"Já rendido": sobrevivente relata 76 tiros em ação da PM que matou soldado.
Vitor afirma que comparsas já estavam baleados quando fugiu; armas atribuídas aos suspeitos não foram apresentadas à perícia

Sem tempo de fugir, ou de se render, quatro suspeitos de roubo foram alvo de ao menos 76 tiros dados por policiais militares, dos quais um acertou a cabeça e matou o soldado Matheus Almeida Rodrigues. Era madrugada em Sorocaba, no interior paulista, quando o quarteto havia assaltado uma farmácia, em 11 de abril, usando, segundo o único sobrevivente, uma arma de brinquedo.
Vitor dos Santos Alencar Conceição (imagem em destaque) contou sua versão do caso à Justiça, no último dia 18. O registro em vídeo foi obtido com exclusividade pela coluna (assista trechos abaixo).
Ele afirmou que somente uma arma de brinquedo foi usada no roubo e disse desconhecer a origem de dois revólveres, calibre 38, apresentados posteriormente pelos PMs como pertencentes ao grupo.
As armas relacionadas à ocorrência não foram apresentadas aos peritos durante o exame do local do suposto confronto. No chão, foram recolhidos 76 estojos de munição, todos com a inscrição “PMESP”, dos quais 66 de calibre .40, seis de fuzil 5,56 mm e quatro de espingarda calibre 12.
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Após o roubo, os suspeitos embarcaram em um Volkswagen Virtus prata. Marcelo Leite Batista dirigia, com Kevin Aparecido Nascimento Almeida ao lado. Atrás estavam Vagner Silva Barbosa, o Pita, e Vitor.
“Vi as viaturas chegando e falei pro Marcelo, ‘já era, para o carro’. Ele abriu a porta do carro, colocou as duas mãos pro alto. Nós já tava rendido. […] Aí os policial desceu… já começou a atirar”, afirmou Vitor.
O relato encontra respaldo em parte dos exames periciais. O Virtus apresentava múltiplas perfurações de tiros orientadas de fora para dentro por todo o entorno. No interior, havia perfurações nos bancos, colunas centrais, painel e portas.
Vitor disse ter corrido ao ver Kevin e Marcelo baleados. Pita teria desembarcado e se deitado. O motoboy afirmou não ter se entregado porque os policiais “tava dando muito tiro”.
Confronto sem armas
Vitor também foi questionado sobre dois momentos de troca de tiros descritos pelos policiais. Segundo ele, durante a fuga, foi atingido em um braço e, já escondido, ouviu uma nova sequência de disparos entre cinco e dez minutos depois.
Questionado se viu os comparsas atirarem, respondeu que eles “já estavam baleados” desde a tentativa de rendição. Sobre os revólveres atribuídos ao grupo, reiterou que “a única arma que tinha era de brinquedo”.
Tiro que matou PM
Outro laudo acrescenta uma contradição ainda sem resposta à dinâmica apresentada pelos policiais.
O projétil retirado da cabeça do soldado Matheus tinha características compatíveis com munição calibre .40 S&W, mesmo calibre das pistolas Glock apreendidas dos PMs. As armas atribuídas aos suspeitos eram dois revólveres calibre 38 e um simulacro.
A perícia, porém, não conseguiu determinar de qual arma da PM partiu o tiro que matou Matheus.
Motoboy em pizzaria
Vitor contou que trabalhava entregando pizzas na capital e foi convidado por Marcelo para ir de carro a Sorocaba. Durante o trajeto, soube que o objetivo seria roubar uma farmácia.
Ele admitiu ter aceitado participar do crime, mas afirmou que a ausência de uma arma de fogo foi determinante para sua decisão.




