“Sou um escravo”: coronel réu por matar esposa PM relata rotina na prisão
Geraldo Neto afirma que oficiais são minoria no Romão Gomes e diz lavar banheiro, buscar refeições e pedir permissão para entrar em cela

Preso pela acusação de matar a esposa, a soldado da PM Gisele Alves Santana, o tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto afirmou que virou uma espécie de subordinado de soldados e cabos dentro do Presídio Militar Romão Gomes, na zona norte paulistana.
Em interrogatório prestado à Corregedoria da Polícia Militar, obtido em primeira mão pela coluna, Geraldo diz precisar pedir permissão a um soldado para entrar em uma cela, cumprir tarefas de limpeza e buscar refeições.
“Eu sou um escravo”, declarou, acrescentando durante a oitiva que “só Deus sabe que eu tô sofrendo aqui dentro”
O oficial da reserva da PM foi ouvido na condição de indiciado, acompanhado de advogado, no Inquérito Policial Militar (IPM) aberto para apurar a morte de Gisele.
“Peço permissão”
O assunto surgiu quando Geraldo reclamou da repercussão de mensagens íntimas trocadas com Gisele. Segundo ele, uma delas virou motivo de chacota entre os presos do Romão Gomes.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesAo descrever a cadeia, o tenente-coronel afirmou que 99% dos internos seriam cabos e soldados e que oficiais receberiam tratamento diferente.
“Aqui, eu não sou o Geraldo que a imprensa acusa de matar a Gisele. Aqui, dentro dos internos, eu sou o tenente-coronel que assassinou uma soldado”, afirmou.
Em seguida, relatou a inversão da hierarquia militar.
“Eu entro na cela, eu peço permissão para o mais antigo da cela, que é um soldado.”
Geraldo disse lavar banheiro, louças e corredor, fazer faxina em geral, buscar café, almoço e jantar. Segundo ele, dentro da unidade “existem as normas internas e existem as normas dos internos”.
Policiais que ele fiscalizou
O coronel também afirmou dividir o presídio com PMs que já fiscalizou enquanto exercia funções de comando nas zonas leste e oeste da capital paulista. “Esses policiais me encontram [no presídio] e me cobram”, disse.
Geraldo lembrou ainda que, em janeiro de 2025, chegou a dar voz de prisão a um tenente e a um pelotão inteiro por insubordinação. Segundo ele, há no Romão Gomes policiais de unidades sobre as quais exerceu fiscalização.
No raio onde está preso, afirmou haver 17 policiais e disse que o mais antigo é um soldado com menos de cinco anos de corporação, responsável pela chefia do grupo.
“Quem é oficial e está aqui, comandante [interlocutor], apenas devia contar, para cada dia cumprido, tinha que contar três. Porque só Deus sabe o quanto é difícil estar aqui dentro, como oficial”, declarou.
As alegações sobre intimidação, cobrança e tratamento diferenciado são versões de Geraldo Neto. O IPM não apresenta confirmação de represálias contra ele.
Terceiro adiamento
Geraldo deveria ser interrogado pela Justiça comum nesta terça-feira (8/9), mas o ato foi adiado pela terceira vez, como informado em primeira mão pela coluna.
Em decisão de sexta-feira (4/9), a juíza Michelle Porto de Medeiros Cunha Carreiro remarcou o interrogatório para 5 de outubro, às 13h.
O novo adiamento ocorreu após a defesa pedir diligências complementares antes da oitiva. A magistrada determinou que a perita Amanda Rodrigues Marinone esclareça quem realizou uma gravação mencionada durante audiência e requisitou ao Instituto de Criminalística uma “nova (e derradeira) complementação” aos quesitos da defesa, no prazo de 20 dias


















