
Claudia MeirelesColunas

Masturbação afeta a saúde dos rins? Entenda a relação
Mito persiste há décadas, mas a ciência diz o contrário. Estudos mostram que masturbar-se não prejudica os rins, e pode até ajudar o órgão
atualizado
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Durante décadas, a ideia de que masturbação faria mal aos rins circulou entre gerações como um alerta de saúde — muitas vezes repetido por familiares, escolas e até discursos “pseudomédicos”. Com o avanço da ciência, porém, essa crença vem sendo sistematicamente desmentida por estudos modernos, que mostram não apenas a ausência de prejuízos renais como também um possível efeito fisiológico ainda em investigação científica.
Segundo o urologista Thiago Bruno, essa associação negativa nunca teve respaldo médico.
“Esse mito tem raízes históricas e culturais, não científicas. Em culturas antigas, o sêmen era visto como uma substância vital cuja perda causaria enfraquecimento do corpo. Os rins eram associados simbolicamente à energia sexual, o que levou à falsa ideia de que masturbação sobrecarregaria ou enfraqueceria esses órgãos. A medicina moderna já descartou completamente essa associação”, explica.

De onde veio a crença que atravessou gerações
A origem da ideia de que masturbação prejudica os rins está ligada a sistemas tradicionais de saúde, como interpretações da Medicina Tradicional Chinesa, que relacionavam os rins ao armazenamento da energia vital e da força sexual. A ejaculação frequente era vista como uma espécie de “drenagem” dessa energia, capaz de causar fadiga, doenças e perda de vitalidade.
Com o desenvolvimento da medicina baseada em evidências, essas teorias simbólicas não se sustentaram. Nenhum estudo clínico moderno encontrou relação entre masturbação e falência renal, inflamação dos rins ou qualquer prejuízo estrutural do sistema urinário.
“Do ponto de vista médico, não existe absolutamente nenhuma evidência de que masturbação prejudique a função renal. Em pessoas saudáveis, trata-se de uma prática fisiológica normal”, reforça Thiago Bruno.
O que a ciência realmente comprova
As pesquisas disponíveis mostram de forma consistente que masturbação não causa:
- Insuficiência renal;
- Doenças dos rins;
- Dor renal crônica;
- Prejuízo metabólico.

Outro argumento comum — o de que o corpo perderia nutrientes importantes com a ejaculação — também não resiste aos dados científicos. Uma revisão publicada em 2013 apontou que cada ejaculação contém cerca de 0,25 grama de proteína, uma quantidade extremamente pequena, facilmente reposta por meio da alimentação cotidiana.
“A perda de líquidos e nutrientes é irrelevante do ponto de vista clínico. O organismo repõe isso naturalmente. Não há impacto mensurável, mesmo em ejaculações frequentes”, esclarece o urologista.
Um efeito inesperado: masturbação e pedras nos rins
Embora não cause danos, um conjunto pequeno de estudos chamou atenção por sugerir algo curioso: a ejaculação frequente pode ajudar na eliminação espontânea de pequenos cálculos renais quando associada ao tratamento padrão.
Em uma dessas pesquisas, pacientes que ejaculavam de três a quatro vezes por semana apresentaram taxas de expulsão de pedras semelhantes às de quem utilizava tamsulosina — medicamento que relaxa o trato urinário para facilitar a saída dos cálculos.
A explicação teórica envolve contrações musculares involuntárias durante o orgasmo e alterações temporárias no tônus do sistema urinário.
“Durante o orgasmo, há liberação de neurotransmissores e mudanças transitórias que, teoricamente, poderiam facilitar a progressão de cálculos muito pequenos que já estão em deslocamento”, afirma o urologista.
Ainda assim, o especialista faz um alerta importante: “Se houver algum efeito, ele se restringe a cálculos menores que 5 milímetros. Pedras maiores não se beneficiam disso”.

Por que isso não virou tratamento médico
Apesar do interesse científico, sexo ou masturbação não fazem parte das diretrizes médicas para tratamento de cálculos renais.
“Para um tratamento ser oficialmente recomendado, ele precisa de estudos robustos, controlados e reprodutíveis, comprovando eficácia e segurança. Isso ainda não existe nesse caso”, explica o urologista.
A prevenção e o tratamento continuam baseados em medidas consolidadas como:
- Hidratação adequada ao longo do dia;
- Alimentação com controle de sal e proteínas;
- Avaliação metabólica em quem já teve pedras;
- Acompanhamento urológico quando necessário.
Essas estratégias têm respaldo científico consistente.
Dor nas costas após masturbação
Outra dúvida comum é o desconforto lombar após atividade sexual ou masturbação. Na maioria dos casos, a causa é muscular e não renal.
“Normalmente, é dor postural ou tensão muscular. Dor renal verdadeira costuma ser intensa, em cólica, irradiando para o abdome ou virilha, muitas vezes acompanhada de náusea ou alteração urinária”, esclarece o especialista.
Compressas quentes e repouso costumam resolver dores musculares. Já sintomas como febre, ardência ao urinar ou sangue na urina exigem avaliação médica.

Mitos que ainda cercam sexualidade e saúde
Além da relação com os rins, outros mitos seguem populares, como a ideia de que ejaculação frequente causa impotência, infertilidade ou prejudica órgãos como próstata e coração em pessoas saudáveis.
“A maioria desses mitos nasce de tabus culturais e da desinformação, não de ciência”, afirma Thiago Bruno.
A masturbação é uma prática normal, segura e sem impacto negativo comprovado sobre os rins. A ciência moderna não apenas derruba os mitos antigos como também segue investigando de forma responsável possíveis efeitos fisiológicos curiosos — sempre com cautela e base em evidências.
Quando há sintomas persistentes como dor forte na lombar, alterações na urina ou febre, o problema não está na masturbação, mas provavelmente em alguma condição do sistema urinário que requer avaliação médica.
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