Demétrio Vecchioli

Ex-diretor levou anos para recuperar Matisse furtado em minutos em SP

Ex-diretor da Biblioteca Mário de Andrade relembra que órgão se recusava a admitir que álbum de Matisse havia sido furtado

atualizado

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Divulgação/ Prefeitura de São Paulo
Obra The Clown, de Henry Matisse, roubada da Biblioteca Mário de Andrade
1 de 1 Obra The Clown, de Henry Matisse, roubada da Biblioteca Mário de Andrade - Foto: Divulgação/ Prefeitura de São Paulo

O filósofo Luiz Armando Bagolin viveu uma epopeia para recuperar o álbum Jazz, do artista francês Henri Matisse, da primeira vez que o item mais precioso da coleção da Biblioteca Mario Andrade foi furtado em São Paulo. Então diretor do órgão, levou três anos até convencer a Polícia Federal de que a segunda maior biblioteca do país tinha condições de segurança para guardar de novo sua joia.

“A sensação é de que foi um esforço em vão. Você fica quatro anos, faz sua parte, com recurso público sempre limitado, e aí depois alguém entra pela porta da frente e rouba. Você vira as costas e acontece de novo. A primeira vez ainda foi mais inteligente: o cara surrupiou, deixou uma cópia. Agora os caras simplesmente entraram pela porta da frente, à luz do dia“, diz Bagolin, que é professor do Instituto de Estudos Brasileiros da USP e foi diretor do museu na gestão Fernando Haddad (PT), de 2013 a 2016.

Diferente de agora, quando o assalto se tornou público logo após a obra ser levada pelos ladrões, cerca de 15 anos atrás a biblioteca negou enquanto pôde ter sido furtada. Foram pelo menos seis anos até se descobrir o golpe e mais um tempo para admitir que o objeto guardado em São Para era uma falsificação grosseira.

Acredita-se que o álbum Jazz tenha sido trocado por um falsificado entre 2004 e 2006 por um antigo estagiário da biblioteca, Laéssio Rodrigues de Oliveira, que depois se tornaria o autoproclamado maior ladrão de livros raros do país — até 2019, quando foi preso, roubou mais de 60 mil itens, nas próprias contas.

O Jazz da Mario de Andrade foi localizado em 2012 pela Polícia Federal, que, em cooperação com autoridades argentinas, o localizou em um lote de livros e gravuras raras apreendido em 2006 na região da Tríplice Fronteira. A identificação foi possível porque o álbum de 1947, que teve tiragem de 250 exemplares, é numerado.

Quando o delegado Fábio Scilar veio a São Paulo para ouvir o então diretor da biblioteca, não foi recebido, nem autorizado a visitar a cópia fajuta. Foi necessária uma decisão judicial exigindo que a Mário de Andrade realizasse um exame pericial de autenticidade, que atestou o óbvio: tratava-se de uma falsificação grosseira, sem correspondência com as técnicas e materiais empregados por Matisse e pela editora Tériade, como escreveu em texto recente o também filósofo Fabrício Reiner.

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The Circus, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
Monsieur Loyal, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
The nightmare of the white elephant, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
The Codomas, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
"O Tobogã"
Obra The Clown, de Henry Matisse, roubada da Biblioteca Mário de Andrade
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Obra The Clown, de Henry Matisse, roubada da Biblioteca Mário de Andrade

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The Circus, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
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The Circus, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade

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Monsieur Loyal, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
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Monsieur Loyal, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade

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The nightmare of the white elephant, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
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The nightmare of the white elephant, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade

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The Codomas, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
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The Codomas, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade

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"O Tobogã"
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"O Tobogã"

© Succession H. Matisse / AUTVIS, Brasil, 2016
"Os Codomas"
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"Os Codomas"

The Coyboy, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade
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The Coyboy, obra de Henry Matisse roubada da Biblioteca Mário de Andrade

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The Sword Swallower, obra de Henry Matisse roubada da biblioteca Mário de Andrade
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The Sword Swallower, obra de Henry Matisse roubada da biblioteca Mário de Andrade

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The Swimmer in the tank, obra de Henry Matisse roubada da Biiblioteca Mário de Andrade
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The Swimmer in the tank, obra de Henry Matisse roubada da Biiblioteca Mário de Andrade

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“Qualquer pessoa que conhecesse um pouco de arte ia saber que era uma coisa completamente fajuta. O caso é mais escabroso porque em 2009 o álbum foi exposto na Pinacoteca, que pediu emprestado para ele ser exposto fechado. tem laudo de saída, laudo de retorno, o álbum foi exposto publicamente, ninguém viu problema. Quando inquerida, a Pinacoteca mentiu, falou que nunca havia pedido o álbum emprestado para a Mário de Andrade. A polícia levantou o contrato de seguro o contrato de empréstimo, aí o delegado voltou e falou: ‘Por que vocês mentiram’?. ‘Ah, desculpe, é que a gente não queria envolver a instituição”, conta Bagolin.

Por razões óbvias, o delegado não confiava que São Paulo pudesse manter o álbum em segurança. Preferiu deixá-lo guardado no Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro, que ficou como fiel depositário da obra.

Segundo memorando da época, relatado por Reiner, a PF argumentou que a Mario de Andrade “não demonstrava ter condições de segurança para receber de volta a obra” e que “ou os envolvidos no furto continuavam trabalhando na biblioteca ou havia omissão dos funcionários”.

Foram quatro anos entre as primeiras tratativas, ainda na gestão Gilberto Kassab (hoje no PSD), até o retorno da obra a São Paulo, em agosto de 2015, no penúltimo ano da gestão Haddad. Bagolin foi até o Rio e convenceu pessoalmente a PF a autorizar o retorno, convencida de que o novo plano de segurança impediria que o álbum fosse levado do departamento de obras raras, com restrito controle de acesso.

Dez anos depois, o novo roubo aconteceu à luz do dia, com oito gravuras sendo retiradas de uma exposição pública que celebrava os 100 anos da biblioteca. “Seria impensável entrar pela porta da frente e sair com quadros debaixo do braço. É um absurdo isso. Eles saíram com obras debaixo do braço, ninguem fez nada. Não tem um policial, e aconteceu a 200m do gabinete do prefeito. Esse é o mais absurdo de tdoa a história. Certeza que vão recuperar, são ladrões pouco profissionais. Os problema é muito maior. Não tem um guarda municipal na frente da maior biblioteca da cidade, segunda maior da América Latina, na exposição do centenário, olha a vergonha”, critica o ex-diretor.

Para Bagolin, o assalto expõe o risco a que estão sujeitas também grandes galerias da cidade. “Se têm essa ousadia, de invadir um equipamento como esse, a luz do dia, para roubar obras de arte, imagina o que não fazer isso nas galerias particulares, nos Jardins.”

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