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Alfredo Henrique

Morte do rei da fronteira no Paraguai gerou guerra de facções no Acre

Mortes violentas mais que dobraram no Acre entre 2015 e 2017, em meio à disputa de PCC e CV pelas rotas internacionais da cocaína

17/08/2026 04:30
Divulgação/CNJ
Cela de prisão - Metrópoles

Uma metralhadora calibre ponto 50 atravessou a blindagem do carro de Jorge Rafaat Toumani em uma noite de junho de 2016, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai. Cerca de 100 homens participaram da ação que matou o narcotraficante conhecido como “Rei da Fronteira”. A execução, atribuída ao Primeiro Comando da Capital (PCC), derrubou um dos principais chefes do tráfico sul-americano e abriu uma guerra que alcançaria o Acre.

Em entrevista exclusiva à coluna, a comandante-geral da Polícia Militar do Acre, coronel Marta Renata Freitas, afirmou que a área de influência de Rafaat não se restringia à fronteira entre Paraguai e Mato Grosso do Sul. O “reino” do traficante alcançava também o Acre, rota estratégica para o transporte de cocaína que entra no Brasil pelas fronteiras amazônicas.

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Detentos encarcerados no Acre
Presos em presído acreano superlotado
Criminosos abarrotados em cela em Rio Branco (AC)
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Criminosos abarrotados em cela em Rio Branco (AC)
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Criminosos abarrotados em cela em Rio Branco (AC)

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A posição geográfica ajuda a explicar o interesse das facções. O Acre faz fronteira com Peru e Bolívia e está inserido nos corredores utilizados para movimentar drogas produzidas na região andina.

“Estamos numa trifronteira e enfrentamos diversos problemas, entre os quais a questão do tráfico de drogas e, consequentemente, da disputa por território de organizações criminosas”, afirmou Marta.

Com a morte do Rei da Fronteira, o espaço deixado por ele passou a ser disputado pelas facções. De um lado, o PCC. Do outro, o Comando Vermelho (CV). No Acre, a briga por território e pelas rotas internacionais do tráfico ajudou a produzir o período mais violento da história recente do estado.

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Escalada de violência

Segundo a comandante, a ofensiva das organizações criminosas já havia começado a ganhar força em 2015 e envolvia tanto facções de alcance nacional quanto grupos locais.

“A partir de 2015, o Estado do Acre sofreu com essa intenção, com a tentativa de domínio de território das facções, tanto do Rio de Janeiro quanto de São Paulo, mas também de facção local”, disse Marta.

Os números encaminhados pela PM à coluna mostram a dimensão da escalada. Em 2015, o Acre registrou 221 mortes violentas intencionais. Em 2016, ano da execução de Rafaat, foram 385. Em 2017, no auge da guerra, o total chegou a 498, representando um aumento de 125% em apenas dois anos.

“De 2015 a 2017 nós tivemos um pico nos crimes relacionados a crimes violentos contra a vida”, afirmou a comandante.

PCC na rota paraguaia

A relação entre a morte de Rafaat e a explosão da violência no Acre também aparece em estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) sobre a atuação das facções na Região Norte. O levantamento registra que autoridades acreanas relacionaram o aumento dos homicídios à execução do narcotraficante e à consequente reorganização das rotas do tráfico.

Segundo o estudo, a morte de Rafaat fortaleceu o PCC na rota paraguaia e pressionou organizações rivais a buscar outros corredores para movimentar drogas. O Ipea ressalva, porém, que os acontecimentos não devem ser tratados como uma “relação causal automática”.

A queda do “rei”

Antes de ser morto, Rafaat controlava uma engrenagem criminosa com ramificações muito além de Pedro Juan Caballero. O PCC tentou negociar com ele a divisão das rotas da cocaína, mas o “rei” recusou.

Na noite de 15 de junho de 2016, homens armados cercaram seu comboio. Uma caminhonete levava uma metralhadora antiaérea ponto 50, capaz de romper a blindagem do veículo. Os tiros atravessaram o carro. Rafaat morreu dentro dele.

A execução eliminou um intermediário poderoso e abriu espaço para uma nova divisão do mercado da cocaína.

A guerra chega ao Acre

No Acre, PCC e CV passaram a disputar áreas estratégicas, rotas e alianças com grupos locais. Uma guerra travada em torno de uma engrenagem internacional do narcotráfico passou a produzir cadáveres nas cidades acreanas.

O estudo do Ipea descreve Rio Branco como um dos cenários dessa disputa. PCC e CV ocuparam bairros e comunidades próximos, enquanto a violência passou a ser usada também como demonstração de poder entre criminosos.

Atualmente, segundo a coronel Marta, o equilíbrio dessa guerra pende para o CV.

“Há prevalência da organização criminosa do Rio de Janeiro na fronteira do Estado do Acre, mas ainda há, sim, células de outras facções, de outras organizações no território acreano”, afirmou.

A curva de mortes começou a cair após o auge. Foram 432 casos em 2018 e 319 em 2019. Houve 195 em 2021, 237 em 2022, 210 em 2023, 179 em 2024 e 193 em 2025. Em 2026, o levantamento apresentado pela PM registra 91 mortes até o momento.

Ação conjunta e queda de mortes

A comandante atribui a redução à reorganização da segurança pública, com atuação conjunta de PM, Polícia Civil, Secretaria de Segurança, Força Nacional e órgãos federais, além da instalação de barreiras nas principais vias de acesso às fronteiras.

“Nós não somos uma polícia de fronteira, mas nós estamos na fronteira. Então, não podemos fechar os olhos e simplesmente esperar que as forças federais atuem”, afirmou Marta.

O pico da violência ficou para trás. A origem dele, porém, revela o tamanho da disputa provocada pela queda de Rafaat. O Rei da Fronteira morreu no Paraguai, mas o território e as rotas deixados por seu império se tornaram objeto de uma guerra que atravessou fronteiras e chegou às ruas do Acre.