidos em kits com um par de saltos extras, disponíveis em diferentes cores e acabamentos, como dourado, poá e bordado. Um trilho metálico instalado sob o solado permitia remover um salto e encaixar outro, transformando o visual do calçado sem a necessidade de trocar de par.
Na prática, porém, a invenção não conquistou o público. A substituição dos saltos exigia certa habilidade e paciência, e o sistema acabou se tornando mais uma curiosidade da história do design do que um sucesso comercial. Ainda assim, a proposta voltaria a inspirar outros designers de calçados décadas mais tarde.

Perugia cultivava uma fascinação declarada pelos pés femininos, a ponto de escrever o livro From Eve to Rita Hayworth, no qual defendia que a personalidade de uma mulher poderia ser revelada pelo formato de seus pés. Hoje, suas criações integram os acervos de instituições como o Metropolitan Museum of Art, o Victoria and Albert Museum, o Los Angeles County Museum of Art e o Musée International de la Chaussure, em Romans-sur-Isère, na França, responsável pela maior parte de seu arquivo pessoal. Em 2025, o Bata Shoe Museum, em Toronto, inaugurou a exposição André Perugia: A Design Legend Unveiled, com um conjunto rotativo de peças em cartaz até abril de 2027.
















