
Andreza MataisColunas

Empresário suspeito de ligação com o PCC fez doação eleitoral para PSD
Investigado em operação contra o PCC, empresário doou para o PSD do Paraná de Ratinho Júnior nas eleições municipais de 2024
atualizado
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O empresário Rafael Renard Gineste, suspeito de ligação com o Primeiro Comando da Capital (PCC) e alvo da Operação Tank, deflagrada pela Polícia Federal na última quinta-feira (28), fez doações eleitorais que somam R$ 6 mil ao Diretório Estadual do PSD no Paraná durante as eleições municipais de 2024.
Atualmente, o PSD do Paraná tem como “presidente licenciado” o governador Ratinho Júnior. O comando formal da sigla está com o deputado federal eleito Sandro Alex, secretário de Infraestrutura e Logística no governo estadual.

De acordo com registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), os repasses foram feitos por Pix em duas transferências: uma de R$ 4,5 mil, no dia 26 de agosto daquele ano, e outra de R$ 1,5 mil, em 5 de setembro.
Ainda segundo os registros do TSE, a doação de R$ 4,5 mil foi depois encaminhada para o então candidato a vereador em Curitiba (PR) Euler de Freitas Silva Junior, o Professor Euler (MDB). Atualmente, ele é o secretário de Esportes da prefeitura de Curitiba.
Procurado, o PSD disse que a doação foi feita por meio da compra de um ingresso para um jantar de arrecadação da legenda. Disse ainda que todas as doações recebidas pelo partido são registradas e seguem o trâmite legal (leia mais abaixo).
A defesa de Gineste também não foi localizada. O espaço segue aberto para manifestações.
Empresário investigado por ligação com o PCC tentou fugir em lancha
Gineste é sócio-administrador da F2 Holding Investimentos, uma das empresas investigadas na megaoperação conduzida pelo Ministério Público de São Paulo (MPSP), pela Receita Federal e pela PF contra as atividades do PCC nos setores de combustíveis e financeiro.
Na manhã de quinta-feira, ele tentou escapar da PF escondendo-se em uma lancha de luxo ancorada na praia de Bombinhas (SC). Mesmo assim, foi identificado e preso. Segundo os agentes, Gineste integrava o núcleo financeiro da organização criminosa. Além da F2 Holding, está vinculado a outras pessoas jurídicas, incluindo postos de combustíveis — outro foco da investigação.
Em vídeo da abordagem, exibido pelo Fantástico, o empresário aparece de camiseta branca na parte de trás da embarcação. De acordo com a PF, ele teria jogado o celular no mar ao ser surpreendido.
Em 2016, Gineste já havia sido condenado no âmbito da Operação Publicano, do Ministério Público do Paraná, que investigou o pagamento de propina a auditores fiscais estaduais em troca da redução de tributos. Na ocasião, recebeu pena de quatro anos e oito meses de prisão por corrupção ativa.
PF: Gineste era “um dos principais operadores” do esquema
Na representação da operação Tank, a Polícia Federal diz que Rafael Renard Gineste é um dos “principais operadores” do esquema criminoso de adulteração de combustíveis e lavagem de dinheiro.
Para a PF, ele era responsável por “coordenar atividades de lavagem de dinheiro, fraude fiscal e adulteração de combustíveis. Seu papel dentro da organização criminosa se destaca na administração de postos de combustíveis utilizados para movimentação de dinheiro ilícito, ocultação de patrimônio e distribuição dos valores obtidos de forma irregular”.
“Para contribuir com as atividades ilícitas do grupo, Rafael se vale de uma rede de interpostas pessoas e empresas de fachada para simular transações comerciais e justificar a movimentação de grandes quantias sem lastro fiscal. Como demonstrado (…), Rafael Gineste detém controle sobre os dados pessoais e contas bancárias de diversos laranjas do grupo”, diz um trecho.
“Através dos lucros obtidos pela ORCRIM (organização criminosa) a partir das atividades de lavagem de capitais que contam com especial colaboração do investigado, Rafael construiu um patrimônio milionário, regado a ostentações, imóveis de alto padrão, viagens caras e itens de luxo”, descreve a PF.
“A partir deste emaranhado de atividades ilícitas voltadas ao arranjo de lavagem de capitais controlado pelo grupo criminoso, Rafael Gineste acumulou patrimônio de alto valor, incluindo imóveis, joias e veículos de luxo adquiridos por meio do esquema criminoso (…)”, diz um trecho.
“Além disso, o investigado também contribuiu participando diretamente da estruturação do circuito financeiro utilizado pela organização, garantindo a sustentação e crescimento da rede ilícita que se busca desmantelar”, diz a PF.
PSD: doação foi convite de jantar de arrecadação
Em nota, o PSD disse que a doação foi feita como um convite de um jantar de arrecadação, e que foi devidamente registrada.
“As doações feitas ao PSD são declaradas para a Justiça Eleitoral e seguem trâmites previstos em lei. O partido enviou recursos a candidatos de vários municípios em 2024 e teve as contas aprovadas pelo Tribunal Regional Eleitoral”, disse a legenda.
“No caso específico, a doação ocorreu para compra de convites para um jantar de arrecadação realizado naquele ano. O evento contou com a participação de mais de 5.000 pessoas, através de convites adquiridos. A prática é prevista em lei e foi declarada”, diz a nota.
“O partido repudia qualquer ato ilegal, bem como condena toda e qualquer forma de vinculação de sua imagem aos casos investigados”, disse o PSD.
Rafael Gineste nega envolvimento com PCC ou adulteração de combustível
Após a publicação, a defesa de de Rafael Gineste procurou a coluna para afirmar que seu cliente não tem qualquer relação com o PCC e que nunca atuou na adulteração de combustível.
O empresário também disse que não houve “fuga”, apenas que ele estava em seu barco num momento de lazer, e “se apresentou de imediato, com tranquilidade e colaboração”.
Eis a íntegra da nota enviada pelo advogado Mauricio Moscardi Grillo:
“A respeito das notícias relacionadas à chamada Operação Tank, a defesa de Rafael Gineste esclarece:
1. Não houve fuga. Rafael foi encontrado em seu próprio barco, em momento de lazer, e se apresentou de imediato, com tranquilidade e colaboração. Transformar esse episódio em narrativa de evasão é desproporcional e não encontra amparo nos fatos.
2. Ausência de dolo. Estar em uma lancha registrada em seu nome, em local conhecido, jamais poderia ser interpretado como tentativa de se ocultar. A tese de fuga em veículo de fácil identificação é ilógica e sem fundamento.
3. Conduta colaborativa. Rafael sempre esteve à disposição das autoridades e seguirá contribuindo com todas as investigações, com a mesma transparência que pauta sua vida pessoal e profissional.
4. Reputação ilibada. Empresário reconhecido e respeitado, Rafael jamais se envolveu em adulterações de combustíveis ou qualquer atividade ilícita. Vinculá-lo a práticas criminosas é precipitado e injusto.
5. Nenhuma relação com crime organizado. Rafael nunca manteve qualquer vínculo com organizações criminosas, como o PCC ou qualquer outra facção. Qualquer tentativa de associar seu nome a esse tipo de prática é falsa e sem qualquer base probatória.
6. Confiança na Justiça. A defesa confia que a apuração técnica e isenta demonstrará a total ausência de envolvimento em ilícitos. Acusações de vínculo com organizações criminosas carecem de provas e serão rebatidas nos autos”.
