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Influenciador neonazista abre portas para o MBL nos Estados Unidos
The Phallic Man, que defende extermínio étnico, escreveu artigo exaltando o Missão e falou em nome do partido no X
atualizado
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Um influenciador neonazista tem trabalhado para aproximar o Missão, partido do MBL, a líderes da extrema-direita norte-americana. Conhecido pelo codinome “The Phallic Man”, ele tem feito elogios públicos a Renan Santos, líder do movimento brasileiro, na mesma página em que jura “amor eterno” a Adolf Hitler.
Em setembro, assinou artigo sobre Renan e o Missão na newsletter de extrema-direita J’Accuse. No texto, relata a criação do Movimento Brasil Livre (MBL), recupera a formação do Missão e sua transformação em partido político e relata como o grupo mobiliza jovens pelo país sonhando em levar Renan à presidência.
O artigo termina assim: “A grande contribuição do MBL para a humanidade é a noção de que a política é recursiva. O Estado deve espelhar o partido; o partido deve espelhar os planos de seus líderes”.
Ao comentar o texto, um assinante da revista mostrou que o recado estava dado: “Isso é exatamente, detalhe por detalhe, o que Hitler descreveu em ‘Mein Kampf’ como o projeto para um partido político de sucesso.”
O artigo, que trata o Missão como um partido adepto do conceito político central do nazismo – a subordinação do Estado à vontade do partido e de sua liderança – cumpriu com o objetivo de atrair os interesses da extrema-direita norte-americana para o movimento político brasileiro.
“Os gringos piraram”, relatou Renan em live depois de voltar dos Estados Unidos, onde surfou na onda gerada pelo influenciador nazista, no fim do ano passado.
“Encontrei pelo menos um grande ídolo. As pessoas estão admiradas, e posso falar que conhecem nosso trabalho. Como conhecem? Houve, coisa de três semanas, um artigo do The Phallic Man na J’Accuse, que é lida pela novíssima direita norte-americana e inglesa. Esse texto foi muito lido nos Estados Unidos. Os gringos piraram. A partir do momento que falamos com um, vou apresentar outro, depois outro. Gabaritei nomes interessantes da novíssima direita norte-americana”, contou o líder do MBL em uma live.
Já o perfil “Eumenes”, na mesma semana, postou que ele e o The Phallic Man passaram “a semana inteira conversando com ele”, em referência a Renan. “A gente conversou sobre futebol, novela, cinema brasileiro, cultura de festa nos anos 2000, groyperismo, e para tudo ele consegue facilmente entender uma teoria que explica o fenômeno”.
“Morte de todos os negros”
A relação entre Renan Santos e “The Phallic Man” é tema de notícia-crime apresentada ao Ministério Público Federal (MPF) do Distrito Federal pelo estudante de ciência política Ian Bartholo Lukas Coelho.
De acordo com a denúncia, Renan e o homem fálico atuam de forma organizada, contínua e articulada para difundir ideologias extremistas, racistas e anti democráticas. Além de possíveis crimes de ódio e apologia ao nazismo, são citados indícios de “atuação coordenada com rede extremista transnacional”, o que atrai a competência da Justiça Federal – daí a denúncia ao MPF.
Antes de ser autor de artigos no principal panfleto da extrema-direita, The Phallic Man é um perfil fechado no X (o antigo Twitter). Ali, entre posts em inglês e português, faz propaganda nazista em um perfil que até recentemente era fechado.
A denúncia traz alguns “prints”. “Em que parte da Bíblia se diz que os negros foram feitos a imagem de Deus?”, escreve em um dos posts.
Em diversas mensagens, o autor utiliza a sigla TND, usualmente uma referência a “Total Nigger Death” (morte de todos os negros, em uma tradução livre). “Em um mundo onde o sul global continua a crescer, mas a demanda por trabalho continua a diminuir, TND é uma certeza histórica”, escreveu em uma postagem.
Em outra, o “homem fálico”, que faz campanha explícita pela eleição de Renan Santos como presidente da República, diz que 4 de janeiro de 2027 será o dia do “grande experimento TND do Rio de Janeiro”. Para ele, “TND [a morte de todos os negros] é uma certeza histórica, a chamada providência hitleriana”.
No mesmo perfil em que prega o extermínio de todos os negros, o responsável por apresentar o Missão à extrema-direita internacional fala em nome do partido de Renan Santos.
Em mensagem ao proprietário da J’Accuse, o convidou a conhecer o Brasil: “Nós vamos pagar por toda a viagem e despesas de hospedagem se você estiver livre para vir ao Congresso Nacional do Missão, em novembro”. Ele não detalha a quem se refere por “nós”.
“Mate os idosos”
Outro código recorrente nas postagens de The Phalic Man é “KTO”, que o próprio autor diz se referir a “Kill the Old”, ou “mate os idosos” em tradução livre. Em uma das postagens, isso é explícito: “Matar todas as pessoas idosas vai aumentar o consumo e elevar o produto interno bruto. #KTO”.
Em postagem da mesma semana em que assinou artigo tratando o Missão como o futuro do país, The Phallic Man escreveu que: “Nenhum humano deve ter mais de 60 anos. Pessoas idosas são um risco para a seguridade nacional”, utilizando mais uma vez a hashtag para “mate os idosos”.
Dois dias depois, The Phallic Man compartilhou um hentai japonês votando e a legenda: “Ela está votando no Missão, novo partido brasileiro. Total aniquilação da vida nas favelas e o nascimento da primeira teocracia mitraista da América do Sul. Complexo prisional para 1 milhão no interior do Tocantins. Vocês concordam?”
Na denúncia apresentada ao MPF, Ian Lukas avalia que “Esses conteúdos não são ambíguos, nem passíveis de interpretação benigna. Tratam-se de manifestações explícitas de ódio racial, apologia à violência e glorificação de ideologias historicamente responsáveis por genocídios”.
À coluna, Coelho disse que a associação entre o líder do Missão e o perfil neonazista foi tornada pública pelo próprio Renan. “Dada a gravidade da acusação eu quis tomar muito cuidado desde o momento que recebi ao associar Renan a qualquer um que estivesse cometendo crimes. De todo modo, penso que está tudo muito claro, haja vista que ele confessa em vídeo a associação.”
O que diz Renan Santos
À coluna, Renan diz não ter sido apresentado a qualquer pessoa que se apresentasse como sendo o The Phalic Man. “Eu estive com um monte de gente nos Estados Unidos. Eu não sei quem é quem. ‘Ah, você esteve com fulano, beltrano’. O que eu sei dizer para você (se esteve com o dono do perfil), com toda tranquilidade”
O político também negou que o perfil, que convidou o dono da J’Accuse a vir ao Brasil para o Congresso do Missão, com todas as despesas pagas, falasse em nome do partido. “Ninguém fala em nome do Partido Missão e nem tem como falar em nome do Partido Missão. Inclusive, o Partido Missão nem tem como pagar nada para ninguém.”
Renan disse que não foi entrevistado para o artigo, que segundo ele ficou “muito bom”. Questionado sobre à comparação explícita entre o projeto do MBL e os ideais de Hitler, o líder do Missão se esquivou.
“Em muitos pontos ele acerta. Deve ser alguém que acompanha muito a gente. Em outros pontos eu não sei. Agora você acha que é minha opinião? Minha opinião é a seguinte: naturalmente um partido tem que refletir a opinião construída pelas suas bases, pela sua liderança. Por isso a gente construiu no nosso partido o livro amarelo, que é uma construção colaborativa que a gente tem com pesquisadores e pessoas que fazem parte do nosso universo, pessoas ao redor do Brasil inteiro.”








