Demétrio Vecchioli

Em mensagens, presidenciável do MBL relatava uso de cogumelos mágicos

À coluna, Renan Santos disse que, se eleitor for contra o consumo da droga, ele se compromete a não usar mais.

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Divulgação
imagem colorida renan santos mbl
1 de 1 imagem colorida renan santos mbl - Foto: Divulgação

Pré-candidato a presidente da República pelo Missão, Renan Santos participou ativamente de um grupo pelo Instagram no qual recomendava autores de extrema-direita, promovia concurso de “novinhas” e relatava uso de entorpecentes. Uma das principais bandeiras de campanha dele é o combate ao tráfico de drogas.

O Metrópoles teve acesso exclusivo às mensagens trocadas durante um ano e meio, entre abril de 2024 e outubro de 2025, no grupo Cannipapo. Elas fazem parte de uma denúncia-crime apresentada ao Ministério Público Federal do Distrito Federal (MPFDF) pelo estudante de ciência política Ian Bartholo Lukas Coelho.

Em contato com o coluna, Renan confirmou a veracidade das mensagens tratadas nesta matéria e justificou-as uma a uma.

O presidenciável foi adicionado a revelia ao Cannipapo em setembro de 2024. Sua primeira interação foi questionar a motivação de quem o havia colocado naquele grupo “bizarro”. Após ser informado de que se tratava de uma reunião de apoiadores, Renan quis saber se os colegas conheciam autores cultuados pela extrema-direita, um deles declaradamente fascista.

Em seguida, ignorou as mensagens no grupo por mais de duas semanas. Retornou no dia 24 de novembro com a seguinte mensagem:

“Cara. Tomei um cogumelo e tô ouvindo Wagner. Adeus”. 

O alemão e declaradamente antissemita Richard Wagner era o compositor favorito de Adolf Hitler e suas músicas eram usadas em comícios e eventos do regime nazista, que o tratava como exemplo de superioridade da música e do intelecto alemão.

Duas semanas depois desta mensagem, foi Renan quem voltou ao tema “cogumelos” no Cannipapo:

“Usei cogumelo de novo no fim de semana e tenho certeza que existe um mundo gigante cheio de significados no inconsciente. Que alguns acessam mais que outros”.

Um colega pergunta: “Cubensis?”. Ele responde: “Si”. Cubensis é também conhecido como Cogumelo Mágico e seu cultivo, aquisição e comercialização só são autorizados no Brasil para fins de pesquisa, coleção e amostra botânica.

Recentemente, a polícia do DF desmantelou uma quadrilha que comercializava o Cogumelo Mágico. Os investigados respondem pelos crimes de tráfico de drogas qualificado, lavagem de dinheiro e integração em organização criminosa, entre outros.

Apesar de relatar no grupo o consumo de drogas, Renan tem se posicionado radicalmente contra o comércio de drogas. Em dezembro, incendiou uma suposta bandeira do Comando Vermelho e prometeu que a facção “vai virar cinzas” se ele for eleito presidente.

A origem da droga: “Me deram”

À coluna, Renan disse não saber a origem dos entorpecentes utilizados por ele: “Sei lá, me deram. Eu nunca comprei. Eu ganhei, tomei uma microdose. Eu tomei uma vez um um negócio e foi isso”, afirmou inicialmente, citando ter relatado este uso em uma entrevista ao podcast Flow.

Contrastado com o fato de ter relatado o uso de cogumelos em dois momentos, voltou atrás. “Que eu me lembro, tomei na minha vida três vezes. Microdosagem talvez tenha tomado alguma microdosagem para trabalhar, para escrever, que eu uso isso para ver artigos, talvez, mas não me lembro assim, tá?”.

Renan disse que o uso de Cogumelo Mágico é diferente do uso de outras drogas que ele combate. “Primeiro que isso aqui não tá financiando nenhum tráfico de droga internacional de porra nenhuma. Eu não sou um drogado. Eu usei um 0,00 de alguma coisa para uma experiência musical e não recomendo os outros que façam e nem vou fazer mais, porque eu não preciso disso, tá? Eu nunca matei ninguém para para isso. Eu nunca financiei nada disso. Não tenho nenhuma contradição nisso”, afirmou.

O político afirmou ainda que, se o eleitor dele for contra o uso de entorpecentes, ele pode se comprometer a nunca mais usar cogumelo mágico. “Se isto for por parte do nosso eleitor, de ele dizer, ‘ah, Renan, foi errado você ter tomado uma microdose do negócio para ouvir uma música na tua casa’, tá bom, não usarei mais. Isso não é problema para mim, isso não é contradição. O que interessa é minha postura como homem público na defesa do que interessa.”

Conversas no Cannipapo

Quando acessado pela reportagem a partir de um link aberto, o grupo Cannipapo tinha 17 participantes, entre eles Renan. A imagem representativa do grupo era o desenho de um personagem musculoso com um barrete frígio (uma espécie de gorro) com a inscrição: “Lord Renan Groyper”.

Os groypers são um movimento político nascido nos EUA com forte apelo antissemita e oposição ao feminismo e aos direitos LGBTQ+. De acordo com o Institute for Strategic Dialogue (ISD), os groypers têm como objetivo “promover e normalizar ideias nacionalistas brancas dentro do conservadorismo tradicional”. À coluna, Renan disse rejeitar o principal líder do movimento, o podcaster Nick Fuentes, um supremacista branco que nega o holocausto.

Assim que entrou no grupo, Renan quis saber se os colegas conheciam três autores: “BAP, Jordani e Astral”. E se animou com a resposta positiva.

“Vocês têm que ler a Valete (revista do Missão). Tem várias pistas desses autores por lá. Vocês são as pessoas que estávamos buscando encontrar na Valete”, comentou o líder do MBL, em referência à revista do partido.

BAP é a abreviação de Bronze Age Pervert (pervertido da idade do bronze), um pseudônimo que acredita-se ser do acadêmico romeno Costin Vlad Alamariu. “Eu acredito no fascismo ou em ‘algo pior’, e posso dizer isso sem ambiguidade porque, ao contrário de outros, abandonei há muito tempo toda a esperança de fazer parte do mundo respeitável ou de conquistar uma audiência respeitável”, escreveu BAP em uma revista eletrônica.

BAP também já afirmou que acredita “em um governo de uma casta militar de homens que seriam capazes de guiar a sociedade rumo a uma moralidade eugênica.” Já Jason Jordani é um filósofo norte-americano que escreveu, em artigo, que asiáticos, árabes, africanos e outros povos não arianos são geneticamente e intelectualmente inferiores.

À coluna, Renan disse que lê Jordani porque ele escreve sobre mitraísmo e zoroastrismo. “Já o BAP é um cara complicado. Eu não concordo com as coisas do BAP. Agora, o BAP é um ator muito influente. Eu não gosto de boa parte das coisas que o BAP fala”, comentou o presidenciável.

“Gays são muito pouco afeitos a lealdades”

Enquanto os colegas discutiam política partidária no grupo de Instagram, o líder do MBL participava com mensagens pontuais.

Em uma delas, Renan escreveu: “Grupos políticos saudáveis têm que ter seus gays. E tem que ser gay que anda com hétero. Não essa segregação ridícula de hoje. Mas existem muitas dificuldades. Gays são muito pouco afeitos a lealdades”.

Quando a conversa passou a tratar sobre judeus na política, Renan mandou no grupo. “Graças a Deus o MBL tá bem cheio de judeu. E tem um belo muçulmano geninho pra contrabalancear”.

No mesmo dia, o tema chegou às mulheres. “Na minha escola tinha um garota bem bonitinha – loira, olhos azuis, feições boas, etc – namorando um negão feio pra caralho”, escreveu um dos membros. “Isso me dá raiva, sem brincadeira. Me dá nojo”, respondeu outro, logo em seguida.

Um terceiro membro mandou fotos de mulheres e partiu de Renan a iniciativa de perguntar aos demais: “Qual é a melhor?”. A coluna não conseguiu acessar as imagens compartilhadas.

Um dos votantes disse: “Eu curto loira de olho azul, mas a idade pesa muito na escolha que tu trouxe. Gosto de novinha apesar de serem insuportáveis”. Renan respondeu em seguida: “Pse [Pois é]. Esse grupo precisa me ajudar”.

Os demais votos foram para: “A novinha” e “A síntese perfeita seria uma novinha sueca”, o que é suficiente para Renan dar por encerrada a votação: “Parece que temos um consenso”.

À coluna, Renan se defendeu. “Eu gosto de mulher, gosto muito de mulher. Minha minha namorada, que infelizmente terminei com ela agora, ela é bem mais nova do que eu. Ela tem 23 anos. Acho ela nova. Eu gosto dela. E tem problema nenhum com isso. Também gosto de mais velha. Eu sou heterossexual, cara. Eu gosto de mulher bastante”.

O político também explicou que, nos grupos políticos em que esteve, observou que gays são “pouco afeito a lealdades”, diferentes das pessoas heterossexuais.

“Eles vivem estimulando, um xinga o outro, um quer denunciar o outro. Ah, treta horrorosa. E entre héteros não. Quer botar mais um tempero aí na tua matéria? Mulheres também vivem se matando. Acho que homem costuma cultivar lealdade melhor, mas não que não haja traição. Mas boa parte das minhas traições foram de homens héteros.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?