Demétrio Vecchioli

Apetite de Vorcaro por obras de arte envolvia marchand e rede de galerias

Designer mineira intermediava compras de Vorcaro com galerias no Brasil e no exterior. Banqueiro gastou ao menos R$ 260 milhões com arte

atualizado

metropoles.com

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Artes Metrópoles
Daniel Vorcaro declarou à Receita Federal possuir R$ 49,7 milhões em obras de arte
1 de 1 Daniel Vorcaro declarou à Receita Federal possuir R$ 49,7 milhões em obras de arte - Foto: Artes Metrópoles

Daniel Vorcaro declarou à Receita Federal possuir R$ 49,7 milhões em obras de arte e relógios ao final de 2024. O valor, porém, corresponde a uma pequena fração do que o banqueiro gastou com a compra de obras de arte nos últimos anos. Pagamentos acima de R$ 10 milhões por um único quadro eram recorrentes.

Como já mostrou o Metrópoles, uma empresa de sócios ocultos, mas ligada ao banqueiro, pagou de mais de R$ 165 milhões a uma única galeria de arte em São Paulo. A coluna apurou, contudo, que Vorcaro fez negócios milionários com pelo menos outras duas empresas do tipo no Brasil.

Apetite de Vorcaro por obras de arte envolvia marchand e rede de galerias - destaque galeria
6 imagens
Jean-Michel Basquiat, sem título, 1984
Carlos Cruz-Diez,  Physichromie Panam 247, 2015
Pablo Picasso, Mousquetaire, 1967
Jean-Michel Basquiat, sem título, 1983
Jean-Michel Othoniel, Wonder Block, 2024
Zeh Palito, Vem pra ser meu refrão, 2023
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Zeh Palito, Vem pra ser meu refrão, 2023

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Jean-Michel Basquiat, sem título, 1984
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Jean-Michel Basquiat, sem título, 1984

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Carlos Cruz-Diez,  Physichromie Panam 247, 2015
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Carlos Cruz-Diez, Physichromie Panam 247, 2015

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Pablo Picasso, Mousquetaire, 1967
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Pablo Picasso, Mousquetaire, 1967

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Jean-Michel Basquiat, sem título, 1983
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Jean-Michel Basquiat, sem título, 1983

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Jean-Michel Othoniel, Wonder Block, 2024
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Jean-Michel Othoniel, Wonder Block, 2024

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Nos Estados Unidos, o liquidante do Banco Master demonstrou que uma única galeria de Nova York recebeu R$ 83 milhões pela venda de obras de artes para Vorcaro. Agora, consulta outras 16 revendedoras para saber se elas também fizeram negócios com o banqueiro brasileiro.

As negociações eram sempre intermediadas por Luciana Gontijo Junqueira, herdeira da galeria mineira dotART e radicada em Miami (EUA) há 17 anos. Amiga de Fabíola Vorcaro, então esposa do empresário, Luciana passou a atuar como marchand do casal, intermediando a compra de obras de arte. Ela disse à coluna ter sido aconselhada pelo advogado a não conceder entrevistas.

Sempre acompanhado de Luciana, designer do interior de mansões de brasileiros em Miami, Vorcaro frequentava feiras como a SP-Arte, realizada anualmente no pavilhão da Bienal, em busca não de obras para sua coleção, mas que ornassem com os lugares em queria pendurar um quadro. Visitava a feira no primeiro dia e deixava que a amiga voltasse depois para fazer negócio.

Foi assim que, em maio do ano passado, pagou R$ 13,6 milhões em duas obras do venezuelano Carlos Cruz-Diez, que comprou da galeria Simões de Assis. Na mesma leva, também levou um Zéh Palito e uma peça do francês Jean-Michel Othoniel. Veja imagens abaixo.

O boleto de R$ 14,7 milhões foi emitido para a Super Empreendimento e Participações S.A., que já teve Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, como diretor. A coluna apurou que Vorcaro também já havia comprado da mesma galeria obras de artistas como Sergio Camargo, Emanoel Araújo e uma Adriana Varejão

Em 2022, ao visitar a SP-Arte também acompanhado de Luciana, levou, da Galeria Frente, três obras de brasileiros: uma d’Os Gêmeos, outra de Abraham Palatnik e uma de Burle Marx.

Também fez negócios com a galeria de arte contemporânea Nara Roesler, que confirmou ter feito duas vendas “pontuais” a Vorcaro: uma em 2019 e outra em 2022, ambas com notas fiscais emitidas para o próprio banqueiro. A reportagem apurou que foram negociadas obras de Vik Muniz e Tomie Ohtake.

Procurada, a defesa de Vorcaro não quis comentar.

Obras nos Estados Unidos

Em relato voluntário à empresa escolhida pelo Banco Central para realizar a liquidação do Master, a galeria Van de Weghe, de Nova York, relatou que em 2019 vendeu a Vorcaro o quadro Mounsquetaire, do espanhol Pablo Picasso, por US$ 6,4 milhões (R$ 33,5 milhões na cotação atual).

Na negociação, o banqueiro pediu para parcelar em quatro vezes. Duas parcelas (US$ 4 milhões) foram pagas pela Old Fort Financial Ltd, uma empresa sediada nas Bahamas. Outra, de US$ 1,2 milhão, pela Kodiak Trust Company, que tem sede no Alaska (USA) – a quarta e última parcela não é detalhada.

Em 2021, Luciana voltou a procurar a galeria para pedir o preço de um quadro do norte-americano Jean-Michel Basquiat . Fecharam negócio em US$ 5 milhões (R$ 26,1 milhões), pagos novamente pela Kodiak e, desta vez, por outra empresa de Bahamas, a Artress. As mesmas firmas compraram para Vorcaro um Anderson Frederic, em 2023, por US$ 25 mil (R$ 130 mil)

Já em setembro de 2023 foi a própria galeria quem procurou Vorcaro para oferecer a ele mais um Basquiat, como mostram prints de conversa de Whatsapp disponibilizadas ao liquidante pela própria Van de Weght.

Depois de dizer que “amou” a obra de Basquiat, o banqueiro foi se consultar com Luciana, que acionou a galeria para checar o preço e perguntar se havia algo no quadro relativo ao diabo – Vorcaro se diz evangélico. “Ele vê o diabo neste aqui”, explica ela, depois. Mesmo assim, fechou negócio, por US$ 4,5 milhões (R$ 23,54 milhões), incluindo comissão.

Bens de Vorcaro estão espalhados por empresas

Dados obtidos pelo Metrópoles que estão sob a análise da CPMI do INSS revelam que Vorcaro orientou o pagamento de R$ 165 milhões à galeria paulistana Almeida & Dale por intermédio da Super Empreendimentos e Participações S.A, que é controlada por Zettel. Foram compradas compradas obras de artistas como Beatriz Milhazes, Sergio Camargo, Tomie Ohtake, Tracey Emin e Os Gemeos.

A Super também é apontada como intermediária de Vorcaro para o pagamento do integrantes do grupo criminoso “A Turma” e dos ex-servidores do Banco Central Bellini Santana e Paulo Sérgio Neves de Souza, que são investigados pela Polícia Federal (PF) e alvos de processos administrativos na Controladoria Geral da União (CGU).

À justiça dos EUA, o liquidante do Master relatou que Vorcaro transferiu aproximadamente R$ 2 bilhões do banco para o fundo de investimento Astralo entre 2021 e 2023, quando o Astralo injetou aproximadamente R$ 1,5 bilhão na Super Empreendimentos.

Para o liquidante, os repasses (e também R$ 400 milhões para a Moriah Asset, a gestora de negócios conhecidos de Zettel) foram efetuados sem valor real ou razoavelmente equivalente, e unicamente para fraudar o Banco Master e dissipar fundos através do uso de empresas que a família controlava para seu próprio uso.

A lógica é que, ainda que as obras de arte pertençam à Super Empreendimentos, às empresas sediadas nas Bahamas ou à firma registrada no Alaska, elas foram pagas com recursos desviados do Master e, portanto, devem ser consideradas no processo de liquidação do banco.

Por isso, o liquidante quer saber de quem mais Vorcaro comprou obras de arte, ao menos nos Estados Unidos, onde também se busca a recuperação de bens desviados do Master. Lá, 16 galerias foram intimadas extrajudicialmente a informarem se fizeram negócios com Vorcaro.

No Brasil, como mostrou o Metrópoles, o liquidante do Master mira ao menos R$ 4,8 bilhões em bens e fundos de investimentos ligados a Daniel Vorcaro que podem ter sido desviados pelo banqueiro antes da liquidação da instituição financeira pelo Banco Central (BC), em novembro do ano passado.

A maioria dos imóveis e dos fundos seria ligado, direta ou indiretamente, a Vorcaro e ao cunhado dele, Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal (PF) como operador financeiro do banqueiro – ambos estão presos desde o dia 4 de março.

Nomeado pelo BC no caso do Master, o liquidante é a pessoa física ou jurídica designada para realizar o encerramento de uma empresa, sendo responsável por vender ativos, quitar dívidas e concluir as operações, geralmente em casos de falência ou liquidação.

O valor de R$ 4,8 bilhões foi calculado pela reportagem a partir da consolidação das cifras citadas na ação judicial, que se referem a dados brutos de imóveis, investimentos, participações societárias e estimativas de ganhos.

Dos 19 imóveis listados no país, o liquidante citou quatro especificamente. O mais valioso é uma mansão em Brasília, avaliada em R$ 36 milhões, em nome da empresa Super Empreendimentos, que também é dona de uma cobertura duplex no Jardim Paulista, bairro rico de São Paulo, avaliada em R$ 30 milhões.

O que dizem os envolvidos:

A defesa de Vorcaro não quis comentar.

A Simões Assis confirmou que realizou vendas à Super Empreendimentos, pessoa jurídica com vínculos com o banqueiro Daniel Vorcaro. “Todos os negócios observaram valores do mercado e receberam tratamento jurídico e contábil adequado. Como sabido, em décadas de existência, a galeria prima por cuidado nas relações com clientes e pleno acatamento às regras fiscais”, afirmou.

Acacio Lisboa, da galeria Frente, comentou que “Na ocasião da SP-Arte em 2022, ele (Vorcaro) visitou nosso estande com uma art advisor e escolheu três obras: uma dos Gêmeos, uma de Abraham Palatnik e uma do Burle Marx.” Já Nara Roesler disse que “o senhor Daniel Vorcaro não é um comprador regular da galeria, Ele realizou duas compras pontuais, uma em 2019 e outra em 2022, com notas fiscais emitidas para Daniel Bueno Vorcaro”.

A Almeida & Dale afirmou que “intermediou, no exercício regular de suas atividades, a venda de obras de arte pertencentes a clientes para a empresa Super Empreendimentos entre abril de 2022 e abril de 2025 —período anterior a qualquer questionamento público envolvendo essa companhia.”

“Todas as negociações foram conduzidas por meio de um intermediário independente, um advisor especializado no mercado de arte que representava a Super Empreendimentos. A galeria, seus sócios e colaboradores jamais tiveram contato direto com os sócios ou dirigentes da empresa compradora. A Almeida & Dale emitiu regularmente notas fiscais referentes às comissões recebidas nessas operações, em estrita conformidade com a legislação. Todas as transações foram formalizadas por meio de contratos e registros comerciais, e os respectivos comprovantes de recebimento e documentação fiscal encontram – se devidamente arquivados pela galeria, conforme exigido pelas normas legais e contábeis”, continuou a Almeida & Dale.

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