Médica aponta as consequências de ignorar a intolerância à lactose
A gastroenterologista Maria Júlia Colossi explica a intolerância à lactose, condição que é uma "desordem no funcionamento do intestino"

Algumas pessoas com intolerância à lactose não resistem a um brigadeiro, sorvete ou bolo com calda cremosa. Quando se deparam com as delícias, a única opção que passa pela mente é comê-las mesmo sabendo dos efeitos intestinais. Entretanto, não respeitar o quadro tende a gerar consequências. A gastroenterologista Maria Júlia Colossi explica a condição e os resultados de ignorar essa “desordem no funcionamento do intestino”.
Mestra pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), a médica esclarece que essa intolerância alimentar é uma condição caracterizada por sintomas como dor abdominal, distensão (inchaço), borborigmos (ruídos), flatulência e diarreia induzidos pela ingestão de lactose, presente em produtos lácteos. Menos frequentemente, o quadro pode apresentar náuseas, constipação, dores de cabeça, perda de concentração e dores musculares ou articulares.
A especialista pondera que a intolerância à lactose acontece mais frequentemente por má absorção, ou seja, uma falha no processamento, mais precisamente na digestão desse carboidrato, que é um tipo de açúcar e depende da enzima lactase para ser absorvido pelo corpo.
“É importante aqui reconhecer que a intolerância à lactose é uma desordem do funcionamento do intestino, que impacta na qualidade de vida, sim, mas que não tem capacidade de inflamar o órgão ou de causar consequências graves, como câncer ou doenças inflamatórias intestinais”, avisa a gastroenterologista.

Ignorar a intolerância à lactose
Segundo Maria Júlia, quando essa intolerância alimentar não é respeitada, a lactose que não foi absorvida permanece no trato intestinal, desencadeando dois processos biológicos principais:
- Primeiro: ocorre um aumento da carga osmótica, o que atrai mais água para dentro do intestino e, consequentemente, acelera o tempo de trânsito intestinal e ocasiona diarreia.
- Segundo: essa lactose residual é rapidamente fermentada pela microbiota (bactérias) presente no cólon e resulta na produção de ácidos graxos de cadeia curta, além de grandes quantidades de gases, distendendo o intestino e sendo responsáveis por gerar dor, inchaço e flatulência.

Diferenças de condições
Membro titular da Federação Brasileira de Gastroenterologia (FBG), a médica pontua sobre quase 60% da população mundial ter uma diminuição geneticamente programada da produção de lactase, quadro chamado de intolerância primária.
“O mecanismo biológico funciona da seguinte forma: durante a amamentação, a capacidade de digerir lactose é essencial para a saúde do bebê e a expressão da lactase atinge o pico no nascimento. No entanto, após os primeiros meses de vida, ocorre uma regulação natural e normal do organismo (maturação) que diminui progressivamente a expressão da lactase, fazendo com que seus níveis se tornem quase indetectáveis na fase adulta”, ressalta a especialista.

Maria Júlia complementa que as pessoas “ficam com intolerância à lactose” porque a redução da enzima é o processo evolutivo normal da maioria dos seres humanos adultos.
De acordo com a gastroenterologista, deve-se diferenciar a intolerância primária de outro fenômeno que envolve a lactose, frequentemente ocorrido em momentos de infecções gastrointestinais, doenças inflamatórias intestinais ou até cirurgias abdominais.
“Nesses casos, diferentemente da intolerância primária, a atividade da lactase está reduzida ou prejudicada por fatores externos que agridem o organismo. Se esses quadros forem resolvidos, por exemplo, passada a fase aguda de uma infecção gastrointestinal, a função pode voltar ao normal gradativamente”, sustenta.

Maior risco
Na avaliação da médica, o maior risco a longo prazo de ignorar a intolerância à lactose está relacionado à restrição total de laticínios, e não no consumo. “Dietas totalmente livres de lácteos são motivo de preocupação, pois esses alimentos são a principal fonte de cálcio. A falta de reposição adequada do mineral proveniente de outras fontes pode comprometer a saúde nutricional e ser um fator para desencadear a osteoporose com o passar do tempo”, reforça.
A gastroenterologista endossa que o consumo regular de lactose a longo prazo não agrava a condição ou causa danos estruturais aos órgãos. “Pelo contrário, embora a ingestão desse tipo de açúcar não aumente a produção da enzima lactase, a tolerância aos sintomas pode ser induzida pela adaptação da flora intestinal”, pontua Maria Júlia.
“As fontes destacam que a maioria das pessoas sem persistência da lactase consegue tolerar pequenas quantidades (menos de 12 gramas, o equivalente a um copo de leite), especialmente se distribuídas ao longo do dia ou combinadas com outros alimentos”, menciona a médica. Ela reitera sobre não cortar o leite, derivados ou outros grupos alimentares sem investigação adequada. “A restrição dietética grave tende a afetar negativamente a qualidade de vida do paciente e ser fator de risco adicional para disbiose”, conclui.

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