Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Paulo Cappelli

Vereador bolsonarista do Rio de Janeiro age como PM e faz operações

Gabriel Monteiro, que também é youtuber, deixou a Polícia Militar para ser parlamentar

atualizado 02/07/2021 14:20

Reprodução

Mesmo após ter deixado a Polícia Militar para ser vereador do Rio de Janeiro, o youtuber bolsonarista Gabriel Monteiro continua agindo como um integrante da corporação. Em vídeos publicados em suas redes sociais, Monteiro aparece participando de operações, arrombando portas, imobilizando pessoas e gritando ordens de prisão – aparentando, portanto, ainda ser um policial. Algumas das ações foram acompanhadas por sua escolta pessoal, composta por policiais militares do Batalhão de Choque.

Em abril deste ano, o juiz Alberto Republicano de Macedo Jr., da Primeira Turma Recursal da Fazenda Pública, concedeu segurança armada ao vereador, por entender que sua vida estava em risco. Esse mesmo magistrado foi o responsável por retirar a escolta do vereador na última sexta-feira. Macedo Jr. afirmou que o vereador passou a usar a segurança concedida pelo Estado para fazer diligências que fogem do escopo parlamentar.

“Mesmo alegando que está sendo ameaçado e sob risco de ter sua integridade física violada, realizou diligências que ostentam verdadeira natureza policial”, escreveu Macedo Jr., na decisão que incumbiu à Câmara a responsabilidade de providenciar a segurança do vereador.

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Gabriel Monteiro não ficou nem dez anos na Polícia Militar, e foi o terceiro vereador mais votado do Rio de Janeiro nas últimas eleições, pelo sucesso do seu canal no YouTube. Defensor dos “direitos humanos para humanos direitos”, o ex-PM afirma, em suas redes sociais, que luta contra as máfias do Rio de Janeiro, desde a área da saúde até jogos de azar.

Foi em uma operação contra jogos de azar, junto da PM, no último dia 24 de junho, que Monteiro usou sua escolta pessoal para abordar um caminhoneiro. Segundo um vídeo publicado no canal do vereador, o motorista do caminhão supostamente estaria carregando caixotes de máquinas caça-níquel. Nesse mesmo vídeo, Monteiro assume que os policiais responsáveis pela sua segurança estavam atuando na operação, e não apenas em sua defesa.

A coluna entrou em contato com a PM, questionando tanto a conduta do vereador quanto dos policiais do Batalhão de Choque que integravam a escolta pessoal. Segundo a assessoria de imprensa da corporação, Monteiro não faz mais parte da Polícia Militar e os agentes estavam emprestados à Câmara. O órgão de segurança pública delegou a responsabilidade de avaliação de conduta à Câmara.

O Conselho de Ética da Câmara tem seis representações sobre a conduta do ex-PM. Em uma delas, Monteiro é acusado de abuso de poder pelo Conselho Regional de Medicina do Rio de Janeiro (Cremerj) após ter dado voz de prisão a uma médica. A assessoria do Conselho de Ética pontuou que foi solicitado ao procurador-geral da Câmara, José Luis Minc, que obtenha mais informações sobre o caso ocorrido na última quinta-feira.

“Se houver um inquérito policial aberto, pediremos acesso aos autos da investigação. De posse dessa documentação oficial, o Conselho de Ética poderá analisar com mais dados, precisão e elementos”, ressaltou a assessoria de imprensa, que não soube afirmar se a responsabilidade da conduta dos policiais da escolta pessoal é do Conselho.

(Atualização às 14h de 2 de julho de 2021. O vereador Gabriel Monteiro entrou em contato com a coluna e disse que sua função como parlamentar não é apenas fazer projetos de lei, mas “estar na rua defendendo a população da cidade que o elegeu”. “Tudo que eu faço é previsto por lei, se eu não tivesse respeitando a lei eu seria preso porque todas as minhas ações acabam na delegacia”. Sobre o episódio em que deu voz de prisão a uma médica, Monteiro citou artigo do Código Penal, que diz que qualquer cidadão pode dar voz de prisão a alguém que seja encontrado em flagrante delito, mas cabe às autoridades de segurança pública a detenção. “Foi tipificado na delegacia que a médica estava em omissão, diversas crianças não estavam sendo atendidas, os moradores da Cidade de Deus corroboraram a minha versão, eu apenas fiz cumprir a lei”. Segundo ele, todas as ações são acompanhadas da PM e também é dever de um vereador proteger a população. “É melhor ser apedrejado do que ficar no conforto da minha casa sendo omisso”, disse o ex-PM. Monteiro não indicou onde consta que vereador tem poder de polícia para arrombar portas ou participar de operações.)

 

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