Inscreva-se no canal MetrópolesTV no YouTube
Andreza Matais

Táxi aéreo investigado por tráfico recebeu R$ 244 mil de campanhas

CNM Aviação recebeu quantias de campanhas em 2022. Dona é irmã de chefe do tráfico e foi denunciada por formação de quadrilha

20/06/2026 09:37
Compartilhar notícia
CNM Aviação / Instagram
Hangar da CNM Aviação

Uma empresa de táxi aéreo de Belo Horizonte (MG), investigada por envolvimento no tráfico internacional de cocaína, recebeu R$ 244 mil de campanhas eleitorais em 2022. A maior parte dos serviços foi prestada para o PSD de Minas Gerais, mas um deputado federal mineiro, Eros Biondini (PL), também contratou a empresa.

A firma chama-se CNM Aviação. Ela pertence à empresária Juliana Costa Nobre Magalhães, denunciada pelo Ministério Público Federal em 2023 por formação de quadrilha. Segundo o MPF, Juliana era “gerente-executiva” da quadrilha de Karina Campos, a “Rainha do Pó”.

Juliana foi investigada e presa preventivamente na operação Flight Level, da Polícia Federal, que apura o funcionamento de uma suposta quadrilha que enviava cocaína para a Europa. Seu irmão, Leonardo Costa Nobre, é considerado um dos líderes do grupo pelos investigadores.

Ambos trabalham, segundo os investigadores, para a traficante Karina Campos, considerada a maior exportadora de cocaína do país.

A CNM Aviação foi aberta por Juliana em 2021, pouco depois da deflagração da Flight Level. A empresa ocupa o mesmo hangar que antes era usado por uma firma de Leonardo Costa Nobre, a BHZ Táxi Aéreo. Em 2020, na gestão da BHZ, o mesmo hangar hoje ocupado pela CNM foi a origem de 175 kg de cocaína apreendidos no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa.

Na campanha de 2022, a CNM recebeu R$ 162 mil da direção estadual do PSD de Minas Gerais e mais R$ 54 mil da campanha de Alexandre Kalil ao governo de Minas pelo partido. Hoje, Kalil está no PDT.

A CNM também emitiu notas de R$ 14,7 mil para a campanha do deputado federal Eros Biondini (PL) e de R$ 14,1 mil para a filha dele, a deputada estadual e cantora gospel Chiara Biondini (PL).

Aviões não estavam registrados em nome da CNM Aviação

As notas fiscais para o PSD mencionam voos feitos com duas aeronaves: o Cessna Citation II, de prefixo PR-VIR, e o Cessna Citation VII, de marcas PR-JAP. Ambos são jatinhos de alto padrão, e o último alcança velocidades de até 890 km/h.

Apesar de ter fornecido viagens para o PSD nesses dois aparelhos, a CNM Aviação nunca foi registrada como operadora ou proprietária dos jatinhos na Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Em ambos os casos, a operadora registrada era a Heringer Táxi Aéreo Ltda., uma empresa de São Luís (MA).

No caso da campanha de Alexandre Kalil, o voo foi de Belo Horizonte (Pampulha) para Montes Claros, no Norte do estado, em 15 de setembro de 2022. No dia seguinte, 16 de setembro, a aeronave fez o trajeto de volta, de Montes Claros para a capital mineira.

Os dois aeroportos estão a 349 km de distância um do outro, em linha reta. No entanto, o PSD pagou por 1.200 km voados, como mínimo contratual, atingindo o valor de R$ 54 mil.

Em outra nota fiscal, o PSD pagou R$ 108 mil por dois voos: um “bate-volta” de Belo Horizonte a Montes Claros, em 5 de setembro de 2022, e outro entre o aeroporto da Pampulha, em BH, e o município de Guapé (MG), em 11 de setembro. Juntos, os dois trajetos somam 1.168 km em linha reta.

Mas, conforme consta na nota fiscal, o mínimo a ser cobrado era de 1.200 km por decolagem. Ou seja, o partido pagou efetivamente por 2.400 km, embora tenha voado menos da metade disso no total: 1.168 km.

A coluna procurou o PSD e o deputado Eros Biondini para comentários. O parlamentar não respondeu. Já o PSD disse que contratou a empresa “após rigorosa análise” e que não identificou nenhum problema.

“Nas eleições gerais de 2022, o partido, após análise rigorosa do CNPJ e demais dados, contratou a empresa para prestação de serviços de táxi aéreo, conforme previsto pela legislação. Não se verificou, à época, nenhuma irregularidade”, disse o PSD em nota.

Como mostrou a coluna, outro deputado federal de Minas, Fred Costa (PRD), arrendou uma aeronave de sua propriedade à CNM. Pelo contrato, firmado em abril deste ano, Fred Costa receberá R$ 4 por quilômetro voado pela aeronave, com pagamento mínimo de R$ 30 mil mensais.

Empresária de táxi aéreo e “gerente” da Rainha do Pó

Na denúncia de 2023 contra a quadrilha, o MPF atribuiu a Juliana Costa Nobre, dona da CNM, o papel de “gerente-executiva” da organização criminosa de Karina Campos, apelidada pela polícia de “rainha do pó”.

Atualmente foragida, Karina é considerada pelos investigadores a maior traficante de cocaína do país.

Juliana foi presa preventivamente e posteriormente liberada, antes de ser denunciada, em 2023, pelo crime de formação de quadrilha. O caso tramita na Justiça Federal em Minas Gerais.

Após a prisão de seu irmão e de André Eleutério, que dividia a liderança do grupo com ele, Juliana “assumiu a gestão dos negócios ilícitos antes gerenciados por Leonardo, seu irmão, mediante o uso de documentos falsos e a criação de empresas fraudulentas”, disse o MPF.

“Juliana constituiu e administrou, em nome de ANDRÉ e de LEONARDO, a empresa CNM Aviação e Táxi Aéreo no mesmo endereço da empresa BHZ, permitindo a ambos que continuassem auferindo vantagens econômicas por meio de bens e ativos que constituem produto ou proveito econômico do tráfico internacional de drogas e de lavagem de dinheiro praticados pela organização criminosa”, diz o MPF.

“Com plena consciência de que sua conduta favorecia os negócios ilícitos da organização criminosa gerenciada por André e por Leonardo, Juliana emprestou seu nome para a constituição de uma nova pessoa jurídica, a CNM Aviação, a fim de ‘reativar’ o hangar anteriormente utilizado pela empresa BHZ”, diz a denúncia do Ministério Público.