
Claudia MeirelesColunas

Médicos esclarecem se o uso de anticoncepcional piora a enxaqueca
A enxaqueca não tem cura definitiva, mas existem diversas opções de tratamento para melhorar a qualidade de vida dos pacientes
atualizado
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A enxaqueca é uma doença neurológica crônica que acomete mais de 32 milhões de brasileiros, segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ela é caracterizada por dores de cabeça intensas, pulsáteis e recorrentes, geralmente em um lado da cabeça e associadas a outros sintomas, como náuseas, vômitos, sensibilidade à luz (fotofobia) e ao som (fonofobia).
Em conversa com a coluna, o médico Diogo Haddad, chefe do Centro de Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, explica que, em alguns casos, os pacientes com enxaqueca apresentam aura, sintomas neurológicos transitórios, como visão embaçada ou luzes brilhantes antes da dor começar.
“Infelizmente, a doença não tem cura definitiva, mas a boa notícia é que existem diversas opções de tratamento para controlar os sintomas, reduzir a frequência das crises e melhorar a qualidade de vida dos pacientes”, diz o especialista, acrescentando que, com acompanhamento médico, muitas pessoas conseguem excelentes resultados e levam uma vida praticamente normal.
Causas e tratamentos
De acordo com o profissional, a causa da enxaqueca ainda não é completamente compreendida. Sabe-se que há um componente genético e neurológico. “Ou seja, pessoas com histórico familiar de enxaqueca têm maior chance de desenvolver a doença”, esclarece.

“A dor surge devido a uma hiperatividade no cérebro, que desregula conexões entre os nervos, vasos sanguíneos e neurotransmissores. Fatores desencadeantes, como estresse ou alimentação inadequada, costumam ativar esse mecanismo”, pontua.
Já os tratamentos são divididos em duas categorias: o das crises e o preventivo. O primeiro, conforme descreve o médico, tem como objetivo aliviar a dor quando ela já começou. “Para isso, utilizamos medicamentos como analgésicos comuns, anti-inflamatórios e triptanos (medicações específicas para enxaqueca)”, conta.
O segundo, por sua vez, destina-se às circunstâncias em que as crises se tornam frequentes ou incapacitantes, havendo a necessidade de se iniciar o uso contínuo de fármacos para prevenir a dor. Antidepressivos (amitriptilina), anticonvulsivantes (topiramato) e bloqueadores beta-adrenérgicos (propranolol) são exemplos mais comuns.

Diogo Haddad complementa que terapias modernas, como os bloqueadores de CGRP (Calcitonin Gene-Related Peptide), têm revolucionado o tratamento da enxaqueca. “Além disso, mudanças no estilo de vida são fundamentais na prevenção e controle da doença”, frisa.
Fatores que pioram a enxaqueca
Para o especialista, existem diversos fatores desencadeantes ou agravantes do quadro, mas isso depende de cada indivíduo.
Entre os mais comuns, estão:
- Estresse: situações de pressão emocional ou sobrecarga aumentam as crises;
- Alterações hormonais: especialmente em mulheres, as oscilações hormonais durante o ciclo menstrual, gravidez ou menopausa podem piorar os sintomas;
- Alimentação inadequada: o consumo de alimentos como chocolate, queijos envelhecidos, embutidos e cafeína em excesso pode desencadear crises;
- Privação ou excesso de sono: um padrão de sono irregular é um fator comumente relacionado à piora da enxaqueca;
- Mudanças climáticas: variações bruscas de temperatura, umidade e pressão atmosférica podem precipitar as dores;
- Estímulos sensoriais: luzes muito fortes, barulho excessivo ou cheiros fortes (perfumes, fumaça de cigarro) são comuns em episódios de enxaqueca.
Afinal, o anticoncepcional é capaz de piorar a enxaqueca?
Segundo o profissional, sim, especialmente em mulheres que já têm histórico da doença. “O estrogênio, um dos hormônios presentes em muitos anticoncepcionais, pode impactar no cérebro de formas positivas ou negativas, dependendo da sensibilidade individual”, argumenta.

“Anticoncepcionais que contêm estrogênio podem piorar a enxaqueca com aura, porque são capazes de aumentar o risco de alterações na circulação cerebral, como vasodilatação que precede a dor”, afirma.
Já nas mulheres com enxaqueca sem aura, o efeito pode variar. “Em algumas, o controle hormonal proporcionado pelo anticoncepcional alivia as crises, enquanto em outras pode agravá-las devido às oscilações iniciais dessa substância”, ressalta Diogo.
“É importante lembrar que mulheres que têm enxaqueca com aura têm um risco mais alto de acidente vascular cerebral (AVC), especialmente se fumam ou usam anticoncepcionais com estrogênio. Nesses casos, é contraindicado o uso de pílulas combinadas. Esses casos devem ser abordados por um neurologista e o ginecologista para indicar opções mais seguras, como anticoncepcionais apenas com progesterona ou o uso de dispositivos intrauterinos (DIU)”, observa.
De acordo com a ginecologista Graziela Canheo, especialista em reprodução humana, na enxaqueca sem aura, caso a variação hormonal seja um possível gatilho para as crises, o anticoncepcional contínuo pode ajudar no controle dos sintomas. “Já os anticoncepcionais cíclicos, por permitirem a variação hormonal, podem aumentar as crises”, salienta.

A médica reforça que pacientes que têm enxaqueca com aura, em específico, não devem fazer uso de anticoncepcionais combinados (aqueles com estrogênio), pois há uma chance maior de se ter acidente vascular cerebral devido ao aumento do risco de trombose. “No entanto, podem fazer uso de anticoncepcionais apenas com progestágenos ou sem hormônios”, alega.
Já o uso correto das medicações preventivas, a alimentação saudável, a ingesta adequada de líquido, a prática de atividades físicas, noites bem dormidas, acupunturas e massagens são hábitos aliados para quem sofre da doença, conforme lista Graziela.
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