Conceição Freitas

É de estalar no peito os textos de Lucio Costa sobre Aleijadinho

O grande mérito de Lucio Costa é conseguir traduzir em palavras o que Aleijadinho “escrevia” em pedra-sabão

atualizado

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Reprodução/Registro de uma Vivência, de Lucio Costa
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1 de 1 cronica100-imagem_3x2 - Foto: Reprodução/Registro de uma Vivência, de Lucio Costa

Tem texto que estala dentro da gente e vibra tanto e tanto que é preciso fazer alguma coisa com ele. Foi o que aconteceu desde que li o primeiro texto que o arquiteto Lucio Costa escreveu sobre Aleijadinho, o gênio do barroco brasileiro. O texto a que me refiro é do longínquo 1929, quando Lucio tinha doces 27 anos.

O poeta Manuel Bandeira convidara Lucio para escrever sobre Antônio Francisco Lisboa, nome de batismo do artista, para uma edição especial de O Jornal dedicada a Minas Gerais.

Fazia pouco tempo que Lucio tinha visitado, pela segunda vez, as cidades históricas de Minas. Aleijadinho estava ainda vivo na memória – a força sobre-humana de suas obras é impossível de esquecer. Elas gritam e é sobre esse grito que Lucio escreve tão primorosamente, como se conseguisse traduzir em palavras o que Aleijadinho escrevia em pedra-sabão. É um avaliação implacável, dolorosa:

“Tem-se a impressão – escreve Lucio – de que ele esculpia em delírio, desabafando toda a sua dor imensa e os seus ódios mesquinhos em seu trabalho, identificando sem querer em sua obra todo o seu íntimo torturado e recalcado, lascando e modelando a pedra com volúpia doentia, estilizando em volumes, filetes e florões, todas aquelas formas com que ele sonhava sem poder tocar”.

Em seguida, Lucio, a seu modo irônico (e às vezes rude), cita o professor do inconsciente:

“E embora Freud já esteja meio cacete com a sua psicanálise, a gente não pode deixar de pensar nele quando pensa nesse recalcado trágico que foi o Aleijadinho”.

Naquele 1929, Lucio ainda não tinha entendido Aleijadinho na sua genial inteireza, menos ainda naquilo de arquitetônico que havia nele. Mais tarde, reconheceria que estava errado. Porém, mesmo considerando que havia no texto de Lucio um equívoco de avaliação, o texto é tão bom que vale muito ser lido:

“A nossa arquitetura é robusta, forte, maciça e tudo o que ele [Aleijadinho] fez foi magro, delicado, fino, quase medalha. A nossa arquitetura é de linhas calmas, tranquilas, e tudo que ele deixou é torturado e nervoso. Tudo nela é estável, severo, simples, nada pernóstico. Nele, tudo instável, rico, complicado, e um pouco precioso. Assim toda a sua obra como que desafina de um certo modo com o resto da nossa arquitetura. É uma nota aguda numa melodia grave. Daí a dificuldade de adaptá-la, amoldá-la ao resto. Ela foge, escapa, é ela mesma. – Ele mesmo.”

Como Lucio, Aleijadinho era radicalmente autoral, até porque não havia outro modo de ser quem ele era. E embora identificasse a “monumental grandeza” de suas obras, Lucio tinha por ele certo menosprezo – é ele mesmo quem diz.

Lá no final dos anos 1940, Lucio já reconhece que a igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto, aquela de fachada em curva, é uma “obra-prima” da arquitetura. A esse tempo, os estudos do Patrimônio vão colocando Antônio Francisco Lisboa “na verdadeira dimensão da portentosa e imortal grandeza de seu gênio”, escreveu um Lucio já refeito de seus erros.

A essa altura, já estudara tanto a obra de Antônio Francisco Lisboa que, quando alguém encontrava uma peça perdida, perguntava ao doutor Lucio: “É de Aleijadinho?”. E ele respondia baseado em evidências plásticas, e era a palavra final.

Em seus dois últimos anos de vida, imobilizado num estrado de madeira, Aleijadinho teve sempre diante de si uma imagem de Jesus Cristo feita por ele. Lucio acredita piamente que foi a imagem que ilustra essa crônica.

* Este texto representa as opiniões e ideias do autor.

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