Digimais revendeu carteiras falsas de Master e Fictor, diz investidor
Investidor afirma que banco de Edir Macedo comprou títulos falsos vendidos pelo Master e os repassou a ele

Um investidor acusa o Banco Digimais, do bispo Edir Macedo, de vender-lhe uma carteira com R$ 316 milhões em títulos de crédito consignado fraudulentos gerados por Reag, Master e Fictor. Devolvidos em agosto de 2025, depois de identificadas as regularidades, os títulos falsos seguem no balanço do Digimais, como se fossem um ativo do banco.
Trata-se do mesmo tipo de operação que lesou o BRB, que comprou bilhões de reais em carteiras de crédito vendidas pelo Master que simplesmente não existiam. No caso do Digimais, a fraude denunciada pelo investidor Roberto Campos Marinho Filho envolve carteiras também geradas pela Reag e pela Fictor, outras duas empresas na mira da Polícia Federal.
Marinho conta que, em fevereiro de 2025, comprou do Digimais, por R$ 659 milhões, uma carteira com 55 mil CCBs (Cédula de Crédito Bancário) relativas a empréstimos consignados gerados por oito empresas distintas – CCBs são documentos em que alguém que tomou o financiamento se compromete a quitá-lo.
Em agosto, quando conseguiu enfim tomar parte da documentação e submetê-la a auditoria, o investidor descobriu que todas as mais de 22 mil carteiras que haviam sido originadas por Master, Fictor e Reag, entre 2023 e 2024, eram falsas.
“100% dos 22 mil contratos originados pelo Banco Master, pela Reag e pela Fictor eram fraudulentos, não tinham nenhum papel dentro. Enquanto isso, todos os contratos originados por outras empresas eram verdadeiros. Alguns deles inadimplentes, como faz parte do meu business, mas reais”, disse Marinho à coluna.
De uma forma direta: pelo que apontou a auditoria, não havia nenhuma documentação que demonstrasse que a pessoa indicada como devedora do Master havia tomado um empréstimo do banco, que, mesmo assim, vendeu para um terceiro (o Digimais) o direito de cobrar essa pessoa.
Marinho não sabia, mas passava por uma situação muito semelhante à enfrentada pelo BRB na mesma época. Com a diferença de que, no caso do BRB, os títulos fraudulentos foram vendidos diretamente pelo Master entre setembro de 2024 e maio de 2025. Nesse caso, pelo que conta o investidor, o Digimais comprou do Master, ficou com os títulos fraudulentos em seu balanço de 2024, e depois os passou para frente, dando-lhes aparência de serem saudáveis.
Como funcionou operação
A operação entre Marinho e o Digimais foi fechada por um modelo em que o banco, ao ceder a carteira, tornava-se acionista de um fundo de investimento em direitos creditórios (FIDC) da Yards Capital que tinha o próprio Marinho como único cotista.
Nos primeiros meses após a transação, enquanto cobrava a papelada para assumir os títulos, Marinho recebia repasses do Digimais referentes às carteiras que não existiam. “Se a pessoa nunca pagou ao Digimais, porque o empréstimo nunca existiu, e eu recebi dinheiro dessa pessoa via Digimais, então é porque o Digimais me pagava para adiar o problema, para esconder a fraude”, diz Marinho.
O investidor diz que, assim que descobriu as irregularidades, procurou o Banco Central para denunciá-la – ele teve audiência com o diretor de Fiscalização, Ailton de Aquino, em 12 de agosto de 2025. Naquele mês, também formalizou junto à B3 a devolução da carteira fraudulenta, mantendo consigo as carteiras originadas por outras instituições financeiras.
Agora, é a Yards, que também é ligada a Marinho, quem pede que a Justiça reconheça que a transação foi desfeita e que o Digimais pague uma indenização pela suposta fraude. “Tudo indica que o Banco Digimais recebeu esses créditos sem realizar as devidas diligências, e posteriormente os cedeu ao Fundo sem documentação mínima comprobatória“, diz a gestora.
Nem a devolução da carteira nem os achados da auditoria sobre a falta de documentos que atestassem sua veracidade, contudo, foram informadas nas demonstrações financeiras de 2025 do Digimais. Uma ressalva da auditoria CLA sobre os FIDCs do banco indica que o Digimais contabilizou ter R$ 744 milhões no fundo de Marinho.
“O montante total na rubrica que perfaz o valor de R$ 1,9 bilhões, contém cerca de R$ 744 milhões correspondentes a fundos cujas últimas demonstrações financeiras foram emitidas com modificação de opinião… sendo assim, não nos foi possível realizar procedimentos alternativos de auditoria para avaliação da eventual necessidade de provisão de crédito do fundo e possíveis impactos nas cotas”.
O fundo foi administrado, até março, pela Sefer, que nesta sexta-feira (26) foi liquidada pelo Banco Central. O Digimais chegou a tentar, via liminar, substituí-la pela ID Gestora, alegando falhas de conduta e violação de deveres. Atualmente, o fundo é administrado pela Qore.
Yards e Digimais discutem o caso em três processos na Justiça. A Yards cobra indenização e reclama que os executivos do banco instruíram as originadoras dos títulos saudáveis a não pagarem o fundo e voltarem a depositar na conta do banco, meses após a venda dos créditos. Já o Digimais diz que o fundo assumiu o risco ao comprar a carteira e que a gestora do fundo e Marinho têm conflitos de interesses.
Procurado, o Digimais disse que não vai comentar.



