Com Bruna Lima, Edoardo Ghirotto, Eduardo Barretto e Paulo Cappelli

Pandemia levou RJ a iniciar contagem dos milhares que moram no Centro

Conheça histórias de fome, força e resistência de quem passa a pandemia em situação de rua

atualizado 25/12/2021 7:39

Aline Massuca/Metrópoles

Era manhã do dia 26 de março de 2021, quando Kátia Maria acordou, olhou para os lados e se assustou. Mais uma vez não viu ninguém nas ruas do Centro do Rio de Janeiro. Teve medo de sentir fome de novo, como acontecera um ano antes, em março de 2020, quando o Rio entrou em lockdown e, sem ninguém na rua para pedir, passou seis dias sem comer. Sem saber a razão de agora todos terem sumido de novo, caminhou até uma banca de jornal próxima do local onde passa as noites, na Igreja da Candelária, e leu a capa do jornal Extra, que informava sobre as novas restrições impostas pelo governo do Rio para conter o avanço da segunda onda. Era mais um lockdown.

Kátia é uma das milhares de pessoas que atravessam a pandemia morando nas ruas do Centro do Rio. A quantidade explodiu, levando a Prefeitura a, pela primeira vez, fazer a contagem de pessoas em situação de rua na região, uma classificação mais abrangente do que apenas os que moram na rua, porque inclui, por exemplo, quem está nas ruas por não ter dinheiro para voltar para casa. Atualmente, segundo a Prefeitura, há 7.272 pessoas em situação de rua no Centro.

Kátia Maria ficou seis dias sem comer no primeiro lockdown do Rio de Janeiro, em março de 2020

Moradora das ruas do Centro do Rio há onze anos, Kátia contou à coluna que nunca se sentiu como na primeira onda da pandemia, porque além da falta de pessoas, da fome, do temor do vírus, percebia que, por morar na rua, era vista como alguém “sujo cheio de Covid”.

“As poucas pessoas que passavam não chegavam perto. Nós éramos tratados como sujos e cheios de covid. Muita gente passou semanas revirando lixo, sem nada para comer”, contou Kátia.

Kátia mora nas ruas do Centro do Rio há onze anos e nunca sentiu a fome que sentiu na pandemia.

Somente depois do primeiro mês de lockdown, em 2020, as caravanas de comida começaram a chegar satisfatoriamente para a população de rua do Centro, lembrou Kátia. Nas primeiras semanas, apenas algumas pessoas entregavam refeição e havia briga entre os moradores de rua por comida.

“Depois de passar seis dias sem comer, alguns carros começaram a aparecer com quentinhas, mas era muita gente e pouca comida. Tinha brigas (sic) e quando eu não conseguia comida, eu pedia um punhado na mão para algum colega da rua”, disse Kátia. Mesmo apreensiva com o lockdown da segunda onda, em 2021, Kátia disse que não foi dos piores, ficou “apenas o final de semana sem comer“.


Também moradora de rua e sobrevivente da chacina da Candelária, Lilia Aparecida estava morando em um abrigo e vendendo balas nas ruas do Centro do Rio para ajudar no aluguel de suas duas filhas e dois netos quando a pandemia começou e ela perdeu seu sustento. Em abril, Lilia não conseguiu mais ajudar as filhas a pagar o aluguel e todos foram morar em frente à Câmara do Rio. Avó, duas filhas e dois netos, de 2 e 4 anos, a família ficou no local até maio, quando começaram a ser ameaçados de terem suas crianças levadas pelo Conselho Tutelar.

“A gente dormia escondido debaixo de uma árvore aqui na frente da Câmara para a Prefeitura não vir tirar as crianças da gente. Nenhum abrigo estava aceitando manter a gente junto. Nesse mês, dividíamos uma quentinha de comida para nós três e mais as duas crianças. Uma por dia”, contou Lilia.

Após um mês de rua, em maio, Lilia conseguiu uma vaga para ela e sua família em uma ocupação, um prédio abandonado na Avenida Senador Dantas, no Centro. Durante esse tempo, tentava vender balas para as poucas pessoas que ainda frequentavam a região, sem sucesso. Quatro meses depois de ir para a ocupação, a administração de Marcelo Crivella removeu as vinte famílias do local. Lilia, suas filhas e seus netos voltaram a dormir debaixo da mesma árvore na frente da Câmara.

Lilia e a família agora tem um quarto alugado na favela de Manguinhos, na Zona Norte da cidade, que conseguem pagar somando os auxílios emergenciais dela e das filhas. Seguem dependendo de doações e vendendo balas, mas mesmo assim, volta e meia se encontram em situação de rua por não conseguir dinheiro para voltar para casa.

“Já estamos há uma semana sem voltar para casa, não temos dinheiro. O que a gente consegue da venda das balas, a gente compra comida para as crianças, fralda…”, contou Lilia, na segunda-feira (18/12), levantando um saco de cinco quilos de arroz, hoje na faixa de R$ 40. Comprou com o dinheiro que estava juntando para voltar e passar o Natal em casa.

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