Facções tomam Brasil como Hitler tomou Europa, diz secretário do RJ
Victor dos Santos diz que facções avançam por territórios e afirma que favelas do Rio também servem de refúgio a criminosos de outros estado

O secretário de Segurança Pública do Rio de Janeiro, Victor Cesar Carvalho dos Santos, comparou o avanço territorial das facções criminosas pelo país à estratégia adotada por Adolf Hitler durante a Segunda Guerra Mundial. Para ele, organizações como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) já se espalharam como “metástases” pelo Brasil.
“É isso que o crime organizado vem fazendo no Brasil. Tomando o Brasil de forma fracionada. Na Segunda Guerra Mundial, Hitler fez a mesma coisa com a Europa. Ele foi tomando pequenos países e assim expandindo o seu poder”, afirmou durante o COP Internacional, realizado em São Paulo.
Segundo o titular da pasta da segurança fluminense, o domínio deixou de se limitar ao tráfico de drogas. O crime passou a se apropriar do território, da economia e do voto, três ativos que ele considera fundamentais ao Estado. Na apresentação, na tarde dessa terça-feira (11/8), ele definiu esse cenário como um “poder paralelo”, capaz de restringir a circulação de moradores, monopolizar atividades econômicas e exercer influência política.
Rio como refúgio
À coluna, Victor Cesar afirmou ainda que comunidades do Rio passaram a funcionar como uma espécie de refúgio para criminosos de outros estados ligados a grupos que mantêm relações comerciais com o CV. Segundo ele, diferentemente do PCC, que tende a buscar o próprio domínio, o Comando Vermelho privilegia alianças com organizações criminosas locais.
Dados da Secretaria de Polícia Penal do Rio ajudam a dimensionar esse movimento. O número de presos no estado que possuíam mandados de prisão expedidos pela Justiça de outras unidades da Federação cresceu 63% entre 2022 e 2025, segundo levantamento do órgão, divulgado pelo governo fluminense.
Entre no canal de WhatsApp do MetrópolesUm exemplo ocorreu na megaoperação realizada nos complexos da Penha e do Alemão, em outubro de 2025. Segundo a Secretaria da Segurança Pública do Pará, cinco mandados expedidos pela Justiça paraense foram cumpridos no Rio. Outros 15 alvos do Pará morreram em confronto durante a ação, ainda de acordo com o governo paraense. Eles eram investigados por crimes como tráfico de drogas, organização criminosa, homicídios, extorsões, roubos e ataques a agentes de segurança.
A dinâmica também já apareceu em investigações paulistas. Como mostrou o Metrópoles, Leonardo Felipe Panono Scupin Calixto, o Bode, apontado como liderança do CV em Rio Claro, no interior de São Paulo, foi “batizado” pela facção no Rio e teve ligação com integrantes do grupo instalados em comunidades cariocas.
Geografia a favor do crime
Victor Cesar sustenta que a própria geografia do Rio potencializa esse domínio. O estado reúne cerca de 17 milhões de habitantes, 70% deles na região metropolitana. Na capital, 21,73% da população vive em favelas, segundo os dados apresentados pela secretaria.
“No Rio de Janeiro você vira uma esquina e está na favela. Você está em Copacabana, dobra uma esquina e está no Pavão, Pavãozinho”, exemplificou. Para o secretário, a proximidade entre áreas formais da cidade e territórios dominados pelo crime amplia a mobilidade de criminosos e dificulta as ações de segurança.
“Que morra 200, 300, 500”
Ao defender a retomada desses territórios, o secretário do Rio afirmou que operações policiais continuarão ocorrendo e que o planejamento “não deseja que morram tantos criminosos”,
“Essa é a opção deles. Se tiver a próxima, que morra 200, que morra 300, que morra 500. O que não pode é o homem do bem, o pai de família ou alguém que mora na comunidade inocente vir a morrer por conta da dominação do território”, acrescentou.
Ocupar não basta
Para Victor Cesar, porém, apenas entrar nas comunidades com forças policiais não resolve o problema. O plano apresentado pelo governo do Rio prevê ações em cinco eixos. São eles: Segurança Pública e Justiça, desenvolvimento social, urbanismo e infraestrutura, desenvolvimento econômico, além de governança e sustentabilidade.
“Reocupar é mais do que entrar. É permanecer”, resume a apresentação da Secretaria da Segurança. A proposta, segundo o titular da pasta, é impedir que o vácuo deixado depois das operações permita ao crime retomar território, renda e influência sobre a população.
















