
Andreza MataisColunas

Fintech do PCC tentou “aproximação” com Márcio França e João Doria
Menções a Márcio França e João Doria estavam no celular do ex-vereador Thiago Rocha de Paula (PSD), preso ontem
atualizado
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Uma fintech ligada à facção Primeiro Comando da Capital (PCC) tentou se aproximar do ex-ministro do Empreendedorismo e ex-governador Márcio França. O grupo também tentou viabilizar uma reunião com o ex-governador de São Paulo João Doria em 2021, quando ele estava à frente do Palácio dos Bandeirantes.
As informações constam de documentos relacionados à operação Contaminatio, deflagrada pela Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise) da Polícia Civil de São Paulo nesta segunda-feira (27). Os documentos foram obtidos pela coluna.
A apuração investiga o uso da fintech 4TBank por parte de pessoas ligadas ao PCC para fechar contratos com prefeituras no estado de São Paulo. A partir desses contratos, a 4TBank operaria o recebimento de tributos dos municípios.
À coluna, Márcio França disse que não conhece os membros da suposta organização criminosa e que nunca conversou com eles, muito menos se reuniu. Atualmente afastado da política, João Doria disse que a reunião aventada pelos investigados nunca aconteceu.
As tentativas de aproximação com o tucano e o socialista constam de conversas extraídas pela Polícia Civil do celular do ex-vereador de Santo André Thiago Rocha (PSD). O movimento teria ocorrido em 2021, quando Rocha ainda era vereador.
Rocha foi um dos presos nesta segunda-feira. Para a Polícia Civil, ele se associou ao traficante Márcio Barbosa da Silva, o “Beiço de Mula”, descrito como “principal liderança do PCC no ABC Paulista”. Para a PC-SP, Rocha estruturou um “núcleo político” em favor do PCC.
João Doria e Márcio França no “relatório de atividades”
As menções a João Doria e a Márcio França aparecem em um “relatório de atividades” encaminhado pelo vereador Thiago Rocha em março de 2021 a João Gabriel de Melo Yamawaki, apontado pela PC-SP como operador financeiro do PCC.
Num dos slides do relatório, Rocha aponta, sob a aba “o que já fizemos”, a realização de uma “reunião de aproximação no Palácio dos Bandeirantes”. No topo da imagem consta o nome de Pedro Oliveira, da Secretaria de Desenvolvimento Econômico do governo de São Paulo.
Como “próximos passos”, ele descreve “tentar agenda com o governador do Estado ou com a secretária de Desenvolvimento Econômico Patrícia Ellen com a diretoria do 4TBank”.

Em outro slide, o vereador inclui na aba “O que fizemos” a “aproximação política com o PSB Estadual”. A inscrição está abaixo do nome Matheus Tonella, descrito como “articulador político e assessor do gabinete do prefeito / Campinas”. À época, o prefeito de Campinas era o atual deputado federal Jonas Donizette.
“Articular conversas com o PSB Estadual / ex-governador Márcio França”, diz um trecho.

Em outros slides, são mencionadas figuras da política local de São Paulo, como um assessor do deputado estadual do Podemos Márcio da Farmácia; um secretário municipal de Santo André; a então secretária de Agricultura de São Paulo Juliana Cardoso; e o deputado estadual Daniel José, do Novo.
Os nomes deles estão citados num slide que diz “Contatos realizados fora do plano de ação inicial”.
Plano de ação do PCC era assustador, diz Polícia Civil
“O conteúdo do ‘plano de ação’ entabulado entre Thiago e João Gabriel é preocupante, senão assustador, já que as suspeitas iniciais que recaíam sobre ambos eram de que estariam buscando apoio da OrCrim Primeiro Comando da Capital para alavancar candidaturas para as eleições municipais passadas”, diz trecho da representação da Polícia Civil.
Sobre Thiago Rocha, o relatório da PC-SP afirma que ele “dedicava grande parte do seu tempo a fazer contatos espúrios com outros interlocutores políticos de diferentes cidades, deixando de lado sua função precípua, que seria fiscalizar o Executivo e legislar em prol dos munícipes de Santo André”.
“Ademais, restou comprovado nas investigações iniciais que João Gabriel não apenas integra a OrCrim Primeiro Comando da Capital, como também utiliza a fintech para movimentação de recursos ligados ao tráfico de entorpecentes e outros ilícitos”, dizem os investigadores.
