Claudia Meireles

Au pair brasileira testemunha em julgamento de duplo homicídio nos EUA

Au pair Juliana Magalhães decidiu cooperar com a Justiça e testemunhar contra o ex-amante acusado de matar a esposa por culpa

atualizado

metropoles.com

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Juliana Peres Magalhães, a au pair brasileira no centro de um dos casos criminais mais chocantes dos Estados Unidos nos últimos anos, afirmou em tribunal que decidiu admitir sua participação e testemunhar contra o ex-amante porque era “a coisa certa a fazer”. Ela é a principal testemunha da acusação no julgamento de Brendan Banfield, acusado de assassinar a própria esposa, Christine Banfield, e um segundo homem, Joseph Ryan, em fevereiro de 2023.

Banfield responde por acusações de homicídio qualificado agravado, e se declarou inocente. A promotoria, no entanto, sustenta que ele foi o mentor de um plano elaborado para matar a esposa e simular uma invasão domiciliar, usando um falso encontro sexual como isca.

A au pair Juliana Peres Magalhães
A au pair Juliana Peres Magalhães

O olhar da psicologia

O caso envolvendo a au pair brasileira Juliana Peres Magalhães, hoje uma das principais testemunhas no julgamento de Brendan Banfield, reacende um debate importante sobre a vulnerabilidade emocional de jovens que deixam o país para trabalhar e morar dentro da casa de famílias estrangeiras.

Para a psicóloga clínica Candice Galvão, com atuação em Natal (RN), a distância da família, da cultura de origem e da rede de apoio fragiliza mecanismos fundamentais de regulação emocional, tornando essas jovens mais suscetíveis a relações de dependência e manipulação.

Segundo a especialista, a família e os vínculos afetivos funcionam como uma base de proteção psíquica. Quando essa referência é rompida, sentimentos como solidão, insegurança e medo de errar tendem a se intensificar. Nesse contexto, a jovem passa a depender mais intensamente do ambiente imediato para validação emocional, o que pode reduzir a capacidade crítica diante de situações abusivas ou de risco.

Relação secreta e acusação de premeditação

Segundo os promotores, Brendan Banfield mantinha um relacionamento extraconjugal com Juliana Peres Magalhães, uma au pair brasileira que vivia com a família Banfield na cidade de Herndon, na Virgínia. De acordo com a acusação, ele teria planejado a morte da esposa atraindo um desconhecido para dentro da casa por meio de um site fetichista.

A promotoria afirma que Banfield criou um perfil falso no FetLife.com — uma plataforma voltada a práticas BDSM — fingindo ser Christine. Por meio desse perfil, ele teria iniciado conversas com Joseph Ryan, descrevendo um encontro sexual consensual que envolvia amarrações, resistência simulada, roupas cortadas com faca e encenação de violência extrema.

Ryan acreditava estar participando de um jogo sexual previamente combinado. No entanto, segundo a acusação, o encontro fazia parte de um plano para matar Christine e atribuir a culpa ao visitante.

Brendan Banfield

Duas mortes, métodos distintos

Joseph Ryan foi morto a tiros, enquanto Christine Banfield morreu após ser esfaqueada dentro da residência do casal. As mortes ocorreram no mesmo dia, no interior da casa da família, levantando inicialmente a suspeita de um ataque externo.

Durante semanas, o caso foi tratado como um possível crime cometido por um invasor. No entanto, a ausência de sinais claros de arrombamento e contradições nos depoimentos levaram a investigação a seguir outro caminho.

Christine Banfield

“O certo a se fazer”

Juliana Peres Magalhães acabou se declarando culpada por homicídio culposo pela morte de Ryan e passou a cooperar com a promotoria. Desde o início do julgamento, que começou nesta semana, ela tem prestado depoimento contra Brendan Banfield.

Questionada em tribunal sobre o motivo de ter aceitado o acordo e decidido contar tudo, Juliana respondeu que foi movida por culpa e arrependimento.

“Eu pensei que era a coisa certa a fazer”, afirmou, segundo a CNN. “O mundo merecia saber o que realmente aconteceu e eu simplesmente não conseguia mais guardar isso comigo — o sentimento de vergonha, culpa, tristeza, tudo isso.”

Longe de casa

Outro ponto destacado pela psicóloga é o impacto do sentimento de gratidão associado à oportunidade de viver no exterior.

“A ideia de que se trata de uma grande chance pode levar à normalização de comportamentos inadequados”, afirma Candice.

O medo de perder o emprego, o visto ou de decepcionar a família faz com que muitas jovens silenciem desconfortos, relativizem invasões de limite e aceitem situações que geram sofrimento psíquico.

A especialista também chama atenção para sinais iniciais de abuso psicológico que, muitas vezes, passam despercebidos. Controle excessivo de horários e contatos, isolamento de amigos, críticas constantes, invasão de privacidade e a sensação permanente de medo ou tensão são indicativos importantes. “Quando a pessoa sente que precisa pisar em ovos o tempo todo, algo já está errado”, pontua.

De acordo com Candice Galvão, o abuso psicológico atua de forma gradual, minando a autoconfiança e dificultando pedidos de ajuda. A vítima pode passar a duvidar da própria percepção, sentir vergonha ou temer não ser acreditada, especialmente quando há dependência financeira ou questões migratórias envolvidas. Por isso, muitas demoram a denunciar ou nem sequer conseguem nomear o que estão vivendo como abuso.

“Divórcio não era uma opção”

Em depoimentos anteriores, Juliana afirmou que Brendan começou a falar em matar a esposa depois de dizer que queria “se livrar” dela. Segundo ela, quando questionado sobre a possibilidade de separação, ele teria sido categórico ao afirmar que o divórcio “não era uma opção”.

De acordo com a testemunha, Banfield alegava motivos financeiros e o desejo de não dividir a guarda da filha como razões para descartar uma separação legal, um ponto que a promotoria usa para sustentar a tese de premeditação.

Brendan e Christine com a filha

O plano

Os promotores afirmam que o plano envolvia Brendan entregar uma arma a Juliana e instruí-la a ligar para o celular de Christine assim que Ryan entrasse na casa. Em seguida, ela deveria ligar para ele, que aguardava em um McDonald’s próximo, supostamente para criar um álibi.

Juliana testemunhou que, nos dias que antecederam as mortes, Brendan mudou deliberadamente sua rotina para que não chamasse atenção o fato de estar naquele restaurante no horário do crime.

Após receber a ligação, Banfield teria dirigido de volta para casa, atirado em Ryan na cabeça e, em seguida, esfaqueado a esposa, tentando fazer parecer que Ryan havia cometido o ataque. Segundo a acusação, Juliana atirou novamente em Ryan ao perceber que ele ainda se movia.

Emocional abalado

Para a psicóloga Candice, o preparo emocional antes de aceitar programas como au pair ou trabalho doméstico no exterior é fundamental. Autonomia emocional, clareza de limites, compreensão sobre relações de poder e capacidade de dizer “não” sem culpa são fatores de proteção. Ela ressalta que a psicoterapia prévia pode ajudar a fortalecer a identidade, reduzir idealizações e ampliar a percepção de risco.

Candice Galvão conclui que viver fora do país não deve significar abrir mão da própria dignidade emocional. Manter vínculos externos, preservar uma vida social fora do ambiente de trabalho e saber onde buscar ajuda são medidas essenciais de cuidado.

“Gratidão não é dívida. Nenhuma oportunidade justifica o silenciamento, o medo ou o adoecimento emocional”, afirma.

Defesa contesta versão da acusação

Brendan Banfield se declarou inocente de todas as acusações. Seu advogado, John Carroll, afirmou em tribunal que Juliana Peres Magalhães só foi presa para ser pressionada a cooperar com a promotoria.

Segundo a defesa, a au pair foi “virada” contra o réu para reduzir sua própria responsabilidade criminal. A estratégia dos advogados é questionar a credibilidade da testemunha e apresentar o depoimento como resultado de um acordo judicial favorável.

O julgamento segue em andamento

O julgamento de Brendan Banfield começou este mês, no Condado de Fairfax, Virgínia. A seleção do júri e as primeiras sessões ocorreram a partir do dia 13. O processo está com testemunhos em curso e deve se estender por cerca de quatro semanas.

Juliana Peres Magalhães se declarou culpada por homicídio culposo em 2024 e aguarda sentença definitiva, que depende do desfecho do julgamento de Banfield. A promotoria concordou em recomendar benefícios legais em troca de sua cooperação contínua.

O julgamento segue em andamento e deve incluir novos depoimentos, análises forenses e confrontos entre acusação e defesa. O caso continua a atrair atenção por envolver traição, manipulação psicológica e o uso de um suposto jogo sexual como peça central de um plano de assassinato.

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