As manobras do BRB para pagar bilhões ao Master em operações fraudulentas
Laudo da Polícia Federal (PF) detalha como BRB ignorou alertas e montou uma estrutura para validar operações fraudulentas com o Master

Laudo produzido pela Polícia Federal (PF) detalha como o BRB estruturou de forma fraudulenta operações com o Banco Master que somaram R$ 17,5 bilhões. O documento revela que dirigentes do BRB ignoraram alertas e implantaram manobras para que as compras fossem realizadas rapidamente — em um dos casos, no intervalo de quatro minutos — e sem análise técnica que comprovasse ao menos que o que estava sendo adquirido de fato existia.
A perícia examinou um universo total de 181 operações, movimentando R$ 47,8 bilhões em cessões, compras, recompras e substituições de carteiras entre BRB e Banco Master. Deste montante, o núcleo pericial delimitou a caracterização de gestão fraudulenta em 25 aprovações de compras de carteiras de varejo, que somaram R$ 17,5 milhões.
Desse total, R$ 12,2 bilhões dizem respeito a Cédulas de Crédito Bancário (CCBs) cedidas por empresas intermediárias como a Tirreno. Auditorias do Banco Central (BC) e da PF indicaram que “nenhum crédito sequer pôde ser confirmado” por ausência de lastro e documentação.
Pagou sem saber o que estava comprando
O laudo revela que, em muitos casos, o BRB pagou ao Master antes de realmente saber o que estaria comprando. Em 22 de 84 compras de varejo analisadas — somando R$ 7,63 bilhões —, a liquidação financeira ocorreu antes da conclusão dos pareceres técnicos obrigatórios das áreas de Risco, Planejamento, Contabilidade e Controladoria do BRB.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesComo o dinheiro já havia saído, as análises técnicas não podiam mais reajustar taxas, exigir mitigadores, alterar volumes, renegociar preços ou impedir o desembolso, servindo apenas para tentar conferir uma “completude formal” retroativa a operações já consumadas, diz a PF no documento.
O BRB também tentou contornar a obrigatoriedade de submeter as operações ao Conselho de Administração (Consad) — exigida para compras acima de R$ 750 milhões. Em 21 das 25 aprovações analisadas o valor foi fixado exatamente em R$ 750 milhões. A estratégia permitiu que a Diretoria Colegiada mantivesse em sua instância exclusiva os R$ 17,5 bilhões apontados como operações fraudulentas pela PF.
Informações falsas e incompletas
Outra manobra teve como objetivo despistar os órgãos de controle internos e externos sobre a exposição do BRB ao Master. A perícia apresentou o mapa mensal da exposição em 2025, que variou de 69,84% a impressionantes 90,31%. O pico foi de R$ 19,78 bilhões em junho de 2025, o que equivalia a 9,32 vezes a soma de todos os outros cedentes do banco juntos.
Para burlar as travas regulatórias de concentração, a PF mostra que o BRB submeteu à diretoria propostas com redações genéricas. Em um dos casos citados, falava apenas em “limite para aquisição de carteira” e omitia nominalmente o Banco Master como cedente, impossibilitando a visualização agregada do risco.
As compras de papéis do Master comprometeram a liquidez do BRB. E isso, de acordo com a perícia, não passou despercebido pela equipe técnica do banco. A PF analisou 66 boletins diários de liquidez e identificou 51 marcas de alerta e 13 extrapolações do Índice de Liquidez de Curto Prazo (ILCP).
O laudo mostra que, mesmo após a ciência formal dos alertas, ainda em março de 2025, a diretoria do BRB aprovou 11 novos limites e autorizou 42 pagamentos ao Master.
Foram, ainda, identificadas planilhas preenchidas com dados fictícios e instrumentos de cessão com firmas reconhecidas em cartório meses após as datas declaradas das operações.
Votações unânimes
A PF analisou ainda as atas de reunião e documentos de governança da Diretoria Colegiada (Dicol) do BRB e identificou que, em todos os casos, a aprovação das aquisições de papéis do Master foi registrada por unanimidade dos membros presentes com direito a voto. Não houve sequer um registro de voto contrário ou ressalva individual registrada contra as operações,
Para os investigadores, a repetição de aprovações unânimes ao longo de meses, mesmo após alertas diários de risco de liquidez e relatórios sobre a insubsistência dos créditos, demonstrou um padrão decisório.
A constatação levou a PF a qualificar a atuação dos sete dirigentes do BRB que integravam a Dicol. Para os investigadores, dois deles tiveram atuação direta nas operações fraudulentas, além das votações colegiadas. São eles: Dario Oswaldo Garcia Júnior, diretor Executivo de Finanças e Controladoria (Dific) e Luana de Andrade Ribeiro, diretora Executiva de Controle e Riscos (Dicor).
De acordo com o laudo, Luana assinou pessoalmente os Reportes Oficiais de Desenquadramento de Liquidez. Apesar de assinar os alertas formais de extrapolação de caixa, votou favoravelmente a 11 compras posteriores, incluindo deliberações com waiver (flexibilização) de limites e afastamento de recomendações da sua própria área técnica.
Já Dario comandava a diretoria que estruturava as Notas Executivas (NEs). Ele recebia formalmente em seu e-mail os relatórios que apontavam indícios de fraude e falta de lastro, mas não há registro de que tenha submetido formalmente esses achados à pauta da Dicol antes de propor novas aquisições bilionárias. Além disso, autorizou liquidações financeiras por e-mail com pendências na esteira interna e sem parecer prévio de risco.
O laudo aponta os outros integrantes que votaram sempre a favor das operações. São eles: Paulo Henrique Bezerra Rodrigues Costa, presidente do BRB, Cristiane Maria Lima Bukowitz, diretora executiva de Gestão de Pessoas (Dipes), Diogo Ilário de Araújo Oliveira, diretor executivo de Atacado e Governo (Diago) e José Maria Correa Dias Junior, diretor Executivo de Tecnologia (Ditec).
A PF destaca que Jacques Maurício Ferreira Veloso de Melo, então diretor jurídico, não votou — nem contra nem a favor das operações com o Master. De acordo com o laudo, ele esteve presente em reuniões como convidado sem direito a voto ou esteve ausente, não sendo vinculado às aprovações das carteiras.





