
Claudia MeirelesColunas

Caso Paris Hilton: como adaptar a rotina para conviver melhor com o TDAH
Estratégias de organização e rotina adaptada ajudam a reduzir distrações e a aliviar o cotidiano de quem convive com TDAH
atualizado
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Paris Hilton voltou a falar abertamente sobre o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH) e revelou como adaptou a própria casa e o ambiente de trabalho para tornar a rotina mais funcional. Em entrevista à People, a empresária afirmou que hoje enxerga o diagnóstico não como algo a ser “corrigido”, mas como uma característica que faz parte da sua identidade, criatividade e forma de pensar.
Segundo Paris, essa mudança de perspectiva veio com o tempo. Diagnosticada na faixa dos 20 anos, ela passou anos tentando mascarar comportamentos que hoje reconhece como parte da neurodivergência. Agora, diz enxergar o TDAH como um tipo de “superpoder” — desde que existam estratégias para lidar com os desafios do dia a dia.

Casa pensada para o cérebro funcionar melhor
Um dos pontos centrais da entrevista é o olhar para o ambiente doméstico. Em vez de focar apenas em sintomas, Paris mostrou como organizou os espaços da casa para que trabalhem a favor — e não contra — seu funcionamento.
A proposta faz parte da série Inclusive by Design, em que apresenta adaptações voltadas à neurodiversidade em ambientes como closet, quarto, escritório e cozinha.
Entre as soluções adotadas estão gavetas transparentes, etiquetas visíveis, organização visual e objetos sempre à vista. Essas são estratégias que, segundo ela, ajudam especialmente na memória e no foco. A lógica passa pelo conceito de “permanência do objeto”: quando algo não está visível, tende a ser esquecido.
Ela também adaptou o escritório com móveis mais confortáveis e que permitem maior mobilidade.
“Quando o ambiente respeita suas necessidades, fica mais fácil se concentrar, relaxar e produzir”, resume.


O papel do ambiente na rotina
A experiência relatada por Paris reflete uma discussão cada vez mais presente: o impacto do ambiente na forma como o TDAH se manifesta.
Segundo o psicólogo clínico e pesquisador em neurociência Stefano Kanace, o transtorno está menos ligado à falta de atenção e mais à dificuldade de regulá-la.
“Quando a pessoa está em um ambiente com muitos estímulos, o cérebro precisa gastar mais energia filtrando o que é relevante. Isso faz com que o ambiente tenha um peso maior do que teria para alguém neurotípico”, explica.
Na prática, notificações constantes, televisão ligada e excesso de objetos no campo de visão podem fragmentar a atenção. Já ambientes mais previsíveis e com menos estímulos ajudam a reduzir a sobrecarga e favorecem o foco.

Organização visual como aliada
Estratégias como objetos à vista, etiquetas e organização visual podem funcionar como “extensões externas” da memória.
“Pessoas com TDAH tendem a ter limitações na memória de trabalho. Quando a informação está visível, ela deixa de depender exclusivamente desse sistema”, afirma Kanace.
Um exemplo simples é deixar um remédio ao lado da escova de dentes para facilitar a lembrança. Ainda assim, o especialista faz um alerta: o excesso pode atrapalhar.
“A chave é criar destaque, não acumulação”, diz.

Pequenas mudanças, grandes impactos
Na prática clínica, algumas adaptações costumam fazer diferença significativa:
- Ambientes com menos estímulos visuais e auditivos.
- Divisão de tarefas em etapas menores.
- Rotinas estruturadas, sem rigidez excessiva.
- Criação de “atalhos” no ambiente.
Deixar a garrafa de água visível ou separar a roupa da academia com antecedência são exemplos de estratégias que reduzem o esforço mental necessário para iniciar tarefas.
“A lógica é diminuir a carga cognitiva. Quanto menos esforço para começar, maiores as chances de continuidade”, resume.

Sobrecarga e “travamento”
A relação entre bagunça, excesso de estímulos e sobrecarga é direta no TDAH. Isso acontece porque o cérebro tem mais dificuldade em filtrar informações sensoriais.
“O que para uma pessoa pode ser apenas um pouco de bagunça, para outra vira um bombardeio de informações”, explica.
Esse excesso pode levar ao chamado “travamento” — quando a pessoa não consegue iniciar ou manter uma tarefa, não por falta de esforço, mas por sobrecarga cognitiva.
Sinais que passam despercebidos
No adulto, o TDAH nem sempre aparece como hiperatividade. Os sinais costumam ser mais sutis, como:
- Procrastinação crônica.
- Dificuldade de manter rotina.
- Esquecimentos frequentes.
- Oscilação entre hiperfoco e dispersão.
- Sensação constante de atraso.
- Cansaço mental desproporcional.
“Muitas vezes, isso é visto como falta de disciplina, quando pode ser um funcionamento diferente”, aponta Kanace.

“Não é algo que precisa ser consertado”
Em outra entrevista recente, Paris reforçou a importância de um olhar menos negativo sobre o TDAH. Para ela, entender que os cérebros funcionam de maneiras diferentes é um passo importante para reduzir o estigma.
A empresária também destaca o papel de estruturas simples no dia a dia, como rotina, lembretes visuais e organização prática — recursos que ajudam a tornar a rotina mais previsível e funcional.
Hoje mãe de dois filhos, ela afirma que o autoconhecimento também influencia a forma como enxerga a maternidade. A ideia é criar um ambiente em que as diferenças sejam acolhidas, não corrigidas.
Quando buscar ajuda
As dificuldades deixam de ser pontuais quando se repetem em diferentes áreas da vida e passam a gerar prejuízos reais.
“Se impacta desempenho, autoestima ou relações, não deve ser tratado como falta de esforço”, afirma o psicólogo.
Outro sinal de alerta é a dificuldade em manter estratégias ao longo do tempo. Nesses casos, a avaliação profissional ajuda a diferenciar o que é circunstancial do que pode ser um quadro clínico — e a construir caminhos mais eficazes de manejo.
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