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O cão que esperou 11 anos no túmulo da dona e mudou a lei em São Paulo
Conhecido como “Bob Coveiro”, cão viveu em cemitério de Taboão da Serra até morrer em 2021; fidelidade inspirou legislação estadual
atualizado
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A história de Bob, um vira-lata que se recusou a deixar o Cemitério da Saudade, em Taboão da Serra (SP), após o sepultamento de sua tutora, encerrou um capítulo de 11 anos de fidelidade para abrir um precedente jurídico inédito no Brasil. O cão, que transformou o campo santo em sua moradia permanente desde 2010, tornou-se o símbolo da “Lei Bob Coveiro”, sancionada recentemente pelo governo de São Paulo para permitir o sepultamento de pets em jazigos familiares.
Mesmo após diversas tentativas de resgate por parte de familiares da antiga tutora, Bob sempre retornava ao setor onde ela fora enterrada. Sua persistência comoveu funcionários e frequentadores, transformando o animal em uma figura emblemática da cidade e, posteriormente, em pivô de uma mudança na legislação estadual.
Entenda
- Vigília de uma década: Bob viveu no cemitério de 2010 a 2021, desenvolvendo uma rotina própria e recebendo cuidados de funcionários e protetores locais.
- Papel terapêutico: o cão ficou conhecido por “acolher” visitantes em luto, oferecendo bolinhas de brinquedo para interagir com pessoas durante enterros.
- Morte e comoção: em outubro de 2021, Bob morreu atropelado por uma moto; o impacto causou mobilização popular e a construção de uma estátua em sua homenagem.
- Legado jurídico: a fidelidade do animal foi a principal justificativa para a criação da lei que autoriza o enterro de cães e gatos junto aos seus tutores em SP.
Do luto à convivência comunitária
A presença de Bob no Cemitério da Saudade subverteu a lógica do abandono. Em vez de vagar pelas ruas, ele escolheu o local do último adeus à sua tutora como território. Com o tempo, o animal ganhou uma casinha verde instalada pela administração e passou a ser monitorado pela ONG Patre.
Relatos de visitantes indicam que Bob possuía uma sensibilidade aguçada: ele frequentemente se aproximava de pessoas aos prantos, oferecendo brinquedos — muitas vezes coletados de túmulos de crianças — para iniciar uma interação que aliviava a tensão do momento. Para organizar essa dinâmica, a protetora Valéria Ribeiro criou uma campanha de arrecadação de bolinhas específicas para o cão, evitando que ele retirasse objetos das sepulturas.
O atropelamento e a despedida final
A trajetória do “Cão Coveiro” terminou tragicamente na noite de 25 de outubro de 2021. Ao seguir um dos agentes funerários com quem tinha afinidade, Bob foi atingido por uma motocicleta. O condutor fugiu sem prestar socorro. A morte do animal gerou uma onda de homenagens nas redes sociais e uma autorização excepcional da prefeitura para que ele fosse sepultado no próprio cemitério onde viveu — um privilégio até então inexistente para animais. Além disso, em sua homenagem, uma estátua foi erguida na entrada do cemitério.
A transformação em política pública
A comoção em torno do caso chegou à Assembleia Legislativa de São Paulo (Alesp). O deputado estadual Eduardo Nóbrega utilizou a história de Bob como base para o projeto de lei que reconhece o vínculo afetivo entre humanos e pets.
Ao sancionar a medida, o governador Tarcísio de Freitas oficializou o que Bob já havia demonstrado na prática: a barreira entre o afeto e o luto não termina com a morte. Agora, a “Lei Bob Coveiro” permite que famílias em todo o estado garantam a permanência de seus animais de estimação nos mesmos jazigos, transformando a lealdade de um cão de Taboão da Serra em um direito assegurado por lei.








