
Claudia MeirelesColunas

Fanatismo masculino é paixão, mas o feminino é exagero e futilidade?
Enquanto paixões masculinas são celebradas, os interesses femininos ainda enfrentam o rótulo da futilidade e o peso da desigualdade
atualizado
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Convém prestar atenção: futilidade não é sobre o objeto, mas sobre quem gosta dele. Enquanto hobbies masculinos são celebrados, interesses femininos seguem desvalorizados.
Quando falamos sobre o que é considerado sério, importante ou culturalmente relevante, a sociedade raramente está avaliando o interesse em si, mas, na maioria dos casos, quem está por trás dele. Futebol, quadrinhos, automobilismo, tecnologia e filmes de super-heróis são hobbies amplamente associados ao universo masculino. Por isso, são legitimados como interesse profundo, identitário e até intelectual.

Já paixões marcadas como femininas, como fandoms musicais, moda, literatura romântica, estética ou skincare, são frequentemente taxadas de “fúteis”, “exageradas” ou “sem profundidade”. A diferença não está na intensidade da paixão, mas no valor simbólico atribuído a ela.
“Esse fenômeno é uma manifestação de estereótipos de gênero que permeiam a sociedade. Essas ideias moldam a autoimagem de homens e mulheres e essa dinâmica prejudica a expressão de interesses diversos.’”, explica a psicóloga Cibele Santos.
Esse é um dos pilares invisíveis da desigualdade de gênero na cultura. Quando eles são fãs, é paixão. Quando elas são fãs, é histeria.
Na cultura pop, a figura da “fangirl” é um alvo constante de piadas. Meninas chorando em shows, colecionando fotos, criando fanfics ou se mobilizando para votar em prêmios online são descritas como emocionais demais, iludidas ou incapazes de “separar a fantasia da realidade”.
Mas o problema é anterior: sociedades ocidentais tomaram o homem como medida de referência. Logo, seus interesses passaram a ser tratados como sérios e universais, enquanto tudo que foge desse padrão é infantilizado ou ridicularizado. A desqualificação não é acidental: ela sustenta uma ordem onde o masculino é o centro e o feminino, margem.

As mesmas emoções, dois pesos e duas medidas
Se um homem chora por seu time, ele é exaltado por sua entrega. Se uma mulher chora ao ver seu artista favorito, é diminuída. E essa diferença de leitura permanece mesmo quando falamos do mesmo objeto, como o futebol.
Torcidas organizadas são frequentemente marcadas por agressividade: brigas em estádios, vandalismo, ameaças e rivalidades violentas. Mesmo assim, o amor pelo futebol permanece socialmente legitimado.

Já mulheres que demonstram a mesma intensidade de interesse pelo esporte são questionadas:
“Você sabe mesmo as regras?”, “Fala aí a escalação, então.”, “Tá querendo chamar atenção?”, “Explica o que é impedimento.”
Ou seja: não é a intensidade que incomoda. É o fato de ser uma mulher sentindo intensamente.

Fangirls não são superficiais — são estrategistas culturais
Ao contrário da ideia de que fandom feminino é desorganizado ou emocional demais, pesquisas mostram o oposto.
Comunidades de fãs majoritariamente femininas criam modelos de viralização digital, organizam mutirões internacionais, transformam amor em mobilização política e filantrópica, desenvolvem habilidades de comunicação, design, edição e gestão, e têm impacto relevante na economia.
O que está em disputa é o direito de sentir sem pedir desculpas
Deixar meninas e mulheres gostarem do que gostam parece simples, mas é profundamente político.
“Essa dicotomia não apenas revela a desigualdade entre os gêneros, mas também questiona quem determina o que é digno de atenção e respeito”, explica Cibele Santos.
O debate sobre futilidade, portanto, não diz respeito ao objeto de interesse, mas ao valor social atribuído a quem gosta dele. Quando paixões femininas são sistematicamente deslegitimadas, reforça-se a ideia de que experiências e referências culturais das mulheres têm menor importância na construção da vida pública. A questão não é sobre gostar de futebol, música pop, livros românticos ou tecnologia, e sim sobre quais interesses são autorizados a ocupar espaço. Discutir o rótulo de “fútil” é discutir reconhecimento, participação e poder simbólico na cultura.

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