
Conceição FreitasColunas

Um incêndio em casa, no fim do ano, reacendeu minha vontade de viver
Era um cheiro que eu não conseguia identificar a origem. Até que o fogo engoliu meu quarto entre o Natal e o Ano-Novo.
atualizado
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Havia dias que eu sentia um cheiro de queimado em casa e não era de arroz nem de fogo no cerrado nem de bombinha de menino. Era um cheiro que eu não conseguia identificar a origem. Saía no corredor, saía na varanda, olhava para as casas vizinhas e não via nada.
Até que o fogo engoliu meu quarto entre o Natal e o Ano-Novo. Ver esse descomunal fenômeno da natureza em ação foi ao mesmo tempo terrível e fascinante. Se nós humanos, bem ou mal, ainda estamos aqui foi porque conseguimos dominar o fogo.
E foi preciso muita paciência, astúcia e coragem para fazer surgir e depois controlar o elemento mais destruidor e indomável da natureza. O filósofo e poeta francês Gaston Bachelard (1884-1962) escreveu que o fogo “é um deus tutelar e terrível, bom e mau”.
Era começo da noite quando fiquei diante deste deus devorador. Estava na sala quando senti o mesmo cheiro dos dias anteriores. Demorei alguns segundos pra perceber que desta vez era bem mais forte. Vieram os bombeiros, vieram os vizinhos e as labaredas foram controladas a tempo.
A lembrança mais forte que ficou do enorme susto foi a de entrar no quarto e ver o fogo comendo a ponta do colchão. Ainda tentei,
atabalhoadamente, apagar a labareda voraz até que gritei pra minha vizinha da frente chamar os bombeiros.
O que sucedeu desde então foi um reencontro caloroso com o melhor da condição humana, a capacidade de ajudar alguém em situação de emergência. Desde o paramédico que ficou tirando, um a um, os pedacinhos de plástico que colaram na pele do meu antebraço, queimadura pequena, até a moça desconhecida que me trouxe uma tesoura, que pedi desesperadamente, para cortar a tela de uma das
janelas e salvar meu gatinho. Como ela arrumou a tesoura, não faço a menor ideia. Depois de me ajudar, a moça desapareceu.
Enquanto os bombeiros não chegavam, a vizinha da frente tentou apagar o fogo com uma mangueira. O vizinho ao lado, sem saber o que fazer, além de ligar novamente para o 193, pegou um balde d’água. Mais tarde, controlado o fogo, uma vizinha me emprestou uma roupa e um chinelo (eu estava de pijama).
O fogo só devorou o quarto, mas a fumaça preta manchou o teto da casa inteira. E me acordou para a vida, mais uma vez. Reservada que sou, meus contatos com os vizinhos se resumia aos bons-dias e a algumas poucas conversas nos encontros no meio da rua. O fogo me aproximou deles e de cada um (os mais antigos, que moram na rua há mais tempo) recebi e continuo recebendo gestos de solidariedade.
Só no dia seguinte, eu chorei. Foi quando meu filho e eu entramos na casa. Entrei no cômodo onde estavam as estantes com os livros fundamentais para a biografia do arquiteto Lucio Costa, na qual estou mergulhada 24 horas por dia. A fuligem empretejou todos eles. Até que meu filho foi abrindo os livros e viu que por dentro estavam intactos, com as páginas branquinhas, quietinhas, me esperando voltar. E na sala, inteiramente tomada de papeis — nas estantes, nas paredes, na mesa, quase tudo estava salvo, embora muita coisa tenha molhado, tudo tenha se misturado, mas estava lá à minha espera.
E estou de volta a mim mesma, como se o fogo destruidor tivesse, muito mais que destruído, reacendido em mim a coragem que estava meio amuada, escondida, desesperançada. O fogo reacendeu meu desejo de viver – estou viva! Não sei por que – ninguém sabe, pode até supor, mas não sabe –, estou viva, então que eu faça valer mais essa chance de seguir adiante.
Quando eu estava no meio da rua, de pijama, vendo os bombeiros em ação, um homem desconhecido se aproximou de mim para perguntar como o fogo começou. Pergunta fora de hora e lugar, mas depois entendi: ele fez o que se costuma fazer diante de uma doença, acidente, uma tragédia. Há um desejo inconsciente de querer ver e saber tudo, como se desse modo fosse possível se proteger do futuro sempre incerto.
Essa proteção não existe, embora nos caiba tomar as devidas precauções. No meu caso foi uma vela de citronela, que estava acesa dentro de um vidro vazio de conserva, e que não sei como caiu na cama. Talvez um dos gatos tenha derrubado o vidro. Agora, pouco importa.
Uma amiga, sabendo do acontecido, me mandou um poema de Fernando Pessoa: “Eu amo tudo o que foi/Tudo o que já não é/A dor que já não me dói/A antiga e errônea fé/O ontem que a dor deixou,/O que deixou alegria/Só porque foi e voou/E hoje já é outro dia”.
Outra me disse que escapar do pior é sempre um chamado à vida. Assim vou atando amigos, vizinhos, filho, nora. Até o pedreiro, a quem sempre recorro, decidiu cobrar uma diária mais barata (embora eu não tenha aceito). Gestos que vão me ajudando a abrir o novo caminho, que é o mesmo de antes mas com a força de um renascimento.
* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.
