Claudia Meireles

Nova obra de Armarinhos Teixeira recria a vida na Terra pós-desastres

O curta-documentário Recordário de Adão será apresentado na abertura do DW! Tour Brasília na próxima terça-feira (9/9), no Casapark

atualizado

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@armarinhosteixeira/Instagram/Reprodução
artista Armarinhos Teixeira
1 de 1 artista Armarinhos Teixeira - Foto: @armarinhosteixeira/Instagram/Reprodução

Se todo planeta corresponde a um grande corpo celeste que orbita uma estrela, Armarinhos Teixeira é um artista planetário, como gosta de se definir, que gira na esfera de ação da Terra. Ou seja, é a partir do substrato do mundo que vivemos que ele constrói sua poética artística. A natureza, ou o que fazemos dela, e a ascensão industrial, passando por uma possível regeneração do meio ambiente e dos recursos naturais são grandes fontes de criação para o artista. 

Na próxima terça-feira (9/9), às 10h, Armarinhos apresenta seu mais recente trabalho, o curta-documentário Recordário de Adão: qual é a nova natureza?, na abertura do DW! Tour Brasília, um dos maiores festivais de design da América Latina – e que chega à capital federal pela primeira vez no Casapark. Para participar, basta se inscrever neste link

“É um trabalho de quase 20 anos”, resume o artista em entrevista à coluna Claudia Meireles. Nascido em São Paulo, Armarinhos cresceu na região Centro-Oeste, já que a mãe é do interior de Goiás, sempre em contato com os diversos biomas brasileiros. Desde 1990, ele estuda a morfologia das coisas, que estão entre a cidade, a mata e as áreas áridas.

Seus trabalhos, desenhos, esculturas, instalações e outras mídias de caráter orgânico e natural, estabelecem diálogos entre a ascensão industrial, a conservação ambiental e as primeiras formas de vida biológica, combinando tecnologia sintética e matérias biológicas. 

exposição de Armarinhos Teixeira no Museu Nacional da República
Em 2019, Armarinhos Teixeira apresentou uma exposição individual no Museu Nacional da República

Escultura biológica

Recordário de Adão corresponde, então, a uma escultura biológica de energia viva, que foi instalada no Jardim Botânico de Rostock em parceria com a Kunsthalle Rostock, na Alemanha, e que foi criada para ser o descendente da árvore numa transição pós-natureza, habitando o bioma desértico. Na abertura da DW! Tour Brasília, além da exibição do curta, Armarinhos participa de um talk, com mediação de Mauricio Lima, sobre sua trajetória nas artes visuais e as relações entre arte e ciência, meio-ambiente e a arte como forma de repensar a vida no planeta Terra.

De acordo com o artista, a ideia do material é despertar reflexões, principalmente, sobre o “clarão da existência e a impermanência dos territórios”. “Clarão no sentido de entender o que coexiste entre nós. Temos o quintal amazônico aos nossos pés, mas não nos damos conta no dia a dia do quanto o desperdiçamos”, afirma. “Estamos no quintal do Éden, a última área terrestre de abundância da fauna e flora”, acrescenta. 

Para Armarinhos, as pessoas ainda não compreenderam que o primeiro dormitório, a primeira casa, é o próprio planeta Terra. “A segunda é aquela que te cobre da chuva”, acrescenta. Somos, como diz o artista, a biologia mais acelerada do planeta, seres impermanentes, explosivos, temos facilidade para a guerra e a destruição. “Nossa cultura deixou de lado a partilha para focar na própria existência”, pontua. 

Recordário de Adão de Armarinhos Teixeira

Feito em 3D, o curta apresenta uma “escultura biológica”, uma estrutura metálica em aço inox que cria uma espécie de estação biológica com funções celulares e biológicas de uma árvore, garantindo a constituição de um ecossistema próprio e reativo ao meio ambiente de cada local instalado. “É uma forma de ver aquilo que é bem possível que vai ocupar o nosso futuro”, descreve o artista. 

Armarinhos detalha que não optou por usar um corpo de árvore para não ser emblemático, mas, querendo ou não, leva o público a refletir sobre um certo “conforto” oferecido por essa escultura biológica a essas áreas destruídas.

“É um ensaio para o espectador começar a aceitar que ele já é um destruidor. É uma máquina do tempo, uma prova de que o homem, na sua aceleração de progresso, traiu a natureza e nos colocou uma estrutura metálica para coexistir nas suas antecipações de destruição”. 

Essa traição teria inspirado, segundo o artista, o nome do trabalho. “Pensando na discussão do primeiro jardim. Adão recebeu do criador o primeiro jardim dado a um humano. E a ideia disso é como se fosse o diário dele”, explica. 

Recordário de Adão de Armarinhos Teixeira

Um dos principais expoentes da bioarte no Brasil

Ao combinar arte, biologia, ecologia e tecnologia, Recordário de Adão, bem como as demais obras de Armarinhos, oferece uma possibilidade de entender a chegada da humanidade em uma nova era, na qual a relação entre o ser humano e o meio ambiente está sendo reconfigurada e redefinida. “A natureza é o monumento, o monumento não é o humano”, afirma. 

Em sua poética, o artista busca encontrar e propor respostas que não se baseiam em um “alerta de cuidado”. 

“Em toda discussão que temos sobre situações climáticas, sobre desmatamento, inundações, queimadas, meio ambiente, sustentabilidade, ecossistema, a maioria não transita em uma resposta mais exata. A maioria aponta para uma região de alerta. Não foi criado até agora nenhum tipo de proposta ou objeto que fizesse a transição desses colapsos que temos no planeta”, comenta. 
Obra de Armarinhos Teixeira
Trabalho escultórico de Armarinhos Teixeira

Como um artista planetário, que orbita entre a tecnologia e a natureza, Armarinhos se apresenta como um dos mais importantes expoentes da chamada bioarte. Os dois universos podem parecer distantes e até incompatíveis, já que a linguagem artística nasce da criatividade, de pensamentos abstratos e de um conjunto aparentemente aberto de regras, enquanto a ciência é uma prática enraizada em leis de lógica, fatos e estrutura. 

Contudo, o artista encontra em seus trabalhos o ponto comum e de equilíbrio entre esses dois “planetas”. “Dentro das discussões de bioarte, procuro uma colaboração plástica com funções científicas que colaborem com o meio ambiente. Nesse exato momento, a bioarte não está preocupada com o encantamento verde, mas em propor um plano de soluções para o plano terrestre”, esclarece.

Armarinhos compreende o mundo vivo, ambientalmente sustentável e potencialmente regenerativo. Enquanto artista planetário, colabora com todos os territórios – tendo como ponto de partida seu ateliê. Dali, ele orbita o planeta Terra com um olhar adiante, propondo em seus trabalhos uma vida pós-desastres. “O maior lugar do mundo é o meu ateliê/estúdio. Daqui aguardo o próximo clarão”, escreve o artista nas redes sociais.

Brasília, capital do design!

Depois de promover 14 edições em mais de 10 cidades do Brasil, um dos maiores festivais de design da América Latina, que começou em São Paulo em 2012, desembarca na capital federal.

A programação do DW! Tour Brasília inclui mostras de design, talks com arquitetos, designers, artistas e criativos, exibições de arte e circuito gastronômico.

Com entrada gratuita, o evento ocorre de 9 a 13 de setembro, no Casapark. Além de Armarinhos Teixeira, nomes importantes no cenário nacional estão confirmados. Entre eles, Marcelo Rosenbaum, Jader Almeida, Celso Rayol, Rodrigo Ohtake e Sanagê.

Para saber mais, siga o perfil de Vida&Estilo no Instagram.

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