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O nome e o instrumento por trás da queda da Ambipar

João Daniel Piran de Arruda deixou a empresa às vésperas de reunião com credores para explicar aditivo com o Deutsche Bank

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João Daniel Piran de Arruda
1 de 1 João Daniel Piran de Arruda - Foto: Reprodução

A situação financeira crítica da Ambipar tem na raiz um nome muito conhecido do mercado financeiro: João Daniel Piran de Arruda, que se tornou CFO da empresa em agosto de 2024, e uma operação por ele negociada. Ele é o responsável pela transferência do hedge da companhia do Bank of America (BofA) para o Deutsche Bank e um aditivo feito com o banco alemão, em agosto deste ano.

A mudança exigiu o pagamento de multa ao BofA de R$ 20 milhões, concentrava as garantias no Deutsche e impunha pagamento adicional de R$ 62 milhões. O aditivo introduziu um instrumento de nome aparentemente técnico – PIK bond (Payment-in-Kind) –, mas que alteraria o perfil de risco da companhia e colocaria a Ambipar em grande vulnerabilidade financeira.

Arruda deixou a Ambipar em 19 de setembro, uma sexta-feira. O pedido de demissão aconteceu antes da reunião marcada para acontecer em Nova York no dia 22, segunda-feira. Na reunião, ele explicaria a credores internacionais a situação da queda dos bonds da Ambipar por causa do mecanismo do PIK bond.

A convocação para a reunião foi feita por ele mesmo, no dia anterior, em 18 de setembro. A saída – comunicada por email, às 22h30 do dia 19, pegando todos de surpresa – foi tomada como confirmação de que o sistema supostamente criado para beneficiar a Ambipar se voltara contra a própria empresa.

Na semana anterior à saída de Arruda, o Deutsche cobrou depósitos de margem que totalizaram R$ 170 milhões em cinco dias. Só no dia 16 de setembro foram três notificações, ultrapassando R$ 70 milhões.

No fim de semana entre a saída de Arruda e a reunião – que não aconteceria – teve início a batalha jurídica: escritórios de advocacia em Londres e Nova York começaram a questionar o Deutsche sobre execução das garantias e o risco, cada vez mais real, de que cláusulas de disclosure nos títulos da dívida de US$ 750 milhões viriam a ser descumpridas.

O colapso veio com a segunda-feira (22/09). Os títulos lastreados nos chamados green bonds, emitidos em 2024, passaram a ser liquidados compulsoriamente, bancos estrangeiros executavam garantias – e o caixa da companhia ia sendo drenado rapidamente. Desde o estouro da crise, há um mês, as ações da Ambipar, que chegaram a valer R$ 26, desabaram para menos de R$ 0,40.

A agência de classificação de risco S&P baixou a nota da Ambipar de “AA” para “D”. Os CDS (Credit Default Swaps, seguros contra calote da companhia) dispararam. A cada nova chamada de margem subia o prêmio de risco, e a cada alta no CDS derrubava ainda mais o preço dos títulos. A academia chama esse ciclo de “espiral de margem” – e foi o que ocorreu: o preço caía; o CDS subia; e o Deutsche exigia mais garantias.

Nome técnico

O PIK bond (Payment-in-Kind) é um instrumento que permite postergar pagamentos de juros em forma de novos títulos. O efeito, no entanto, foi o de disparar novas chamadas de margem a cada vez que os papéis caíam de preço.

Em 2024, a Ambipar lançara US$ 750 milhões em green bonds – seus primeiros títulos sustentáveis internacionais – que foram celebrados como marcos do mercado brasileiro: papéis com selo ambiental, atrelados a metas de carbono e economia circular. Foi sobre esses títulos que Arruda contrataria depois os PIK bonds, que se tornariam fatais.

Até a eclosão da crise, a Ambipar vinha em marcha acelerada de expansão: entre 2020 e 2023, comprou ativos nos EUA, Canadá, Reino Unido e América Latina.

No Brasil, já listada na B3, a empresa veio a integrar o índice verde, com certificação da S&P. Seus papéis se tornaram símbolo de “capitalismo regenerativo” – e atraiu participação relevante de gestoras dos EUA, Reino Unido e Escandinávia, chegando a alcançar valorização de mais de 800%.

A Ambipar agora tenta nos tribunais proteger seu caixa contra os credores e, ao mesmo tempo, indiciar seu ex-CFO por fraude.

O que diz a defesa

Coordenador da defesa técnica do ex-diretor financeiro da Ambipar, David Rechulski apontou suposta “denunciação caluniosa” no caso. Veja a nota:

Se é verdade que fizeram mais esse movimento errático – como vários outros anteriores, a exemplo de atribuir ao ex-CFO:

1) a assinatura de um termo de cessão do Bank of America ao Deutsche Bank que, na verdade, foi firmado pelo próprio filho do controlador e diretor estatutário da Ambipar;

2) a assinatura do aditivo com o DB que eles próprios juntaram na cautelar e que se vê ter sido assinado por seus diretores estatutários Thiago Silva e Luciana Barca; ou

3) repentinamente mudar a sede da empresa de São Paulo para um coworking no Rio de Janeiro às vésperas da cautelar – fica claro estarmos diante de uma provável situação típica de denunciação caluniosa.

A propósito, para que não pairem dúvidas desde logo, há até mensagens do controlador, CEO e membro do Conselho de Administração, Sr. Tércio Borlenghi Júnior enviadas ao seu ex-CFO João Arruda comemorando a assinatura do aditivo com o Deutsche Bank que agora dizem ser algo desconhecido.

Destaque-se ainda que, segundo o artigo 21, alínea ‘f’, do Estatuto da Ambipar, documento devidamente registrado nos órgãos oficiais de controles, que cumpre exatamente ao CEO levar o que de direito para ser pautado e votado no Conselho de Administração. Enfim, narrativas falaciosas não resistirão às evidências“.

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