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Para a nossa sorte, produtores de outras mídias estão abrindo os olhos para a recente e formidável produção de quadrinhos brasileira. Tivemos uma decente adaptação “global” da HQ Zózimo Barbosa, de Wander Antunes e Gustavo Machado, e há expectativa para a versão em carne e osso da Turma da Mônica, a partir do romance gráfico Laços, sucesso dos irmãos Vitor e Lu Caffagi.

Porém, sem dúvida alguma, a maior esperança de vermos o melhor que produzimos em quadrinhos ter sua contrapartida em outras mídias está reservada para o próximo 10 de maio, quando estreia Tungstênio, filme de Heitor Dhalia baseado na HQ de Marcello Quintanilha.

Esse romance gráfico está entre os mais elaborados êxitos nessa forma de arte, em toda a longa trajetória do quadrinho brasileiro. Curiosamente, Dhalia já tinha pego o trejeito de adaptar nossos autores mais pungentes quando fez O Cheiro do Ralo, baseado em romance (literário) do irrepreensível e visceral quadrinista Lourenço Mutarelli.

Tungstênio, lançado em 2014 pela editora Veneta, é talvez o trabalho mais agônico e esteticamente sofisticado de Quintanilha. Eu gostaria de me deter um pouco sobre a influência atual e o legado futuro desse já indispensável quadrinista brasileiro.

Reprodução

 

Nesse romance gráfico, os elementos “quintanilhescos” emergem à flor da pele, maduros igual a um fruto recém-caído da árvore, com domínio inextricável da narrativa e reveladora capacidade reflexiva. Mas como, na obra do autor, esses elementos se dispõem e apresentam?

Aqui, numa Salvador pungentemente contemporânea, quatro personagens em diferentes situações sociais/institucionais (o policial, o traficante, o pescador ilegal e o velho militar aposentado) entrecruzam suas visões de mundo num jogo de gato e rato que expõe cartas capazes de revelar impasses e contradições perturbadoras da sociedade brasileira.

Quintanilha, portanto, em primeiro lugar, enfoca o caráter nacional. Seu objetivo não é, no entanto, realizar qualquer síntese ou hermenêutica lavada que queira dividir nossa sociedade em bons e maus, em senhores e desvalidos. Isso, sim, está lá, mas o cerne de sua ultrassonografia de nosso suposto caráter encontra-se nas mais miúdas situações sem solução tipicamente brasileiras.

Em suas primeiras histórias mais “maduras” (publicadas pela Conrad entre 2009 e 2011) – superando uma primeira fase como Marcello Gaú –, o autor niteroiense escreve contos curtos em quadrinhos, sempre margeando situações que levam a outras, na história e nos corações dos brasileiros.

Exemplos: um jogador frustrado de futebol que remete ao governo Vargas; um diálogo na praia sobre qualquer coisa; situações sempre circundando eixos e temas importantes.

O estilo do traço de Quintanilha é mais naturalista e orgânico (chegou a ilustrar a famosa capa do disco A Invasão do Sagaz Homem Fumaça, do Planet Hemp), e suas histórias são impregnadas de um realismo de situações metonímicas, em que o detalhe leva ao todo. É um artista da negatividade: sua potência reside naquilo não explicitado.

Em seu último trabalho, Hinário Nacional, o autor voltou à forma curta (após dois romances gráficos de abalar as estruturas do quadrinho nacional), e comove com a ambiguidade de “vilões” brasileiros revelados no íntimo de sua brutalidade: um estuprador no carnaval de 1924; um velho homem negro que espanca sua mulher branca sentindo-se vingado, senhor de engenho dentro de sua própria casa.

Os caminhos, portanto, que levam esses seres humanos a cometerem a perfídia, a avareza, a inveja e a maldade são distintos e únicos para cada personagem elaborado por Marcello Quintanilha. Seus desenhos desses rostos perturbadoramente familiares (não diria fisionomia, mas fisiografia do padrão físico brasileiro) reforçam a intenção de mostrar, exibir e refletir.

Em Tungstênio, a sociedade brasileira é pensada laboratorialmente, num ambiente pequeno e controlado pelo artista. Já na obra-prima Talco de Vidro, aparece a consciência da pequena burguesia, com seus valores xucros e sensação de superioridade.

Reprodução

 

Dentro de sensações, mal-estar e pensamentos de uma dentista que vê seu sonho de elite desabar, percebemos o quanto Quintanilha possui versatilidade na capacidade de olhar o micro e o macro, em diversas direções, de problemas morais e sociais brasileiros.

Como se, magicamente, num Brasil do século 21, Nelson Rodrigues, com seu radar para a problemática moral brasileira, pudesse redigir narrativas de fôlego como as de Rubem Fonseca, Marcello Quintanilha emerge na condição de uma das figuras mais invocadas e provocativas da nossa arte nacional.



 


Marcello QuintanilhaTungstênio