Rio diz que investimento na Ambipar foi “cilada com dinheiro público”
Rioprevidência perdeu cerca de 90% do valor investido em fundo que comprou ações da Ambipar com valor supostamente inflado

A Procuradoria Geral do Estado do Rio de Janeiro classificou o investimento de R$ 150 milhões do estado em um fundo que aportava quase exclusivamente na Ambipar como uma “cilada com dinheiro público“. O posicionamento aparece em petição da PGE-RJ em processo no qual o Rio conseguiu o bloqueio de R$ 132 milhões em ativos da Trustee, gestora deste fundo, o Texas I.
Entre junho e agosto de 2025, a Rioprevidência, que é o instituto de previdência do funcionalismo do estado do Rio de Janeiro, aportou R$ 150 milhões no fundo Texas I, que por sua vez investiu quase tudo em ações da Ambipar. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) investiga uma atuação coordenada entre o Banco Master, o investidor Nelson Tanure e o controlador da Ambipar, Tércio Borlenghi Júnior, para inflar artificialmente esses valores utilizando, entre outros, o fundo Texas I.
Depois de um ano, os papeis da Ambipar sofreram vertiginosa desvalorização. Hoje, valem menos de R$ 15 milhões, o que acabou por causar um rombo na Rioprevidência. A transação é uma das razões de o ex-governador do Rio, Cláudio Castro (PL), ter se tornado alvo de uma das fases da Operação Carbono Oculto, em maio. O BRB também teve grande prejuízo com ações da Ambipar.
Na petição, a PGE-RJ sustenta que o Rioprevidência foi vítima de uma “armadilha arquitetada” pela administração e gestão do fundo Texas I FIA, que vendeu um fundo lastreado em uma ação desprovida de fundamento. O principal argumento do estado é que o fundo apresentava uma concentração extrema, com 96,12% de sua carteira exposta a um único ativo — as ações da Ambipar —, o que é considerado incompatível com os princípios de prudência e diversificação exigidos para recursos previdenciários.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesSegundo os procuradores, houve uma “precificação artificial” das ações por meio de uma compra coordenada entre julho e outubro de 2024, quando o fundo ainda era gerido pela Trustee. A PGE afirma que essa manobra gerou uma valorização que não se sustentou, resultando na desintegração de aproximadamente R$ 135 milhões em menos de um ano. Daí o pedido de bloqueio desse montante.
“Conforme amplamente divulgado pela mídia desde então, o episódio de ascensão e queda da Ambipar nada mais foi do que uma ação de compra orquestrada por meio de Fundos, dentre os quais o Texas I, àquela época administrado e gerido pela Trustee”, escrevem os procuradores do estado.
A Procuradoria também aponta uma grave violação do dever fiduciário e falta de transparência. A petição denuncia que, a partir de março de 2026, a carteira do fundo passou a ser divulgada pela sua administradora, a Master Corretora, sem a individualização dos ativos, tornando-se o que a PGE classificou como um “voo às cegas”. Essa invisibilidade teria sido uma estratégia deliberada para impedir que o Estado acompanhasse em tempo real o prejuízo que estava sendo imposto aos cofres públicos.
“Este impacto é intolerável para qualquer investidor e, em especial, para o Rioprevidência e para o Estado, este último responsável, em última análise, pelo pagamento de verbas alimentares aos aposentados e pensionistas fluminenses. Em outras palavras, não se pode admitir que os já combalidos cofres estaduais suportem perdas resultantes de papéis fictícios, desconhecidos do próprio quotista, por manobras canhestras de pessoas associadas ao Grupo Master”, alega a PGE.
Rio de Janeiro consegue bloquear R$ 132 milhões
Um primeiro pedido do Rio foi negado pela 5ª Vara da Fazenda Pública da Comarca da Capital, que nesta quinta-feira (23) deferiu um agravo de instrumento da PGE, alegando que o Rio conseguiu demonstrar o perigo na demora por uma decisão, já que o próprio Tribunal de Contas do Estado declarou a entidade inidônea.
A decisão bloqueia R$ 135 milhões da Trustee Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários LTDA., da Axor Asset LTDA (que ofertou os papéis à Rioprevidência), de Alexandre Marchesani Canata (diretor de gestão do fundo) e de Felipe Mota Separovic Rodrigues (diretor de compliance). Também determina que o liquidante da Master Corretora apresente parecer de auditoria externa independente em relação ao fundo Texas I em até 15 dias.
A Justiça ainda terminou que a Trustee apresente relatório que especifique, no período 31 de maio de 2024 a novembro de 2025, cada aquisição, alienação ou resgate de cotas por quaisquer dos cotistas do Texas I, seja por aporte de recursos com emissão de cotas, por aquisição de cota de outro cotista, venda de cota para outro cotista ou resgate de cotas, devendo constar do documento o nome dos cotistas envolvidos na operação e os beneficiários finais, bem como a indicação das datas, dos valores pagos e dos volumes negociados.
Já a B3 deve informar informe todas as transações (compras e vendas) realizadas com ações Ambipar de maio de 2024 a outubro de 2025, indicando a parte compradora, a parte vendedora, o preço de cada negociação e o volume negociado, bem como os beneficiários finais de cada comitente.




