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Espécie ameaçada tem sangue avaliado em mais de R$ 320 mil; conheça
O caranguejo-ferradura possui o sangue azul, e um único galão pode custar mais de R$ 320 mil. Entenda seu uso e os riscos ambientais
atualizado
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Muitos animais marinhos, como ostras e camarões, são conhecidos por serem utilizados como fonte de alimentação para moradores locais e, principalmente, turistas. Outra espécie muito utilizada para alimentação são os caranguejos. Mas você sabia que esses bichos também tem uso medicinal?
Embora não seja um “verdadeiro” caranguejo — mais próximo de aranhas e escorpiões —, o caranguejo-ferradura habita águas costeiras rasas e estuários. Famoso por ser um fóssil vivo, devido a anatomia pouco alterada há centenas de milhões de anos, também é conhecido por seu sangue azul, muito usado na medicina.
O que é sangue azul
O sangue azul do caranguejo-ferradura é extraído, principalmente, na costa leste dos Estados Unidos. A cor azul é fruto da hemocianina, uma proteína rica em cobre que substitui o ferro da hemoglobina humana. Um único galão processado pode chegar a custar por volta de 60 mil dólares, o equivalente a quase R$ 323 mil.

Apesar de gerar preocupações ambientais e éticas, o alto valor do insumo é pelo fato de que, a partir dele, é possível obter o lisado de amebócitos de Limulus (LAL), um reagente que ajuda na detecção de contaminação por bactérias em vacinas e equipamentos hospitalares.
Aprovado pela Food and Drug Administration (FDA) na década de 1970, o recurso biológico funciona por meio da reação com bactérias gram-negativas, como a Salmonella, ao formar um gel ao redor delas e alarmar a presença de endotoxinas. Devido a precisão, o LAL é um componente importante para a segurança de produtos de uso médico.
Impactos ambientais
Nos Estados Unidos, anualmente, a indústria captura aproximadamente 600 mil indivíduos da espécie para produzir o LAL. Em cada animal, são drenados até 30% do sangue azul. Além de sequelas como fraqueza e desorientação, a letalidade da extração pode chegar até 30%.

Mas não acaba aí. Para os animais que retornam ao mar após o procedimento, também há problemas com comportamentos básicos, que envolvem alimentação e reprodução, por exemplo. Isso acontece especialmente no caso das fêmeas, que podem até reduzir o sucesso nas desovas.
Com esses impactos individuais, populações inteiras e outras espécies, como aves migratórias, são afetadas pelo processo. Não à toa, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificou o caranguejo-ferradura como vulnerável, com provável diminuição da espécie em 30% em 40 anos.
Outras alternativas
Para amenizar esse cenário alarmante, alguns laboratórios e empresas passaram a buscar outras alternativas que não afetassem esses animais. Uma delas é o fator C recombinante (rFC), que possui o mesmo mecanismo de coagulação do LAL.
Apesar de lembrarem que é possível preservar a saúde humana sem comprometer o meio ambiente, existem alguns entraves em relação aos novos testes. Em muitos casos, a FDA ainda exige o uso do LAL, que segue sendo o padrão mundial e tornando necessária a extração do sangue azul do caranguejo-ferradura.
