Yasmin Rajab 29/09/2025 06:00
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Dirigir cultura no Distrito Federal vai muito além de organizar eventos. É mediar sonhos e orçamentos, disputar espaços de decisão, negociar recursos e, muitas vezes, driblar a escassez estrutural de investimentos — tudo isso sem perder de vista a missão de ampliar o acesso às artes e fortalecer a cena local.

Nesse percurso, as mulheres ocupam posições estratégicas e imprimem novas formas de gestão, que abrem caminho para transformações importantes. Os desafios ainda são muitos, mas é certo que a presença feminina cria ambientes mais plurais e inclusivos.

Ruskaya Zanini administra um grupo de samba formado exclusivamente por mulheres. Sara Rocha conduz o Cine Brasília, equilibrando política pública e programação de qualidade. Amanda Bittar levou o festival Favela Sounds para fora do país. Juliana Jacinto fez da formação em administração o ponto de partida para comandar um dos maiores eventos da América Latina, o Capital Moto Week.

“A participação feminina na liderança de projetos culturais tem crescido significativamente. No entanto, a quantidade de mulheres em cargos de liderança ainda é menor do que a de homens. Essa é uma realidade que a gente pretende mudar”
Juliana Solidade

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Diferenças
na prática

Dados do Sistema de Informações e Indicadores Culturais (SIIC) 2011-2022 mostram que, embora as mulheres representem uma fatia expressiva do setor cultural, ainda enfrentam desigualdade em relação aos homens.

Em 2022, elas respondiam por quase metade dos trabalhadores assalariados, mas recebiam, em média, 23% a menos. A disparidade se manteve ao longo da última década: apesar de a participação feminina ter crescido, a valorização financeira não acompanhou o avanço.

As diferenças também aparecem em relação aos campos disponíveis. Enquanto elas se concentram em áreas ligadas à formação, à literatura e às artes visuais, os homens dominam as mídias audiovisuais e os bastidores técnicos.

Divulgação
Imagem Grupo Elas que Toquem explora arranjos, timbres e ritmos que refletem a experiência feminina no samba
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Driblando
obstáculos

Desde a criação do grupo de samba Elas que Toquem, em 2020, Ruskaya Zanini enfrenta desafios que vão além do palco. A banda, composta exclusivamente por mulheres, sempre gerou olhares desconfiados e comparações constantes com grupos formados por homens.

Nesse contexto, a estratégia adotada por Ruskaya foi investir na própria identidade musical: explorar arranjos, timbres e ritmos que refletissem a experiência feminina na música popular. “A mulher tem o próprio estilo de tocar, sem precisar disputar território com ninguém”, defende.

“Nós enfrentamos a barreira do preconceito. Precisamos cavar espaço, sem ter vergonha na cara. Somos muito boas nisso, inclusive.”
Ruskaya Zanini
Hugo Barreto/Metrópoles Imagem Responsável por fechar os contratos do grupo, Ruskaya Zanini também opina no repertório musical
Hugo Barreto/Metrópoles Imagem Responsável por fechar os contratos do grupo, Ruskaya Zanini também opina no repertório musical
Hugo Barreto/Metrópoles Imagem Responsável por fechar os contratos do grupo, Ruskaya Zanini também opina no repertório musical
Hugo Barreto/Metrópoles Imagem Responsável por fechar os contratos do grupo, Ruskaya Zanini também opina no repertório musical
Hugo Barreto/Metrópoles Imagem Responsável por fechar os contratos do grupo, Ruskaya Zanini também opina no repertório musical

Além de representar o Elas que Toquem em entrevistas, Ruskaya participa da definição do repertório musical, é responsável pelos contratos do grupo e colabora com a organização dos shows.

Sara Rocha se encarrega da curadoria, da gestão de equipe e das demandas administrativas de um dos equipamentos culturais mais emblemáticos da capital: o Cine Brasília. Mesmo cumprindo a função com competência, não passou ilesa pelos desafios impostos às mulheres no mercado de trabalho.

“Ser mulher no Brasil e no mundo é um desafio em si e inclui características como sensibilidade, olhar integrado e preocupação com as pessoas que trabalham com a gente. É também um desafio de autoridade, de compreensão de lugar de liderança e de chefia”, aponta Sara.
Sara Rocha

Sara relata que assumir um posto de destaque, como o atual, exige esforço redobrado. “São, de fato, muitos desafios. É preciso muito mais trabalho para conseguir se fazer respeitar ao liderar projetos importantes”, afirma.

Breno Esaki/Metrópoles Imagem Sara Rocha é responsável por um dos principais equipamentos culturais da cidade: o Cine Brasília
Breno Esaki/Metrópoles Imagem Sara Rocha é responsável por um dos principais equipamentos culturais da cidade: o Cine Brasília
Breno Esaki/Metrópoles Imagem Sara Rocha é responsável por um dos principais equipamentos culturais da cidade: o Cine Brasília
Breno Esaki/Metrópoles Imagem Sara Rocha é responsável por um dos principais equipamentos culturais da cidade: o Cine Brasília
Breno Esaki/Metrópoles Imagem Sara Rocha é responsável por um dos principais equipamentos culturais da cidade: o Cine Brasília

O Cine Brasília recebe mais de 100 mil espectadores por ano e oferece programação diversa: exibições de filmes nacionais e internacionais, sessões infantis, projetos educativos em parceria com escolas públicas, mostras e o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Em 2025, ano em que completa 60 anos, o Festival exibiu O Agente Secreto, esgotou ingressos para as sessões e confirmou sua posição de influência no circuito nacional de cinema — Sara acompanhou tudo de perto, como uma das anfitriãs.

No restante do ano, iniciativas como o Cine Expansão levam sessões a outras regiões administrativas, ampliando o acesso à cultura fora do Plano Piloto. Para Sara, liderar um espaço público envolve atenção constante às pessoas.

“Nosso papel é ser uma janela de exibição para o cinema independente nacional e internacional, mas sobretudo nacional. O Cine Brasília é a casa do cinema brasileiro.”
Sara Rocha

O trabalho é árduo, mas Sara faz questão de ressaltar que o esforço é recompensado quando a sala de cinema está cheia. “Ficamos muito felizes em ver o cinema pulsante, com a capacidade de atrair públicos e virar um ponto de referência de cultura e entretenimento na cidade”, destaca.

Imagem O diretor Kleber Mendonça Filho e a atriz Maria Fernanda Cândido apresentaram o longa-metragem O Agente Secreto no Festival de Brasília do Cinema Brasileiro deste ano
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De Brasília
para o mundo

Amanda Bittar conheceu o sócio Guilherme Tavares na Universidade de Brasília (UnB). Juntos, os dois começaram a planejar o Favela Sounds, em 2012, dentro da instituição de ensino. A primeira edição do festival saiu em 2016 e ele cresceu rapidamente, conquistou projeção nacional e, recentemente, internacional.

Em 2024, o Favela Sounds levou a música brasileira para o festival Nyege Nyege, em Jinja, Uganda. “Criamos um momento Brasil dentro do evento e mostramos que nossa produção cultural tem alcance global”, diz Amanda.

Formada em comunicação e com MBA em gestão administrativa, Amanda cuida da direção geral e artística do festival, bem como da comunicação, da administração de finanças e do planejamento estratégico.

“As duas formações se complementam de uma maneira que me deram estofo suficiente para encarar a produção de um festival do porte do Favela Sounds e toda a gestão do evento. Hoje, nossa agência, que produz o festival, também é responsável tanto pela direção geral e artística quanto por toda a comunicação e a parte administrativa e financeira.”
Amanda Bittar
Vinícius Schmidt/Metrópoles Imagem Co-criadora do Favela Sounds, Amanda Bittar celebra a expansão do festival
Vinícius Schmidt/Metrópoles Imagem Co-criadora do Favela Sounds, Amanda Bittar celebra a expansão do festival
Vinícius Schmidt/Metrópoles Imagem Co-criadora do Favela Sounds, Amanda Bittar celebra a expansão do festival
Vinícius Schmidt/Metrópoles Imagem Co-criadora do Favela Sounds, Amanda Bittar celebra a expansão do festival
Vinícius Schmidt/Metrópoles Imagem Co-criadora do Favela Sounds, Amanda Bittar celebra a expansão do festival

Amanda destaca que as habilidades adquiridas durante a graduação permitiram que ela fizesse uma gestão integrada do Favela Sounds. O curso a ajudou a ter uma visão completa do projeto, garantindo que ele seja pensado, executado e direcionado para impactar o público e gerar efeito social.

No entanto, apesar da capacidade e da experiência acumulada, ela ainda enfrenta preconceitos por ser mulher. “Muitas vezes, mesmo que eu seja a diretora-geral, as pessoas se dirigem apenas ao meu sócio”, conta.

Divulgação
Imagem Criado em 2016, festival está consolidado no calendário da capital
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Cenário
desafiador

Uma pesquisa do IBGE divulgada em 2024, com dados de 2022, aponta a área cultural como um dos setores com grande presença feminina. No entanto, mesmo nessas atividades com forte participação das mulheres, os salários ainda ficam abaixo dos valores pagos aos homens.

Fonte: Observatório Itaú Cultural, dezembro de 2022. Imagem Imagem Imagem Imagem Imagem Imagem Imagem Imagem

Entre os terceiros trimestres de 2021 e 2022, houve um aumento de 9% nos postos de trabalho na economia criativa.

Na composição segundo raça/cor, a maior parte dos trabalhadores se autodeclararam brancos, seguidos de pardos, pretos e mais grupos.

Em relação ao perfil dos trabalhadores da economia criativa, destaca-se uma maior participação masculina.

Além disso, as diferenças de remuneração média também marcam o setor: mulheres pretas ganham cerca de 70% a menos que homens brancos.

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Caminhos para
transformação

Segundo Viviane Pinto, fundadora da plataforma Lab Criação, a desigualdade de gênero está entre os principais problemas do mundo, ao lado das mudanças climáticas e da pobreza.

Hugo Barreto / Metrópoles
Imagem Viviane Pinto defende estratégias de fomento para aumentar participação feminina na gestão cultural

No campo cultural, ela destaca um conjunto de obstáculos que impactam diretamente a vida profissional das mulheres: instabilidade econômica, informalidade, precarização das relações de trabalho, desigualdades salariais e dificuldade de acesso a fontes de financiamento.

Viviane explica que, para fortalecer o protagonismo das mulheres e a participação delas na economia criativa, é fundamental adotar ações de fomento.

“É preciso ter políticas públicas, programas, projetos, instituições com ações concretas voltadas para o desenvolvimento das condições de vida e de trabalho das mulheres. No setor cultural, as mulheres precisam ter acesso a recursos e a fontes de financiamento específicas para desenvolver produções artísticas.”
Viviane Pinto

Como membro da Comissão Especial ADM Mulher, Juliana Solidade atua para ampliar a presença feminina nas carreiras de administração. O grupo promove debates sobre valorização, reconhecimento e maior participação feminina em cargos de liderança para incentivar a capacitação e o profissionalismo.

“O sistema tem buscado enaltecer a mulher profissional de administração. Em congressos e encontros realizados pela comissão, é notada a participação ativa do público feminino, o que gera maior senso de pertencimento e mostra como a mulher se destaca em diversas áreas”, afirma.

Hugo Barreto / Metrópoles
Imagem Juliana Solidade ressalta a importância dos conhecimentos de administração para a gestão de eventos culturais

Formada em administração de empresas, Solidade reitera a importância da graduação: “Sempre digo que a administração te ensina a gerir não só um negócio, mas também a própria vida. A metodologia PODC (planejar, organizar, dirigir e controlar), que aprendemos nos primeiros contatos com o curso, traz conceitos valiosos para formar o administrador - que, então, passa a pensar sempre no planejamento, na organização, no controle e na direção de tudo aquilo que está sob sua responsabilidade”.

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Destaque na
América Latina

Juliana Jacinto também celebra a profissão de administradora. Ela conta que a graduação foi essencial para assumir a gestão do Capital Moto Week, considerado o maior festival de motociclistas da América Latina.

Durante a faculdade, Juliana conciliava os estudos com a rotina da empresa. “Fiz a graduação pela manhã e, durante a tarde, aplicava o que aprendi. Para mim, administração é conseguir planejar e organizar o que você vai executar de forma cada vez mais clara e com informações concretas e precisas, para melhorar as decisões e fazer as melhores escolhas.”

Desde 2009, enfrenta o desafio de ocupar um cargo de liderança em um espaço historicamente dominado por homens. Ela lembra que, nas primeiras edições do Capital Moto Week, 98% do público era masculino.

Luís Nova/Metrópoles Imagem CEO do Capital Moto Week, Juliana Jacinto criou estratégias para ampliar a presença do público feminino no evento
Luís Nova/Metrópoles Imagem CEO do Capital Moto Week, Juliana Jacinto criou estratégias para ampliar a presença do público feminino no evento
Luís Nova/Metrópoles Imagem CEO do Capital Moto Week, Juliana Jacinto criou estratégias para ampliar a presença do público feminino no evento
Luís Nova/Metrópoles Imagem CEO do Capital Moto Week, Juliana Jacinto criou estratégias para ampliar a presença do público feminino no evento
Luís Nova/Metrópoles Imagem CEO do Capital Moto Week, Juliana Jacinto criou estratégias para ampliar a presença do público feminino no evento

Para incentivar a adesão de mulheres ao evento, Juliana criou o Lady Bikers. A iniciativa reúne shows e palestras sobre bem-estar e empreendedorismo feminino. “Entendi que não bastava apenas abrir portas, também era preciso criar ambientes seguros e acolhedores para elas”, avalia.

Para lidar com o machismo ainda presente no ambiente de trabalho, Juliana e o sócio criaram uma estratégia de gestão compartilhada: “As tarefas que estão sob o guarda-chuva do Pedro [Franco] ficam com a decisão final dele. Já nas que estão sob o meu guarda-chuva, eu tomo a decisão final”.

Divulgação
Imagem Capital Moto Week atrai público de vários estados brasileiros para o DF
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Liderança
inspiradora

Ruskaya, Sara, Amanda e Juliana seguem abrindo caminhos e conquistando espaços de liderança no cenário cultural. A trajetória delas mostra que, quando as mulheres assumem o comando, a cultura não apenas floresce — ela se reinventa, se fortalece e abre portas para um futuro mais diverso, justo e plural.

  • CEO Lilian Tahan
  • DIRETOR DE REDAÇÃO Otto Valle
  • EDITORA-CHEFE Márcia Delgado
  • DIRETORA DE OPERAÇÕES E INOVAÇÃO Olívia Meireles
  • COORDENAÇÃO Érica Montenegro
  • EDIÇÃO Beatriz Queiroz Ranyelle Andrade
  • REPORTAGEM Yasmin Rajab
  • FOTOGRAFIA Breno Esaki Hugo Barreto Luís Nova Vinícius Schmidt
  • EDIÇÃO DE FOTOGRAFIA Daniel Ferreira Michael Melo
  • REVISÃO Juliana Garcês
  • DIRETOR DE ARTE Gui Prímola
  • DESIGN Carla Sena
  • CAPTAÇÃO DE IMAGENS Giuliano Gazzoni Natália Jaguaribe Guilherme Guimarães
  • VÍDEO Lucas Akasaki Brenno Alves Rebeca Hadassa Blandu Correia
  • COORDENAÇÃO DE VÍDEO Gabriel Foster Leonardo Hladczuk Mark Vales
  • TECNOLOGIA Italo Ridney Saulo Marques Alvino Rodrigues