
Claudia MeirelesColunas

Em meio à guerra no Irã, poesia persa exalta sabedoria e humanidade
A obra dos poetas persas Omar Khayyam e Rumi atravessa séculos como símbolo de humanidade e revela a força cultural do Oriente Médio
atualizado
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Enquanto o Oriente Médio volta ao centro do noticiário internacional em razão da escalada militar envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos — com ataques, retaliações e a ampliação do conflito para territórios vizinhos — cresce a apreensão global diante das consequências humanitárias e geopolíticas da guerra. Mas reduzir a região apenas à lógica da violência é ignorar uma herança cultural que moldou parte essencial da ciência, da filosofia e da espiritualidade mundial.
Muito antes das fronteiras contemporâneas, a antiga Pérsia foi um dos grandes polos de produção intelectual da humanidade. Foi nesse ambiente que surgiram dois dos mais influentes pensadores da tradição persa: Omar Khayyam e Jalal ad-Din Muhammad Rumi.

Separados por quase dois séculos, eles representam dois caminhos distintos diante das mesmas inquietações humanas: o da razão crítica e o da experiência mística.
Omar Khayyam, um sábio do século XI
Nascido em 1048, em Nishapur — cidade que hoje pertence ao Irã — Omar Khayyam viveu durante o Império Seljúcida, período de grande florescimento intelectual no mundo islâmico. Seu sobrenome, “Khayyam”, significa “fabricante de tendas”, possivelmente uma referência à profissão de sua família.
Desde jovem demonstrou talento extraordinário para as ciências exatas. Em uma época em que o mundo islâmico preservava e ampliava o legado grego, persa e indiano, Omar destacou-se como matemático, astrônomo e filósofo.

Revolução na matemática
Sua obra mais importante na matemática foi o tratado sobre álgebra no qual classificou sistematicamente as equações cúbicas. Ele identificou 14 tipos diferentes e apresentou soluções geométricas utilizando interseções de parábolas, circunferências e outras seções cônicas.
Embora não tenha desenvolvido uma fórmula algébrica geral, algo que só surgiria séculos depois na Europa, sua metodologia representou um salto conceitual impressionante para o século XI.
Além disso, escreveu comentários críticos sobre os Elementos de Euclides, propondo reflexões sobre postulados geométricos e antecipando discussões que seriam centrais na matemática moderna.
Astronomia e o Calendário Jalali
Convidado pelo sultão Malik-Shah, Khayyam liderou uma comissão de astrônomos encarregada de reformar o calendário persa. O resultado foi o Calendário Jalali, implementado em 1079.
Sua precisão no cálculo do ano solar era extraordinária. Estimativas modernas indicam que o erro acumulado ao longo de milênios seria menor do que o do calendário gregoriano, adotado no Ocidente apenas no século XVI.
Esse feito consolidou sua reputação como um dos maiores cientistas de sua época.
A poesia que atravessou o mundo
Apesar do prestígio científico, foi a poesia que eternizou seu nome fora do Oriente Médio.
Os Rubaiyat são quartetos poéticos atribuídos a Khayyam que circularam em manuscritos persas durante séculos. Porém, foi a tradução livre do escritor inglês Edward FitzGerald, publicada em 1859, que transformou a obra em fenômeno cultural na Europa vitoriana.
A versão inglesa, embora não literal, capturou o espírito filosófico dos versos e popularizou uma imagem de Khayyam como poeta hedonista e cético.

Filosofia do instante
Nos Rubaiyat, a vida aparece como breve e enigmática. O tempo é implacável; o destino indecifrável. O vinho surge como símbolo central, podendo representar tanto o prazer terreno quanto uma metáfora para êxtase espiritual ou liberdade interior.
Alguns estudiosos interpretam seus versos como questionamentos à rigidez religiosa; outros os veem como expressões místicas codificadas. A ambiguidade é parte de sua força.
Em essência, Khayyam insiste na consciência da finitude: o ser humano não controla o passado nem o futuro. O único domínio possível é o instante presente.
Rumi: a arquitetura poética do amor divino
Enquanto Khayyam viveu no auge do Império Seljúcida, Rumi nasceu em um período de grandes turbulências. Em 1207, no território que hoje corresponde ao Afeganistão, veio ao mundo Jalal ad-Din Muhammad Rumi.
Sua família fugiu das invasões mongóis e estabeleceu-se em Konya, cidade que hoje integra a Turquia. Esse deslocamento marcou sua formação intelectual e espiritual.
Rumi recebeu educação sólida em teologia, direito islâmico e filosofia. Tornou-se jurista respeitado e líder religioso.

O encontro que mudou tudo
Em 1244, sua vida sofreu uma transformação radical ao conhecer Shams de Tabriz, um dervixe errante de personalidade intensa e visão espiritual profunda.
O encontro entre os dois foi descrito como uma explosão mística. Shams desafiou o erudito a abandonar o apego ao conhecimento puramente formal e mergulhar na experiência direta do divino.
A amizade provocou escândalo entre discípulos e familiares. Quando Shams desapareceu, Rumi mergulhou em luto devastador. Dessa dor nasceu uma das produções poéticas mais intensas da história.
O Masnavi: um oceano espiritual
A obra-prima de Rumi é o Masnavi, poema extenso em seis volumes composto por cerca de 25 mil versos. Frequentemente chamado de “Alcorão em persa”, o texto combina histórias, parábolas, humor e ensinamentos espirituais.
Rumi utiliza narrativas aparentemente simples para abordar temas profundos: ego, desapego, compaixão, busca pela verdade e união com o divino.
Sua linguagem é simbólica, mas acessível. Ele fala de feridas que se tornam luz, da dor como portal de transformação e da necessidade de transcender dualidades.
Obras e rodopios
Outra obra essencial é o Divan-e Shams-e Tabrizi, coletânea lírica dedicada ao amigo desaparecido. Nela, a poesia é mais intensa e impactante.
O amor descrito não é apenas humano. É amor cósmico, força que move os astros e conecta todas as criaturas.
Os ensinamentos de Rumi deram origem à ordem sufi Mevlevi. Seus membros tornaram-se conhecidos pela dança ritual — o giro contínuo que simboliza o movimento do universo e a busca de união com Deus.
O gesto de rodopiar representa abandono do ego e entrega ao absoluto.
Rumi tornou-se, séculos depois, um dos poetas mais lidos no Ocidente contemporâneo. Suas frases circulam em livros de espiritualidade, redes sociais e estudos acadêmicos.

Dois olhares sobre o mesmo mistério
Omar e Rumi não poderiam ser mais diferentes em tom, mas dialogam no essencial.
Khayyam olha para o céu como astrônomo e para a vida como filósofo cético. Rumi olha para dentro como místico e para o universo como manifestação do amor divino.
Um questiona o sentido do destino. O outro dissolve o destino no amor.
Ambos viveram em contextos de instabilidade política. Ambos testemunharam impérios e conflitos. E ambos responderam com produção intelectual de altíssimo nível.
A herança que resiste
Em meio às atuais tensões no Oriente Médio, recordar Khayyam e Rumi é também ampliar o olhar histórico. A mesma região que hoje enfrenta confrontos militares foi responsável por avanços científicos, sistemas calendáricos sofisticados, tratados matemáticos inovadores e uma das mais profundas tradições poéticas do mundo.
Guerras passam. Impérios mudam. Fronteiras se redesenham. Mas os versos permanecem.
E talvez, em tempos de incerteza, a lição mais poderosa desses dois sábios persas seja esta: diante da transitoriedade, seja ela pessoal ou histórica, a consciência, o amor e a busca por sentido continuam sendo as formas mais duradouras de resistência humana.

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