Suspeita de fraude liga Vorcaro a leilão de hospital em Porto Alegre
Empresa indicou funcionário dos Vorcaro que pagava "a Turma" como contato para serviço de segurança no hospital

Uma complexa rede de empresas e operadores financeiros vincula o empresário Henrique Vorcaro e seu filho Daniel Vorcaro à arrematação do Hospital Beneficência Portuguesa, segundo mais antigo de Porto Alegre (RS). O prédio centenário, avaliado judicialmente em mais de R$ 70 milhões, foi entregue por R$ 41 milhões em um processo com indícios de utilização de uma fraude trabalhista para viabilizar o leilão.
O hospital pertencia à Associação Portuguesa de Beneficência (APB), que vem em processo de insolvência (a falência de uma entidade sem fins lucrativos) desde 2007. A associação passou a deixar de se defender em diversos processos trabalhistas em 2022. Ao invés disso, firmava acordos que o Ministério Público do Trabalho (MPT) classificou como “possíveis lides simuladas para constituição de créditos fictícios com vistas a prejudicar terceiros e/ou enriquecer ilicitamente”.
Em ao menos três desses acordos, o MPT se manifestou pela não homologação, apontando coincidências inverossímeis, como ajuizamento na mesma data pela mesma advogada, mesmos períodos de suposta inadimplência salarial (20 meses) e valores elevados tanto para a causa quanto para os acordos.
Tais os acordos foram homologados mesmo assim, inflando de forma artificial o valor executado contra o hospital. E, diante do crescimento da dívida, a Justiça do Trabalho determinou que o prédio fosse a leilão na modalidade venda direta por iniciativa particular.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesApesar de um laudo produzido no processo de insolvência ter apontado que o prédio de 12 mil metros quadrados de terreno na região central de Porto Alegre valia R$ 70,9 milhões, o imóvel foi arrematado em R$ 41 milhões, em setembro de 2022, em um leilão sem divulgação pública e sem o famoso “dou-lhe uma, dou-lhe duas, dou-lhe três” – a oferta foi dada às 23h59, sem chance de outro concorrente cobri-la.
O arrematante foi a AFC Holding, empresa que havia sido criada pouco tempo antes por duas empresas administradas por André Beraldo de Morais e depois transferida para a administração de Thiago Assumpção Henriques, ambos alvos da primeira fase da Operação Compliance Zero, em janeiro. Antes do leilão, em 2022, o capital social foi ampliado para R$ 41 milhões, exatamente o valor do lance que viria a ser vencedor.
O liquidante do Banco Master já apontou que Beraldo é testa de ferro de Henrique Vorcaro – o que ele nega. Em processo que corre nos EUA, onde tenta o bloqueio de bens ligados a ele por terem sido adquiridos com dinheiro desviado do Master por Daniel Vorcaro, o liquidante diz que Henrique é “titular legítimo” de uma empresa que no papel pertence a Beraldo, a ponto de um acordo prever que a empresa pudesse ser vendida para o banqueiro por R$ 1 no momento que ele desejasse.
Já Thiago Henriques é o administrador de diversas empresas da família Vorcaro, entre elas a NW Holding (antes chamada Healthpar Participações), que tinha como presidente Natália Vorcaro, irmã do banqueiro. A NW já negociava a compra do prédio de Beneficiência Portuguesa antes do leilão, de acordo com uma corretora que entrou na Justiça reclamando que apresentou as partes, tinha contrato de exclusividade para intermediar o negócio e alega ter sido passada para trás com o leilão – a Justiça negou o pedido de indenização.
O administrador judicial do hospital também contesta a decisão da Justiça Trabalhista, que segundo ele não teve ampla publicidade e alienou o prédio por valor abaixo do de mercado. Depois, a Vara de Falências chegou a anular o leilão, em decisão que o grupo dos Vorcaro conseguiu reverter.
Elo entre os Vorcaro e “A Turma” assume segurança do Hospital
Logo após o leilão, a associação que administrava o hospital fechou o Beneficência Portuguesa, levando pessoal e equipamentos para outro centro que ela também gerencia. A AFC Holding ficou com o prédio, sem ainda podê-lo assumir por inteiro, enquanto um processo que questiona o leilão está parado no Superior Tribunal de Justiça (SJT).
O administrador judicial do hospital, contudo, determinou que é responsabilidade da AFC cuidar da segurança do prédio. E é aí que surge outra relação entre os Vorcaro e a empresa.
Documento juntado ao processo de insolvência civil da associação mostra que André Hodge foi apontado pela AFC como o contato responsável pela gestão financeira e operacional do contrato de vigilância.
Hodge trabalha para os Vorcaro e é apontado, em relatórios da Polícia Federal na Operação Compliance Zero, como o elo entre Henrique Vorcaro e a “Turma”, milícia que atuava a mando dos Vorcaro e que era liderada pelo “Sicário” – ele não é alvo das investigações. Foi a Turma quem promoveu ameaças de morte e atos de intimidação armada contra ex-funcionários e desafetos da família, além de realizar acessos ilegais a sistemas sigilosos do governo..
O mesmo contrato mostra outra relação: o arquivo do DocuSign revela que o envelope enviado pela AFC foi gerado e enviado a partir da conta corporativa do Grupo Multipar, a holding de saúde dos Vorcaro.
Confira a nota da AFC Holding:
A AFC Holding esclarece que a aquisição dos imóveis que compunham o antigo complexo do Hospital Beneficência Portuguesa, em Porto Alegre, ocorreu no âmbito da ação civil pública ajuizada pelo Ministério Público do Trabalho (MPT).
Após procedimento de apresentação de propostas entre empresas interessadas, a AFC Holding S.A. foi declarada vencedora e adquiriu os imóveis nos termos definidos pelo processo judicial.
A operação foi conduzida sob supervisão do Poder Judiciário, com participação e fiscalização do Ministério Público em todas as etapas. A regularidade da venda foi reconhecida por decisões da Justiça de primeiro e de segundo graus.
Embora ainda existam recursos pendentes de julgamento, o projeto apresentado para a área permanece inalterado. Seu planejamento segue em desenvolvimento e contempla parcerias estruturadas com empresas dos setores de saúde, incorporação imobiliária e construção civil.
A implementação das etapas operacionais, contratuais e executivas do empreendimento está condicionada ao trânsito em julgado das ações em curso, requisito necessário para a conclusão do processo de aquisição e para o início das obras.



