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Em crise, Allegra Pacaembu não consegue pagar financiamento da reforma
Concessionária do estádio do Pacaembu deveria ter quitado financiamentos de R$ 430 milhões nas últimas semanas
atualizado
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A Concessionária Allegra Pacaembu não quitou no prazo um financiamento de R$ 170 milhões que venceu em outubro. A empresa também deveria ter quitado na semana passada uma operação de R$ 260 milhões para bancar as obras da Mercado Livre Arena Pacaembu, mas até agora não conseguiu novos recursos para “rolar” a dívida. Reaberto no início do ano, o estádio tem demanda de jogos e shows muito abaixo do planejado.
Como já mostrou a coluna, a concessionária do complexo esportivo do Pacaembu também não tem honrado pagamentos a fornecedores da obra. Em 1º de dezembro, havia 468 protestos em cartórios da cidade de São Paulo contra a Allegra, de 94 empresas, que somavam R$ 17,3 milhões. A Serasa classifica a empresa como em “default” (inadimplemento).
Só por conta dessas dívidas os investidores que compraram R$ 430 milhões em Certificados de Recebíveis Imobiliário (CRI) da Allegra em 2022 e 2023 já poderiam ter acionado as garantias previstas nos financiamentos. Entre as cláusulas para o vencimento antecipado — ou seja, para a quitação antecipada do empréstimo à vista — está a Allegra não ter mais de R$ 5 milhões em títulos protestados.
CRI é uma espécie de CDB com lastro imobiliário. Na operação, os investidores fornecem recursos a uma securitizadora, que por sua vez empresta os valores à Allegra via debêntures (títulos de dívidas). Na prática, o investidor empresa dinheiro à Allegra com a promessa de que receberá o dinheiro de volta em uma data prefixada, com juros e correção.
Em nota à coluna, a Concessionária Allegra Pacaembu disse que “não possui nenhuma operação financeira em default” e que “os contratos de financiamento vigentes foram aditados e não há pendências com os credores da companhia”.
Allegra não pagou amortização
Em 2022, na sua segunda emissão de CRI, a Allegra levantou R$ 170 milhões com vencimento em 25 de oubutro de 2025. Uma última amortização deveria ter acontecido em 23 de outubro, mas a Allegra não pagou os juros, impedindo o resgate de R$ 170 milhões previsto para dois dias depois.
Uma assembleia de investidores decidiu suspender por 60 dias o acionamento das garantias, que incluem ações da Savona, o fundo de investimentos que é sócio da Allegra. A concessionária ganhou dois meses para buscar uma solução financeira (como um novo financiamento) que a permitisse quitar a dívida integralmente. Não sem pagar juros (1% ao mês) e multa (2% do sobre o valor devido).
Em junho, a Allegra já havia perdido uma carta de fiança do Banco BTG, no valor de R$ 10 milhões, dada como vencida com dois meses de antecedência. Como a concessionária não conseguiu a renovação, os investidores tinham direito ao vencimento antecipado das debêntures, mas votaram por não exercer tal direito.
Paralelamente, a Allegra também precisava ter quitado em 25 de outubro as CRIs de uma terceira emissão, feita em 2023, com valor total de R$ 260 milhões. A base de dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais) trata o pagamento como “pendente”.
Nas duas CRI, a Allegra deixou de cumprir, este ano, as cláusulas de fluxo mínimo nas respectivas contas vinculadas, o que também é razão para o acionamento das garantias e vencimento do financiamento. Os investidores, porém, optaram por não adotar tal atitude, dada a situação crítica da Allegra. A concessionária fechou 2024 com uma relação Dívida Líquida/EBITDA de 3,46. O limite previsto nesta terceira emissão era 2,50, o que classifica a Allegra no grau de default (inadimplemento). Mesmo assim, os investidores optaram por não darem o contrato por vencido.
Concessionária do Pacaembu busca dinheiro novo no mercado
A Allegra Pacaembu é uma concessionária formada pela construtora Progen, do presidente do consórcio, Eduardo Barella, e pelo fundo de investimentos Savona FIP, que investe exclusivamente na Allegra e é representado por Rafael Carneiro Bastos de Carvalho,.
A concessionária tem dito que já investiu R$ 800 milhões no Pacaembu. Como é comum neste tipo de obra, uma parte significativa do montante vem de financiamento. Primeiro, de uma CCB (Célula de Crédito Bancário) do Banco Luso Brasileiro, de R$ 46 milhões. Depois, com as debêntures das duas CRI posteriores, que tiveram a XP como coordenadora líder.
O plano era que os R$ 430 milhões levantados em 2022 e 2023 fossem pagos este ano, com uma nova emissão de CRI, de R$ 515 milhões, aprovada no começo do ano, mas que só deverá ser lançada este mês, tendo o Itaú como coordenador líder. Em um primeiro edital, o valor buscado é de R$ 350 milhões, para pagamento em 10 anos, com remuneração começando em IPCA + 2% a.a.
A concessionária se compromete a utilizar os valores arrecadados exclusivamente para “pagamento de gastos, custos e despesas ainda não incorridos, diretamente atinentes à conclusão da construção, expansão, manutenção, desenvolvimento e/ou reforma do Complexo do Pacaembu”. Ou seja, ela em tese não pode usar a verba para pagar dívidas, que são despesas já incorridas.
Pacaembu recebe bem menos eventos do que esperava
Mais de seis anos depois da assinatura do contrato de concessão e dez meses após a reinauguração oficial, o Pacaembu passa longe de receber a frequência de eventos que prometia a Allegra. Em entrevista em fevereiro de 2024, Eduardo Barella, CEO da concessionária, disse que o estádio tinha projeção de receber 35 partidas ao longo de 2025, vinte delas em um modelo atraente para jogos de grande público. Até agora, foram 10 partidas oficiais e somente duas delas com mais de 10 mil torcedores.
A concessionária dizia ter contrato com São Paulo, Cruzeiro e Santos, mas nenhum deles mandou jogos no estádio — São Paulo e Santos fecharam acordo para um jogar na casa do outro. O time tricolor levou só seu time feminino ao Pacaembu, que também recebeu dois mandos do Corinthians. A Portuguesa, que disputou o Paulistão no estádio municipal, optou por reabrir o Canindé para jogar a Série D, reclamando que os custos do Pacaembu são altos.
O número de shows também está bem abaixo do projetado. A Allegra dizia ter um contrato de 80 datas por ano com um único fundo de investimento especializado em promoção de shows, o Four Even, que em 2025 anunciou a realização de somente três shows no Pacaembu.
Questionada sobre as razões para o baixo número de eventos, a Allegra não respondeu.
