
Andreza MataisColunas

INSS: Sindicato liderado por irmão de Lula pagou R$ 8,2 milhões a parentes de dirigentes
Informações são de relatório de inteligência financeira (RIF) sobre o Sindnapi, encaminhado à CPMI do INSS. Pagamentos foram a empresas
atualizado
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Investigado na “Farra do INSS”, o Sindicato Nacional dos Aposentados e Pensionistas (Sindnapi) pagou pelo menos R$ 8,2 milhões a empresas pertencentes a familiares de dirigentes da entidade. Ligado à Força Sindical, o Sindnapi tem como vice-presidente o sindicalista José Ferreira da Silva, o Frei Chico, irmão mais velho do presidente Lula (PT).
As informações sobre os pagamentos constam no Relatório de Inteligência Financeira (RIF) sobre o Sindnapi, encaminhado à CPMI do INSS no Congresso, ao qual o Metrópoles teve acesso.
Os pagamentos mencionados no RIF referem-se ao período de 2019 a 2025. Os repasses foram feitos pelo sindicato a empresas que têm como donos os parentes do atual presidente da entidade, Milton Baptista de Souza Filho, o Milton Cavalo, e do ex-presidente, antecessor de Milton, João Batista Inocentini, o João Feio, morto em agosto de 2023. A documentação foi encaminhada à CPMI do INSS no Congresso Nacional.
No período, o Sindnapi pagou R$ 3.199.696,45 ao escritório de advocacia do advogado Carlos Afonso Galleti Júnior. Ele é genro de João Feio e casado com Tonia Galleti, filha do ex-dirigente, que também trabalha no Sindnapi como coordenadora jurídica.
O Sindnapi pagou outros R$ 2.731.901,13 à empresa Gestora Eficiente Ltda, de propriedade de Carlos e da decoradora Daugliesi Giacomasi de Souza, mulher de Milton Cavalo. Como mostrou a coluna, a empresa era responsável por processar as fichas dos aposentados e recebia “comissão” toda vez que um aposentado era descontado pelo Sindnapi.

Finalmente, há pagamentos de R$ 2.294.879,68 à empresa Esférica Assessoria e Sistemas de Informática Ltda., que pertence a Carlos Eduardo Teixeira Júnior, casado com uma irmã de Tonia Galleti. Segundo pessoas com conhecimento do funcionamento do Sindnapi, a Esférica era responsável pelo sistema usado pelo sindicato para controlar os descontos dos aposentados.
Como mostra a reportagem de hoje do Metrópoles, o Sindnapi movimentou R$ 1,2 bilhão no período abrangido pelo Relatório de Inteligência Financeira, que vai de janeiro de 2019 a junho de 2025. Do total, R$ 586 milhões correspondem a ingressos e R$ 613 milhões a pagamentos (saídas).
Entre os investigados na “Farra do INSS”, o Sindnapi está, ao lado da Contag, entre as entidades que mais se beneficiaram dos descontos aplicados aos aposentados. O Sindnapi recebeu R$ 77,1 milhões até maio do ano passado.
Segundo o relatório da Controladoria-Geral da União (CGU), o Sindnapi não conseguiu apresentar a documentação completa de nenhum associado dentro de uma amostra aleatória selecionada pelo órgão.
Em reportagem anterior, a coluna mostrou o aumento do patrimônio dos dirigentes do Sindnapi no período da “Farra do INSS”.
Entre 2022 e 2024, por exemplo, a família de João Batista Inocentini ergueu uma mansão de 519 metros quadrados, com piscina e lago artificial, em um sítio localizado em Jarinu, no interior de São Paulo. Inocentini fundou e comandou o Sindnapi até sua morte em 2023.
Já Milton Cavalo, o presidente da entidade, construiu uma casa de 360 metros quadrados em seu sítio em Atibaia (SP).
A coluna procurou o Sindnapi para comentários na noite desta quarta-feira (01), por meio da assessoria de imprensa, mas ainda não há resposta. O espaço segue aberto.
Operações em dinheiro vivo e pagamento a candidata
O relatório mostra ainda que o Sindnapi realizou operações em dinheiro vivo que somam R$ 6,5 milhões.
“Vale destacar que foram identificadas operações em espécie (depósitos e saques) que totalizam aproximadamente R$ 6,5 milhões. Esse tipo de movimentação é considerado complexo, dada a dificuldade de rastreamento da origem primária dos recursos e da identificação dos beneficiários finais”, diz um trecho do relatório.
“Foram observadas diversas transações envolvendo pessoas físicas e jurídicas distintas, sem que fosse possível estabelecer uma relação clara entre essas partes e o sindicato, dificultando a compreensão do propósito e da legitimidade dessas movimentações”, observa outro trecho do relatório do COAF.
Entre os pagamentos relacionados no RIF, há um desembolso do sindicato de R$ 245.190,50 para a advogada Kelly Cristina Bulgarelli França. Em 2020, Kelly foi candidata a vice-prefeita da cidade de Americana (SP) pelo Solidariedade, na chapa liderada por Marco Antonio Alves Jorge, o Kim. No entanto, não foi eleita.
Há ainda registro de um pagamento de R$ 749.932,07 ao Sicoob Coopernapi, uma cooperativa de crédito que tem como público-alvo os aposentados e pensionistas.
Kelly Cristina diz que foi ela que fez depósito ao Sindnapi, e não o contrário
Após a publicação desta reportagem, a coluna foi procurada pela advogada Kelly Cristina Bulgarelli França. Segundo ela, a transação financeira com o Sindnapi consistiu num depósito dela para a entidade, no valor de R$ 245 mil, e não o contrário, como diz o relatório do COAF. Ainda segundo ela, as transações são lícitas e dizem respeito às viagens de associados da subsede de Americana (SP) para colônias de férias do Sindnapi no litoral de São Paulo.
Leia abaixo a íntegra do direito de resposta enviado por Kelly:
“Em razão da matéria publicada por este canal de comunicação, em que é mencionado que houve um “desembolso” do Sindnapi (Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos) em meu favor, no valor de R$ 245.190,50, insinuando que houve entre mim e o sindicato transações financeiras ilícitas, divulgando meu nome e imagem e me expondo ao julgamento brutal de desconhecidos, solicito a retratação de Vossas Senhorias, bem como a publicação do seguinte direito de resposta.
Confesso que, ao ter conhecimento de tal fato, fui surpreendida, pois nunca havia recebido da referida entidade sindical nada que não fosse salários e demais direitos legais oriundos do vínculo empregatício mantido por anos — o que me fez refletir, no momento da publicação, sobre do que poderia se tratar. Sendo agora a oportunidade de pedir o necessário direito de resposta.
Acontece que, juntamente com a equipe do sindicato, buscamos por qualquer indício do que poderia ter levado a tais valores. Então, identificamos transferências absolutamente lícitas que partiram de mim para o sindicato, dentro do escopo de minhas então funções administrativas, referentes a pagamentos de viagens de associados da Subsede de Americana às colônias de férias do Sindnapi, nas cidades de Mongaguá e Caraguatatuba, cujo montante das transferências, desde a primeira excursão, em 2022, totaliza exatamente o valor anunciado.
Esclareço ainda que, desde o mencionado ano, foram realizadas várias excursões para as referidas colônias. Apenas em 2024, mais de 400 associados ou dependentes hospedaram-se nas colônias, viajando com o apoio da Subsede de Americana.
Desta forma, muito embora eu tenha recebido apoio irrestrito de meus familiares, daqueles que me conhecem e dos associados frequentadores do CIVI (Centro de Integração e Valorização do Idoso) Americana — que, apesar de nem desconfiarmos do que se tratava, ainda assim me apoiaram —, em nome da minha reputação como ser humano, dos princípios que regem minha vida, da minha honra, e, por exemplo, da proteção a meus quatro filhos (13, 12, 10 e 7 anos), aos quais tento mostrar todos os dias, com palavras e conduta, que vale a pena ser verdadeiro e honesto apesar de tantas maldades que existem neste mundo em que vivemos, peço que retirem de suas redes sociais a acusação descabida e permitam que as pessoas conheçam a verdade”.
