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Brasília 66 anos: histórias de quem chegou e adotou a cidade como casa
Brasília celebra 66 anos nesta terça-feira (21/4). A coluna entrevistou mulheres icônicas, que relembram a sensação de chegar à cidade
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Brasília celebra 66 anos nesta terça-feira (21/4). Projetada por Oscar Niemeyer e Lucio Costa, a capital federal reúne pessoas dos quatro cantos do Brasil e do mundo. Segundo estimativas mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade tem 2,9 milhões de habitantes. Esse número abrange brasilienses, candangos, pioneiros e quem adotou o Quadradinho do Distrito Federal como lar.
A coluna Claudia Meireles conversou com mulheres que vieram jovens para Brasília e se deixaram conquistar pela “aniversariante do dia” desde o primeiro instante em que desembarcaram na cidade.
Confira!
“Aqui é meu paraíso”
“Sou grata a essa cidade que amo tanto”, destaca Ana Maria Gontijo. Natural de Lavras (MG), ela mudou-se para Brasília em 1964 com a família. “Meu pai era dentista e veio para cá incentivado por Cleo Pereira, também dentista e entusiasmado com a nova capital”, recorda.

O motivo principal para a mudança da família esteve relacionada ao desejo do irmão de Ana Maria em cursar medicina na Universidade de Brasília (UnB). “Fomos morar na 311 Sul, em um período de grandes mudanças e adaptações. Tudo deu certo”, garante. Ao chegar, ficou impressionada com o espaço, a imensidão da cidade e a iluminação feérica das avenidas e eixos à noite.
“Tinha também muita poeira que formavam uns redemoinhos nas quadras ainda sem urbanização”, detalha.
Ana Maria compartilha o que a fez adotar a capital federal como casa: “As pessoas maravilhosas que vieram de todos os lugares do Brasil. Formamos uma grande família”. Ela acrescenta: “Amo essa cidade também pela oportunidade que temos de crescer, de sempre aprender algo novo, pela parte cultural e pela qualidade de vida, não existe melhor em nenhum lugar do mundo.”

“Meu lugar”
Natural de Rio Verde (GO), Moema Leão casou-se jovem e, em seguida, mudou-se para Goiânia em razão do ex-marido trabalhar na Encol, empresa de construção que estava começando a operar na cidade. Tempos depois, a companhia atuou na edificação da capital federal, motivo para a empresária vir para Brasília com os filhos “ainda pequenos”.
Quando chegou em Brasília, Moema olhou pela enorme janela do apartamento, de númeri 111. “Vi o Planalto imenso, sem nada barrando a vista”, rememora. Ao ver a paisagem, ela se sentiu deslumbrada e “liberta” por ter sido “uma garota muito controlada pelos pais”. “O horizonte infinito me fez sentir que esse era o meu lugar”, diz.

Desde a chegada na cidade até a atualidade, Moema Leão se declara encantada pela capital aniversariante do dia: “Faz 55 anos que moro aqui, e me sinto abraçada pela arquitetura de Oscar Niemeyer. A cidade é como um museu a céu aberto, e eu sou apaixonada pelas suas obras e pelo traço de Lucio Costa”. Ela admite “amar a sensação” de viver em um lugar amplo, rodeado de árvores e flores.
“Sinto-me bem e feliz aqui. Brasília realmente se tornou minha casa, e a sua beleza me fascina a cada dia”, salienta a empresária.

“Paixão que começou antes da inauguração”
O projeto do presidente Juscelino Kubitschek de transferir a capital federal para o centro do território brasileiro foi vendido como um sonho — e, antes mesmo de sua inauguração, em 21 de abril de 1960, muitos brasileiros já demonstravam entusiasmo pela ideia de começar uma vida nova no Distrito Federal.
Entre os jovens que ansiavam com as oportunidades na nova capital, Mércia Crema, natural de Goiânia (GO), foi uma das que fincaram raízes e colheram frutos em uma terra que, antes, só fazia parte de seu imaginário.
“Minha paixão por Brasília começou muito antes da sua inauguração. À época, meu avô, minha mãe e minha irmã mais nova se mudaram de Goiânia para cá. Eu estava louca para vir, mas não tinha lugar no carro”, comenta Mércia Crema.

Antes de se instalar de vez, a empresária — pioneira de Brasília nos setores de turismo e hotelaria — lembra que se encantava com a cidade a cada visita à família.
“Na minha pré-adolescência, eu e meu grupo de amigas vínhamos passar os finais de semana na nova capital. A mistura de sotaques, a beleza arquitetônica e a diversidade de pensamentos — que eu não via em Goiânia — me encantavam.”

Foi apenas aos 23 anos que Mércia pôde realizar seu desejo de se mudar para Brasília. “Eu cursava letras na Universidade Federal de Goiás (UFG). Assim que me formei , fiz concurso na Fundação Educacional de Brasília e comecei a trabalhar aqui. Entre idas e vindas, estou na cidade em definitivo desde 1974”, conta Mércia Crema.
De lá para cá, a certeza de que Brasília era seu lar só se fortaleceu. “Eu amo de paixão. Até da seca eu gosto”, brinca a empresária.
O fascínio é tanto que Mércia faz questão de dar uma volta pela cidade e revisitar seus pontos favoritos sempre que volta de alguma viagem. “Gosto de rever monumentos incríveis como a Catedral, o Congresso Nacional e a Esplanada dos Ministérios. São espaços repletos de vida, de passarinhos. Sinto que as portas de Brasília se abriram para novos voos”, celebra Mércia Crema.
“Amor à primeira vista?”
“Minha relação com Brasília não foi amor à primeira vista. Naturalmente, fiquei impressionada com a arquitetura e com a forma como o cerrado é parte integrante da cidade. No entanto, no início, a cidade foi um pouco desorientadora”, confessa Kristine Cardoso.

“Nós nos conhecemos em 1999, quando eu estagiava na embaixada e ele era terceiro-secretário no Itamaraty. Após 26 anos e três filhos, ele — embora seja paulistano — ajudou a acelerar o meu amor por Brasília”, brinca a embaixatriz.

A paixão por Brasília, que antes parecia distante, agora também se reflete em projetos concretos. Em março deste ano, Kristine e o grupo As Kandangas — formado por embaixatrizes e mulheres ligadas ao meio diplomático — lançaram um guia completo com sugestões e recomendações sobre a cidade, especialmente voltado para estrangeiros: o livro We Share BSB.
“Minha casa”
Antes mesmo de Brasília ser oficialmente apresentada como capital do país, Cleuza Ferreira se mudava para o quadradinho. Nascida em Campo Florido, no Triângulo Mineiro, a empresária chegou ao Planalto Central em 1958, aos 10 anos, ao lado da mãe e do irmão. Eles vieram se juntar ao pai, que havia chegado um ano antes, em 1957.

“Brasília era algo que não dava para imaginar. Nós dormíamos e acordávamos com outra cidade. A cada dia e a cada noite, tudo se transformava. Um prédio que surgia, uma casa que começava, a Praça dos Três Poderes tomando forma, um novo ministério. A sensação de futuro…”, rememora.
Entre as lembranças mais doces, ela guarda com carinho a infância vivida na capital. “O cerrado, para mim aos 10 anos, era como uma floresta, onde colhíamos caju e outras frutas típicas, como o murici. Tudo era brincadeira, uma nova descoberta.”
O amor pela cidade foi cultivado a cada ano, com as memórias, experiências e amizades que Cleuza cultivou na cidade que acolheu como lar. Foi aqui que a empresária concluiu a escola, fez a graduação e e construiu a trajetória profissional. “Tudo foi em Brasília, nunca mais saí daqui. É a cidade que escolhi para viver, trabalhar, fazer amigos. Não me vejo longe daqui. É minha casa!”, confidencia Cleuza.
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