
Claudia MeirelesColunas

Prisão de Andrew ressalta diferenças entre ele e o irmão, Edward
Envolvido em escândalos sexuais, Andrew viu sua imagem pública ruir — enquanto o irmão, Edward, manteve uma trajetória discreta
atualizado
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O contraste entre irmãos que crescem na mesma família, compartilham sobrenome, educação e oportunidades, mas seguem caminhos radicalmente diferentes, sempre desperta perplexidade pública. O caso do príncipe Andrew, filho da rainha Elizabeth II e irmão do rei Charles III, reacendeu esse debate. Envolvido em escândalos sexuais e financeiros ao longo dos últimos anos, ele viu sua imagem pública ruir — enquanto o irmão mais novo, príncipe Edward, manteve uma trajetória discreta e distante de controvérsias.
A pergunta que emerge vai além da realeza. O historiador e professor brasileiro Leandro Karnal retratou bem o questionamento: “O que explica galhos com frutos distintos nascidos no mesmo tronco?” em uma postagem no Instagram.
Caráter depende apenas de educação? Privilégio determina ética? Ou há fatores mais complexos na formação da personalidade? A psicologia oferece algumas chaves para compreender essas diferenças.

Pais iguais, momentos diferentes
De acordo com a psicóloga Candice Galvão, irmãos não são criados exatamente pelos “mesmos pais” — ainda que biologicamente o sejam. Cada filho encontra adultos em momentos distintos da vida.
“Pais mudam ao longo do tempo. Eles atravessam fases de maior ou menor maturidade emocional, estabilidade conjugal, pressões sociais, lutos, conquistas ou cansaço. Tudo isso impacta a forma como oferecem cuidado, afeto e limites”, explica.
O primogênito pode nascer em um período de maior rigidez ou idealização. Já o caçula pode encontrar pais mais experientes, porém mais permissivos ou mais exaustos. Essas diferenças, ainda que sutis, moldam experiências emocionais distintas e deixam marcas profundas na constituição psíquica.
Temperamento: o que cada filho traz ao mundo
Outro ponto central é o temperamento. Cada criança nasce com predisposições próprias — maior impulsividade, sensibilidade, necessidade de aprovação ou tendência ao confronto.
“O ambiente não age sozinho. Existe uma interação constante entre o temperamento da criança e o contexto emocional oferecido pela família. É dessa combinação que surge a singularidade de cada trajetória.”
Assim, dois irmãos podem reagir de forma oposta ao mesmo modelo de educação: um pode se adaptar às regras; outro pode construir sua identidade justamente na oposição a elas.
O peso do lugar simbólico na família
A posição que cada filho ocupa não é apenas cronológica — é simbólica. O primogênito, muitas vezes, carrega projeções, expectativas e uma cobrança precoce de responsabilidade. Pode desenvolver traços de controle, busca por reconhecimento ou necessidade de corresponder.
Já filhos mais novos podem assumir o papel de mediadores, rebeldes ou aqueles que precisam “se diferenciar” para existir dentro do sistema familiar.
“Na vida adulta, essas posições internalizadas podem se traduzir em escolhas mais conservadoras ou mais transgressoras, dependendo da função que o sujeito aprendeu a ocupar.”

Privilégio, poder e limites
Quando a discussão envolve contextos de extremo privilégio, como o da monarquia britânica, outro fator entra em cena: a relação com limites.
Segundo a especialista, ambientes em que erros raramente geram consequências concretas podem comprometer a internalização da chamada “lei simbólica”, conceito que se refere à construção interna de noções de responsabilidade, empatia e alteridade.
“Se o sujeito cresce em um ambiente em que a frustração é constantemente evitada e os limites externos são frágeis, pode desenvolver sentimentos de onipotência e impulsividade. Sem contenção emocional consistente, o desejo corre o risco de não encontrar freio ético.”
Isso não significa que privilégio produza necessariamente desvios de caráter, mas indica que ausência de limites e responsabilização pode favorecer condutas de risco.
A ilusão da “mesma educação”
É comum ouvir que irmãos “receberam a mesma educação”. No entanto, a psicologia diferencia educação formal de experiência emocional.
Regras, valores e oportunidades podem ser idênticos no discurso. Mas a vivência subjetiva — sentir-se validado, comparado, invisibilizado ou excessivamente cobrado — varia profundamente.
“O que estrutura a psique não é apenas o que foi ensinado, mas o que foi sentido. A forma como a criança se percebe dentro da família influencia autoestima, autorregulação emocional e relação com limites.”
Quando um membro transgride, a família inteira é afetada
Escândalos ou condutas destrutivas não impactam apenas o indivíduo. A família funciona como um sistema interligado. Quando um membro rompe expectativas sociais ou morais, todos são atravessados pela quebra da imagem idealizada.
Vergonha, culpa, ambivalência afetiva e conflitos entre proteger ou responsabilizar são reações frequentes. Em contextos públicos, como o da família real britânica, esse impacto é amplificado pela exposição midiática.
A situação reabre uma pergunta que ecoa em muitos lares, ainda que longe dos holofotes: por que filhos criados no mesmo ambiente podem se tornar adultos tão diferentes?
A resposta, segundo a psicóloga Candice, exige abandonar explicações simplistas:
“Irmãos não são criados pela mesma família: são criados por pais em momentos diferentes da vida. É no encontro — ou na falta dele — entre afeto, limites e responsabilidade que cada sujeito constrói seu modo singular de existir. Quando ignoramos essa complexidade, caímos na ilusão de que caráter é apenas fruto de educação ou privilégio.”
No fim, o “tronco” pode ser o mesmo. Mas cada galho cresce em direção própria — influenciado pelos ventos do contexto, pela força do temperamento e pelos limites encontrados no caminho.
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