Deputado Fred Costa arrenda avião para grupo investigado por tráfico. Vídeo
Deputado federal Fred Costa (PRD-MG) arrendou avião a empresa da irmã de denunciado por tráfico na operação Flight Level
O deputado federal Fred Costa (PRD-MG) cedeu uma aeronave de sua propriedade a uma empresa envolvida numa investigação sobre tráfico internacional de drogas. A empresa CNM Aviação opera no mesmo hangar em Belo Horizonte (MG) do qual partiram 175 kg de cocaína em 2020, com direção a Lisboa, em Portugal. À época, o hangar era usado pela firma do irmão da dona da CNM Aviação.
À coluna, Fred Costa disse que pesquisou sobre a empresa e sua proprietária na internet antes de arrendar a aeronave, mas não identificou “qualquer fato impeditivo ou histórico de problemas”.

A aeronave de Fred Costa é um bimotor turboélice modelo Embraer Emb-121, conhecido como “Xingu”, de prefixo PT-MCA. Fabricado em 1982, esse modelo transporta até seis passageiros e tem velocidade de cruzeiro de 450 km/h. A aeronave foi comprada por Fred Costa em setembro de 2024 por R$ 4 milhões.
O arrendamento para a CNM Aviação foi feito em 14 de abril deste ano, de acordo com os registros da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O prazo de uso do bem é de 18 meses. Durante este período, a CNM Aviação pagará a Fred Costa R$ 4 por cada quilômetro voado, com garantia de pagamento mínimo de R$ 30 mil mensais.
A empresa CNM Aviação foi aberta em agosto de 2021 por Juliana Costa Nobre Magalhães, que é até hoje a única dona. Juliana é investigada em decorrência da operação Flight Level, deflagrada pela Polícia Federal em abril de 2021 para investigar uma suposta quadrilha que usava aeronaves no tráfico internacional de cocaína.
O irmão dela, Leonardo Costa Nobre, foi denunciado pelo Ministério Público Federal em junho de 2021, acusado de tráfico internacional. Segundo o MPF, ele era um dos líderes do grupo, ao lado de André Luiz Santiago Eleutério.
Mais recentemente, em março de 2023, Leonardo foi acusado pela PF de pagar R$ 3,5 milhões em propina a um advogado de Brasília, filho de um desembargador federal, para garantir o habeas corpus que resultou em sua soltura.
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As apurações da PF envolveram a quebra de sigilo de Juliana Costa Nobre — segundo os investigadores, ela assumiu o papel de Leonardo na operação e articulou a soltura dele por meio do pagamento ao advogado. À reportagem, Juliana negou envolvimento com o tráfico e ressaltou que não foi denunciada pelo MPF (leia abaixo).
As apurações da Flight Level tiveram início meses antes, em outubro de 2020, com a apreensão de 175 kg de cocaína no aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, Portugal. A droga partiu do mesmo hangar em Belo Horizonte que hoje é usado pela CNM Aviação. Na época, o local era gerido por outra firma, a BHZ Táxi Aéreo, de Leonardo Costa Nobre.
A coincidência entre as localizações da CNM e da antiga BHZ Táxi Aéreo é mencionada em várias decisões recentes do ministro Og Fernandes, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), para réus da investigação da Flight Level.
“Na IPJ n. 101/2021 (relatório da PF) constou que, em diligência local no aeroporto da Pampulha, na data de 14/12/2021, foi verificado que a fachada da BHZ havia sido alterada, constando nova placa com a identificação da empresa CNM AVIAÇÃO”, diz um trecho das decisões de Og Fernandes.
Nas decisões, Og Fernandes diz ainda haver indícios de que Juliana “assumiu os negócios” do irmão – ele fez uma procuração para que ela agisse como procuradora dele em relação às suas empresas de táxi aéreo.
Ainda segundo Og Fernandes, o grupo de Leonardo Costa Nobre atuava em conjunto com a narcotraficante Karine Campos, considerada a maior traficante do país e apelidada de “rainha do pó”. Em julho passado, ela foi condenada a 4 anos e 8 meses de prisão pela Justiça Federal de São Paulo, mas se encontra foragida.
Fred Costa: não identifiquei problemas na empresa
Em nota à coluna, o deputado Fred Costa disse que não identificou problemas na empresa antes de fechar o contrato de arrendamento.
“O deputado Fred Costa realizou todas as devidas diligências antes do arrendamento e não possui nenhuma relação com o episódio que aconteceu cinco anos antes do arrendamento”, diz um trecho.
Leia abaixo a nota do deputado, na íntegra.
“A aeronave foi objeto de contrato de arrendamento com a empresa CNM Aviação e Táxi Aéreo, companhia que possui diversas aeronaves sob sua responsabilidade.
[Na verdade, a CNM tem apenas uma outra aeronave registrada como sob sua operação na Anac].
Antes da assinatura do contrato, em 2025, foram realizadas pesquisas na internet, por meio de mecanismos de busca, sobre a empresa arrendatária e seu CNPJ, sem que fosse identificado qualquer fato impeditivo ou histórico de problemas relacionado à arrendatária.
Após o contato da coluna, pesquisamos sobre a citada Operação Flight Level e tomamos conhecimento de que o caso se refere a um episódio ocorrido em 2020, envolvendo a empresa BHZ Táxi Aéreo, e não a CNM Aviação e Táxi Aéreo, arrendatária da aeronave, que, inclusive, não utilizou comercialmente a aeronave até o momento.
Diante disso, é possível perceber que o deputado Fred Costa realizou todas as devidas diligências antes do arrendamento e não possui nenhuma relação com o episódio que aconteceu cinco anos antes do arrendamento.
Portanto, o deputado não tem qualquer responsabilidade em relação aos fatos mencionados”.
Juliana Costa Nobre nega envolvimento com tráfico
Os advogados de Juliana Costa Nobre enviaram respostas aos questionamentos da coluna. No texto, eles negam envolvimento dela com as supostas atividades de seu irmão, Leonardo Costa Nobre, ou com o tráfico de drogas.
Eis abaixo as perguntas e as respostas.
“1. Qual o status jurídico atual da sra. Juliana?
Em relação ao status jurídico da Sra. Juliana Costa Nobre, cumpre esclarecer que ela foi citada no início das investigações da Operação Flight Level como alguém que teria “sucedido” seu irmão em uma investigação sobre crimes relacionados ao tráfico ilícito de drogas e afins.
Entretanto, após os esclarecimentos e a continuidade das investigações, a Sra. Juliana Costa Nobre não foi denunciada por qualquer crime de tráfico ilícito de drogas, não pesando contra ela qualquer imputação nesse sentido.
Atualmente, Juliana Costa Nobre, assim como fez desde o início das investigações, presta esclarecimentos e colabora com as autoridades. Por meio de seus advogados, busca apenas resolver equívocos e retificar informações que possam ter sido ventiladas erroneamente ou indevidamente.
2. Qual a relação entre a empresa CNM Táxi Aéreo e a empresa BHZ Táxi Aéreo?
A respeito da relação entre a empresa CNM Táxi Aéreo e a empresa BHZ Táxi Aéreo, esta restringe-se à ocupação do Hangar 3 do Aeroporto Carlos Drummond de Andrade (Aeroporto da Pampulha), em Belo Horizonte/MG.
A empresa BHZ Táxi Aéreo era a cessionária do Hangar 03 até meados de agosto de 2021, quando a empresa CNM Táxi Aéreo passou a ser cessionária do referido hangar, por meio de procedimento regular de cessão de direitos, sendo tudo regulado e fiscalizado pela então cessionária do aeroporto, CCR Aeroportos.
Os fatos narrados pelo ministro Og Fernandes (STJ) referem-se a fatos ocorridos em outubro de 2020, período em que o hangar estava sob gestão exclusiva da cessionária anterior, BHZ Táxi Aéreo, além de que a aeronave envolvida no ocorrido (matrícula PP-SDW) era de propriedade da empresa Supreme Locadora de Veículos.
Em relação ao período de cessão e administração do Hangar 3 pela empresa CNM Táxi Aéreo, inexiste qualquer irregularidade (…).
3. Qual a relação de Juliana com os negócios de seu irmão, Leonardo Costa Nobre?
Juliana Costa Nobre não possui qualquer relação com os supostos negócios envolvendo seu irmão, Leonardo Costa Nobre, o qual não possui qualquer condenação, mesmo que provisória.
Destaca-se, novamente, que Juliana Costa Nobre não tem qualquer indiciamento, muito menos denúncia, a respeito do crime de tráfico ilícito de drogas.
Em relação à sua atividade empresarial, por meio da empresa CNM Táxi Aéreo, Juliana Costa Nobre segue exercendo plenamente sua função, não tendo qualquer processo cível, administrativo ou criminal que tenha concluído pelo uso indevido, quiçá ilícito, da empresa.
A investigação inicial possuía uma suspeita de que a empresa CNM Táxi Aéreo poderia ter alguma relação com os fatos ocorridos em outubro de 2020, mas, quer pela própria lógica temporal, quer pela própria verdade dos fatos, não se apurou qualquer irregularidade.
Por fim, destaca-se que Juliana Costa Nobre é uma empresária com mais de 20 anos de experiência nos setores comerciais e de vendas, é muito bem-quista tanto no seio de sua família quanto da sociedade em geral, e que nunca teve qualquer situação que desabonasse a sua conduta, ressalvada a sua vinculação indevida a fatos com os quais não possui relação”.




