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Podemos dizer que, desde a visita do brilhante ilustrador François Schuiten a Brasília no já longínquo ano de 1997, os quadrinhos belgas nunca estiveram tão bem por aqui. Os mais velhinhos vão se lembrar desse mestre, autor da inspiradíssima série de arquitetura em sci-fi Cidades Obscuras, desenhando e autografando na Gibiteca do antigo Espaço Cultural da 508 Sul.

Hoje o papo é outro, e a história dos quadrinhos da Bélgica (que já delineei um pouco aqui) é motivo da ótima exposição Os Faróis das Histórias em Quadrinhos Belgas, na Biblioteca Central da Universidade de Brasília (BCE/UnB). São dezenas de capas históricas para mostrar a trajetória de uma das mais tradicionais e importantes escolas de HQ do mundo. Caso você não saiba, alguns personagens icônicos vêm do diminuto país da Europa Central, como Tintim, Spirou e os Smurfs.

Porém, o escopo da exposição vai muito além desses medalhões. Há capas de histórias ilustradas por Hermann Huppen – especialista do realismo de aventura nos anos 1980 e 1990 –, amostras do pioneiro Jijé, considerado o mestre de Moebius, e ainda a extensa tradição de personagens infantis de alcance internacional, caso de Boule e Bill, ou Bob e Bobbete.

A exposição dá também destaque à produção em língua flamenga (oriunda da região de Flandres), a qual prima pela excelência no estilo “linha clara”, que, aliás, foi desenvolvido pelos belgas, por nomes como Bob de Moor e Willy Vanderstein. A técnica, por sinal, está incrustada nos geniais clássicos de espionagem e aventura Alix e Blake e Mortimer.

Tive a oportunidade de ir à Bélgica uma vez, fiquei encantado e voltei abarrotado de quadrinhos. Além da arquitetura embasbacante, com influência do norte da Europa e uma curiosa divisão em regiões que falam francês ou flamengo, o país oferece excelência em chocolates, cervejas e simpatia. Estar no topo em tantas coisas interessantes mostra a forte personalidade dessa nação de pouco mais de 12 milhões de habitantes.

É idiossincrática, porém, a paixão dos belgas pelos quadrinhos. Passando por lá, acabei sendo um tanto quanto contaminado. Entre meus favoritos (para além das referências certeiras), está Gaston Lagaffe, personagem criado pelo indomável André Franquin, uma espécie de jovem almoxarife de redação procrastinador e levemente contraventor que odeia trabalhar. Inspiração para uma geração de nativos e franceses.

Outra afiadíssima HQ do cânone belga é a história de detetives Gil Jourdan, de Maurice Tillieux. Aventuras clássicas em timing perfeito e ilustrações que são a pura transfiguração da bande dessinée. Eu poderia continuar falando de coisas lindas, como a série noir Inspetor Canardo, de Bonoît Sokal, ou dos inúmeros quadrinhos roteirizados pelo infalível Jean Van Hamme, mas espero já ter te atiçado a curiosidade dos leitores.

A exposição foi realizada pela Embaixada da Bélgica no Brasil, juntamente com o novo local dedicado aos quadrinhos na UnB, o Espaço POP (também na Biblioteca Central), que tem como objetivo incentivar a pesquisa sobre o assunto e já dispõe de 700 HQs para consulta no acervo.

Além disso, a exposição faz parte da I Jornada de Histórias em Quadrinhos da UnB, que segue até 7 de junho e conta com clube de leitura, oficina, feira e conferência. A cereja do bolo foi a presença da quadrinista belga Flore Balthazar, que estava no Festival Internacional de Quadrinhos em Belo Horizonte para divulgar sua biografia da pintora Frida Kahlo, recentemente lançada no Brasil.

Confira abaixo minha entrevista com Flore:

Quais foram suas impressões do Brasil e de Brasília?
Eu adorei o Brasil, tudo é muito diferente. Tudo tem sido intenso e querido. Sobre Brasília, eu pude apenas ver do caminho do aeroporto até aqui, então não posso dizer com segurança. Mas a minha impressão é boa!

No Brasil temos muitas jovens mulheres produzindo para uma cena de fanzines e publicações independentes. Como é na Bélgica? Há também muitas garotas trabalhando com quadrinhos? Há gerações de autoras que se renovam?
Sim, e eu não me sinto especial em relação a isso. Atualmente, as mulheres são mais da metade dos estudantes de histórias em quadrinhos na Bélgica. Mas o meio continua com maioria de homens, como em qualquer lugar onde há uma hierarquia deles. Mesmo assim, penso que as coisas estão mudando. O cenário se transformou muito em relação a quando eu era pequena. De qualquer forma, o meio continua bastante masculino e, em muitos aspectos, machista também.

Quem são suas autoras de quadrinhos preferidas?Bem, vou falar de autoras franco-belgas, porque não sou tão boa com outros tipos de HQ. A minha favorita é Claire Bretécher, uma desenhista francesa que despontou nos anos 1960 e segue carreira até hoje. Ela é genial, muito engraçada. Graficamente, é matadora. Também gostaria de lembrar Pénélope Bagieu, é a mais conhecida. E gosto muito de Lisa Mondello.

Você realizou uma obra sobre Frida Kahlo. Como pensou as escolhas estéticas para dialogar com essa artista?
Efetivamente, eu jamais me colocaria no mesmo plano que Frida Kahlo. É outra coisa. Mas o que mudou nesse álbum foi o tratamento de cores. Eu fiz algo muito diferente do que estava acostumada, com um resultado mais doce, usando tons sempre um pouco misturados.

 

Exposição: Os Faróis das Histórias em Quadrinhos Belgas
Horário reduzido (enquanto durar a greve dos servidores técnico-administrativos da FUB): de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h. Horário normal de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 7h às 23h45, e aos fins de semana e feriados, das 7h às 19h. Período: de 5 a 17/6. Local: Sala de exposições, andar térreo da Biblioteca Central, campus Darcy Ribeiro, Universidade de Brasília

Espaço POP
Horário reduzido (enquanto durar a greve dos servidores técnico-administrativos da FUB): de segunda a sexta-feira, das 10h às 16h. Horário normal de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 8h às 18h. Local: andar térreo da Biblioteca Central, campus Darcy Ribeiro, Universidade de Brasília



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