Demétrio Vecchioli

Em crise, Allegra Pacaembu não consegue pagar financiamento da reforma

Concessionária do estádio do Pacaembu deveria ter quitado financiamentos de R$ 430 milhões nas últimas semanas

atualizado

metropoles.com

Compartilhar notícia

Divulgação
Imagem colorida mostra a fachada do estádio do Pacaembu - Metrópoles
1 de 1 Imagem colorida mostra a fachada do estádio do Pacaembu - Metrópoles - Foto: Divulgação

A Concessionária Allegra Pacaembu não quitou no prazo um financiamento de R$ 170 milhões que venceu em outubro. A empresa também deveria ter quitado na semana passada uma operação de R$ 260 milhões para bancar as obras da Mercado Livre Arena Pacaembu, mas até agora não conseguiu novos recursos para “rolar” a dívida. Reaberto no início do ano, o estádio tem demanda de jogos e shows muito abaixo do planejado.

Como já mostrou a coluna, a concessionária do complexo esportivo do Pacaembu também não tem honrado pagamentos a fornecedores da obra. Em 1º de dezembro, havia 468 protestos em cartórios da cidade de São Paulo contra a Allegra, de 94 empresas, que somavam R$ 17,3 milhões. A Serasa classifica a empresa como em “default” (inadimplemento).

Só por conta dessas dívidas os investidores que compraram R$ 430 milhões em Certificados de Recebíveis Imobiliário (CRI) da Allegra em 2022 e 2023 já poderiam ter acionado as garantias previstas nos financiamentos. Entre as cláusulas para o vencimento antecipado — ou seja, para a quitação antecipada do empréstimo à vista — está a Allegra não ter mais de R$ 5 milhões em títulos protestados.

CRI é uma espécie de CDB com lastro imobiliário. Na operação, os investidores fornecem recursos a uma securitizadora, que por sua vez empresta os valores à Allegra via debêntures (títulos de dívidas). Na prática, o investidor empresa dinheiro à Allegra com a promessa de que receberá o dinheiro de volta em uma data prefixada, com juros e correção.

Em nota à coluna, a Concessionária Allegra Pacaembu disse que “não possui nenhuma operação financeira em default” e que “os contratos de financiamento vigentes foram aditados e não há pendências com os credores da companhia”.

Allegra não pagou amortização

Em 2022, na sua segunda emissão de CRI, a Allegra levantou R$ 170 milhões com vencimento em 25 de oubutro de 2025. Uma última amortização deveria ter acontecido em 23 de outubro, mas a Allegra não pagou os juros, impedindo o resgate de R$ 170 milhões previsto para dois dias depois.

Uma assembleia de investidores decidiu suspender por 60 dias o acionamento das garantias, que incluem ações da Savona, o fundo de investimentos que é sócio da Allegra. A concessionária ganhou dois meses para buscar uma solução financeira (como um novo financiamento) que a permitisse quitar a dívida integralmente. Não sem pagar juros (1% ao mês) e multa (2% do sobre o valor devido).

Em junho, a Allegra já havia perdido uma carta de fiança do Banco BTG, no valor de R$ 10 milhões, dada como vencida com dois meses de antecedência. Como a concessionária não conseguiu a renovação, os investidores tinham direito ao vencimento antecipado das debêntures, mas votaram por não exercer tal direito.

Paralelamente, a Allegra também precisava ter quitado em 25 de outubro as CRIs de uma terceira emissão, feita em 2023, com valor total de R$ 260 milhões. A base de dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) trata o pagamento como “pendente”.

Nas duas CRI, a Allegra deixou de cumprir, este ano, as cláusulas de fluxo mínimo nas respectivas contas vinculadas, o que também é razão para o acionamento das garantias e vencimento do financiamento. Os investidores, porém, optaram por não adotar tal atitude, dada a situação crítica da Allegra. A concessionária fechou 2024 com uma relação Dívida Líquida/EBITDA de 3,46. O limite previsto nesta terceira emissão era 2,50, o que classifica a Allegra no grau de default (inadimplemento). Mesmo assim, os investidores optaram por não darem o contrato por vencido.

Concessionária do Pacaembu busca dinheiro novo no mercado

A Allegra Pacaembu é uma concessionária formada pela construtora Progen, do presidente do consórcio, Eduardo Barella, e pelo fundo de investimentos Savona FIP, que investe exclusivamente na Allegra e é representado por Rafael Carneiro Bastos de Carvalho,.

A concessionária tem dito que já investiu R$ 800 milhões no Pacaembu. Como é comum neste tipo de obra, uma parte significativa do montante vem de financiamento. Primeiro, de uma CCB (Célula de Crédito Bancário) do Banco Luso Brasileiro, de R$ 46 milhões. Depois, com as debêntures das duas CRI posteriores, que tiveram a XP como coordenadora líder.

O plano era que os R$ 430 milhões levantados em 2022 e 2023 fossem pagos este ano, com uma nova emissão de CRI, de R$ 515 milhões, aprovada no começo do ano, mas que só deverá ser lançada este mês, tendo o Itaú como coordenador líder. Em um primeiro edital, o valor buscado é de R$ 350 milhões, para pagamento em 10 anos, com remuneração começando em IPCA + 2%  a.a.

A concessionária se compromete a utilizar os valores arrecadados exclusivamente para “pagamento de gastos, custos e despesas ainda não incorridos, diretamente atinentes à conclusão da construção, expansão, manutenção, desenvolvimento e/ou reforma do Complexo do Pacaembu”. Ou seja, ela em tese não pode usar a verba para pagar dívidas, que são despesas já incorridas.

Pacaembu recebe bem menos eventos do que esperava

Mais de seis anos depois da assinatura do contrato de concessão e dez meses após a reinauguração oficial, o Pacaembu passa longe de receber a frequência de eventos que prometia a Allegra. Em entrevista em fevereiro de 2024, Eduardo Barella, CEO da concessionária, disse que o estádio tinha projeção de receber 35 partidas ao longo de 2025, vinte delas em um modelo atraente para jogos de grande público. Até agora, foram 10 partidas oficiais e somente duas delas com mais de 10 mil torcedores.

A concessionária dizia ter contrato com São Paulo, Cruzeiro e Santos, mas nenhum deles mandou jogos no estádio — São Paulo e Santos fecharam acordo para um jogar na casa do outro. O time tricolor levou só seu time feminino ao Pacaembu, que também recebeu dois mandos do Corinthians. A Portuguesa, que disputou o Paulistão no estádio municipal, optou por reabrir o Canindé para jogar a Série D, reclamando que os custos do Pacaembu são altos.

O número de shows também está bem abaixo do projetado. A Allegra dizia ter um contrato de 80 datas por ano com um único fundo de investimento especializado em promoção de shows, o Four Even, que em 2025 anunciou a realização de somente três shows no Pacaembu.

Questionada sobre as razões para o baixo número de eventos, a Allegra não respondeu.

Quais assuntos você deseja receber?

Ícone de sino para notificações

Parece que seu browser não está permitindo notificações. Siga os passos a baixo para habilitá-las:

1.

Ícone de ajustes do navegador

Mais opções no Google Chrome

2.

Ícone de configurações

Configurações

3.

Configurações do site

4.

Ícone de sino para notificações

Notificações

5.

Ícone de alternância ligado para notificações

Os sites podem pedir para enviar notificações

metropoles.comNotícias Gerais

Você quer ficar por dentro das notícias mais importantes e receber notificações em tempo real?