Claudia Meireles

Caso Paris Hilton: como adaptar a rotina para conviver melhor com o TDAH

Estratégias de organização e rotina adaptada ajudam a reduzir distrações e a aliviar o cotidiano de quem convive com TDAH

atualizado

metropoles.com

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Jacob Wackerhausen/ Getty Images
Mulher em frente ao computador com um brinquedo pop-up - Metrópoles
1 de 1 Mulher em frente ao computador com um brinquedo pop-up - Metrópoles - Foto: Jacob Wackerhausen/ Getty Images

Paris Hilton voltou a falar abertamente sobre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e revelou como adaptou a própria casa e o ambiente de trabalho para tornar a rotina mais funcional. Em entrevista à People, a empresária afirmou que hoje enxerga o diagnóstico não como algo a ser “corrigido”, mas como uma característica que faz parte da sua identidade, criatividade e forma de pensar.

Segundo Paris, essa mudança de perspectiva veio com o tempo. Diagnosticada na faixa dos 20 anos, ela passou anos tentando mascarar comportamentos que hoje reconhece como parte da neurodivergência. Agora, diz enxergar o TDAH como um tipo de “superpoder” — desde que existam estratégias para lidar com os desafios do dia a dia.

paris hilton na passarela - metrópoles
Paris Hilton fala abertamente sobre TDAH

Casa pensada para o cérebro funcionar melhor

Um dos pontos centrais da entrevista é o olhar para o ambiente doméstico. Em vez de focar apenas em sintomas, Paris mostrou como organizou os espaços da casa para que trabalhem a favor — e não contra — seu funcionamento.

A proposta faz parte da série Inclusive by Design, em que apresenta adaptações voltadas à neurodiversidade em ambientes como closet, quarto, escritório e cozinha.

Entre as soluções adotadas estão gavetas transparentes, etiquetas visíveis, organização visual e objetos sempre à vista. Essas são estratégias que, segundo ela, ajudam especialmente na memória e no foco. A lógica passa pelo conceito de “permanência do objeto”: quando algo não está visível, tende a ser esquecido.

Ela também adaptou o escritório com móveis mais confortáveis e que permitem maior mobilidade.

“Quando o ambiente respeita suas necessidades, fica mais fácil se concentrar, relaxar e produzir”, resume.

Ilustração que representa TDAH - Psiquiatras explicam os principais sintomas de TDAH em adultos - Metrópoles
Estudos indicam maior prevalência de TDAH em homens do que mulheres
Em fundo neutro, Paris Hilton apoiada no chão. Ela usa macacão amarelo com detalhes em preto e bota amarela gigante - Metrópoles
Paris Hilton

O papel do ambiente na rotina

A experiência relatada por Paris reflete uma discussão cada vez mais presente: o impacto do ambiente na forma como o TDAH se manifesta.

Segundo o psicólogo clínico e pesquisador em neurociência Stefano Kanace, o transtorno está menos ligado à falta de atenção e mais à dificuldade de regulá-la.

“Quando a pessoa está em um ambiente com muitos estímulos, o cérebro precisa gastar mais energia filtrando o que é relevante. Isso faz com que o ambiente tenha um peso maior do que teria para alguém neurotípico”, explica.

Na prática, notificações constantes, televisão ligada e excesso de objetos no campo de visão podem fragmentar a atenção. Já ambientes mais previsíveis e com menos estímulos ajudam a reduzir a sobrecarga e favorecem o foco.

Defina lugares fixos para objetos para evitar a perda de tempo e energia procurando por eles

Organização visual como aliada

Estratégias como objetos à vista, etiquetas e organização visual podem funcionar como “extensões externas” da memória.

“Pessoas com TDAH tendem a ter limitações na memória de trabalho. Quando a informação está visível, ela deixa de depender exclusivamente desse sistema”, afirma Kanace.

Um exemplo simples é deixar um remédio ao lado da escova de dentes para facilitar a lembrança. Ainda assim, o especialista faz um alerta: o excesso pode atrapalhar.

“A chave é criar destaque, não acumulação”, diz.

Associar coisas que não podem ser esquecidas a hábitos concretos pode facilitar a rotina

Pequenas mudanças, grandes impactos

Na prática clínica, algumas adaptações costumam fazer diferença significativa:

  • Ambientes com menos estímulos visuais e auditivos.
  • Divisão de tarefas em etapas menores.
  • Rotinas estruturadas, sem rigidez excessiva.
  • Criação de “atalhos” no ambiente.

Deixar a garrafa de água visível ou separar a roupa da academia com antecedência são exemplos de estratégias que reduzem o esforço mental necessário para iniciar tarefas.

“A lógica é diminuir a carga cognitiva. Quanto menos esforço para começar, maiores as chances de continuidade”, resume.

Para quem convive com o TDAH, a organização do ambiente e da rotina não é apenas uma questão de disciplina, mas uma necessidade para reduzir a sobrecarga mental e o estresse

Sobrecarga e “travamento”

A relação entre bagunça, excesso de estímulos e sobrecarga é direta no TDAH. Isso acontece porque o cérebro tem mais dificuldade em filtrar informações sensoriais.

“O que para uma pessoa pode ser apenas um pouco de bagunça, para outra vira um bombardeio de informações”, explica.

Esse excesso pode levar ao chamado “travamento” — quando a pessoa não consegue iniciar ou manter uma tarefa, não por falta de esforço, mas por sobrecarga cognitiva.

Sinais que passam despercebidos

No adulto, o TDAH nem sempre aparece como hiperatividade. Os sinais costumam ser mais sutis, como:

  • Procrastinação crônica.
  • Dificuldade de manter rotina.
  • Esquecimentos frequentes.
  • Oscilação entre hiperfoco e dispersão.
  • Sensação constante de atraso.
  • Cansaço mental desproporcional.

Muitas vezes, isso é visto como falta de disciplina, quando pode ser um funcionamento diferente”, aponta Kanace.

Um ambiente físico menos estimulante ajuda a manter o foco no que realmente importa

“Não é algo que precisa ser consertado”

Em outra entrevista recente, Paris reforçou a importância de um olhar menos negativo sobre o TDAH. Para ela, entender que os cérebros funcionam de maneiras diferentes é um passo importante para reduzir o estigma.

A empresária também destaca o papel de estruturas simples no dia a dia, como rotina, lembretes visuais e organização prática — recursos que ajudam a tornar a rotina mais previsível e funcional.

Hoje mãe de dois filhos, ela afirma que o autoconhecimento também influencia a forma como enxerga a maternidade. A ideia é criar um ambiente em que as diferenças sejam acolhidas, não corrigidas.

Quando buscar ajuda

As dificuldades deixam de ser pontuais quando se repetem em diferentes áreas da vida e passam a gerar prejuízos reais.

“Se impacta desempenho, autoestima ou relações, não deve ser tratado como falta de esforço”, afirma o psicólogo.

Outro sinal de alerta é a dificuldade em manter estratégias ao longo do tempo. Nesses casos, a avaliação profissional ajuda a diferenciar o que é circunstancial do que pode ser um quadro clínico — e a construir caminhos mais eficazes de manejo.

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