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Guilherme Fiuza

Barricada no Senado

Davi Alcolumbre não pautou a sabatina do STF porque não quis. Um fato natural como nevasca no Amapá. E o Brasil aceitou a decisão docemente

10/11/2021 04:45, atualizado 10/11/2021 08:43
Rafaela Felicciano/Metrópoles
Senador Davi Alcolumbre

A sabatina do indicado ao STF para a vaga de Marco Aurélio Mello foi, por assim dizer, congelada. A indicação do presidente da República chegou ao Senado Federal, e o presidente da Comissão de Constituição e Justiça não pautou a sabatina. Não pautou porque não quis. Questionado por colegas senadores, não se moveu. O tempo continuou passando, e ele seguiu não pautando. Um fato natural, como uma nevasca no Amapá.

O nome do presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado é Davi Alcolumbre. Ele já presidiu o próprio Senado. É um nome que entra para a história do Brasil num verbete único, sem paralelo na política nacional. Jamais alguém tinha tido a coragem de transformar o Senado da República num quintal de Macapá.

Em lugar dos velhos ritos institucionais, cheios de rigor formal, o quintal de Alcolumbre deu espaço à inventividade. Nada de ficar preso a regras repetitivas e sisudas. No novo espaço da micareta parlamentar, você dança conforme a sua música, faz o que te der na telha e celebra a cláusula pétrea da Constituição de Várzea: ninguém é de ninguém. Pé na jaca e nada de ficar perguntando o que será o amanhã. A vida é hoje.

O mais interessante dessa conduta inovadora do eminente senador da República Davi Alcolumbre foi a dócil aceitação dela por parte do restante da sociedade. O Brasil que cerca esse quintal de Macapá incrustado no Congresso Nacional ficou assistindo embevecido ao espetáculo vanguardista. Alcolumbre já pautou a sabatina do indicado ao STF? – perguntava-se, curioso, o Brasil. E ele mesmo (o Brasil) respondia candidamente: ainda não. Por quê? – insistia o Brasil. Porque não – encerrava o Brasil, já meio impaciente. Nessas horas, é melhor não contrariar.

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Nada como o pragmatismo para traduzir os grandes movimentos da política. Não pautou porque não pautou, e ninguém tem nada com isso. Chega de interferência no quintal alheio. Basta de invasão de privacidade. O que acontece dentro das quatro paredes da Comissão de Constituição e Justiça do Senado é questão de foro íntimo do companheiro Alcolumbre. O que se gasta para a manutenção daquele espaço também não é da sua conta. Todo mundo sabe que dinheiro público não é de ninguém.

Barricada no Senado - destaque galeria
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Senador Davi Alcolumbre (DEM-AP)
Senador Davi Alcolumbre (DEM-AP)
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello
Ministro Marco Aurélio Mello
Davi Alcolumbre foi presidente do Senado Federal
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Davi Alcolumbre foi presidente do Senado Federal

Rafaela Felicciano/Metrópoles
Senador Davi Alcolumbre (DEM-AP)
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Senador Davi Alcolumbre (DEM-AP)

Hugo Barreto/Metropoles
Senador Davi Alcolumbre (DEM-AP)
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Senador Davi Alcolumbre (DEM-AP)

Jefferson Rudy/Agência Senado
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello
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Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello

Igo Estrela/Metrópoles
Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello
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Ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Marco Aurélio Mello

Vinícius Santa Rosa/Metrópoles
Ministro Marco Aurélio Mello
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Ministro Marco Aurélio Mello

STF/DIVULGAÇÃO
Diante do impasse, presidente do Senado anunciou que votação da reforma ficará para 2022
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Diante do impasse, presidente do Senado anunciou que votação da reforma ficará para 2022

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Rodrigo Pacheco e Jair Bolsonaro
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Rodrigo Pacheco e Jair Bolsonaro

Igo Estrela/Metrópoles
Pacheco trocou o DEM (atual União Brasil, após fusão com o PSL)
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Pacheco trocou o DEM (atual União Brasil, após fusão com o PSL)

Rafaela Felicciano/Metrópoles

Talvez um dos aspectos mais comoventes desse espetáculo de democracia particular seja o silêncio respeitoso do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco. Novato na política, o senador mineiro certamente deve ter ouvido de algum colega mais experiente que quando um herói, como Davi Alcolumbre, está em ação, ninguém deve ousar dizer nada. Bom aluno, Pacheco seguiu à risca essa sabedoria milenar e não deu um pio que pudesse desafinar a micareta do senador amapaense. Reverência é tudo.

Outra coisa que disseram para Rodrigo Pacheco é que ele é candidato a presidente da República. E ele acreditou. Estava mesmo em falta na política nacional essa capacidade de acreditar. Sendo assim, o presidente do Senado calculou que, se o arraial de Alcolumbre barra o caminho de uma indicação do atual presidente da República, isso abre caminho para que a cadeira palaciana passe a ser dele. Como diria o Rui Barbosa do igarapé, astúcia não se aprende na escola.

Enquanto silenciava sobre a fanfarra de Davi, Pacheco citava Tancredo Neves. Isso foi outra dica que deram a ele: é seu conterrâneo? Pode botar na fita. Mineiro tem lugar de fala. Mas você não está proibido de pensar: o que diria Tancredo Neves, o homem que pacificou o Brasil duas vezes (com mais de duas décadas de intervalo entre uma e outra), diante do uso do Senado como barricada entre a Presidência da República e o Supremo Tribunal Federal?

Tancredo não diria nada. Se ele estivesse em cena, essa barricada nem chegaria a existir. Volta o vídeo, Brasil. Antes que perca de vez o rumo de casa.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.