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No palco iluminado, áudio do bate-bola jogo rápido de Rogéria numa entrevista a Marília Gabriela. Em seguida, um momento cívico: o hino nacional (versão da Vanusa). Assim parte o barco Le Circo de La Drag, espetáculo de Juracy de Oliveira, Leonardo Paixão, Vanessa Garcia e Mateus Muniz.

Ancorado no melhor estilo teatro de revista, besteirol e cabaré, nos 50 minutos que se seguem, a peça é inteiramente cantada. Ou melhor dizendo, dublada como um bom show de drag queen. “A gente vive um momento que, quando você diz, as pessoas não querem mais ouvir. Então a gente canta”, explica Juracy, idealizador do projeto, a partir de brincadeiras que fazia com os amigos na sala da sua casa.

Mas, o que poderia ser apenas glamour e comédia também se torna afirmação política e crítica social – sem nunca perder o glamour e a comédia! A questão política brasileira, a presença da religião nos gabinetes dos governantes, a economia, a intolerância e a situação da mulher se fazem presentes nos esquetes.

 

Pegar várias canções e subvertê-las ou questionar seus sentidos apenas na forma como são apresentadas não é fácil. Sem contar que a pesquisa musical foi feita por eles mesmos.

E o show é mutável. Se adapta à mudança de cenário e de espaço geográfico. Por exemplo, como a trupe vem do Rio de Janeiro, várias piadas que lá se aplicam ao prefeito Crivella, em São Paulo, são feitas com o prefeito Doria. E sabe o que é mais louco? Elas também funcionam, demonstrando que o ridículo do poder é universal.

Vi o espetáculo no Sesc Belenzinho, em São Paulo, e, durante o nosso papo, chegou a notícia do assassinato da vereadora do PSol Marielle Franco. Imediatamente, mudaram-se as feições sorridentes do grupo e de toda equipe, para, em seguida, Juracy anunciar: isso tem que estar no espetáculo de amanhã sem falta. Vamos procurar uma foto dessa mulher. O que eles cumpriram na apresentação seguinte.

Le Circo já se apresentou no Rio, em São Paulo e no Dragão do Mar, em Fortaleza, terra de Juracy, para mais de 400 pessoas. Aliás, cada integrante vem de um lugar do país, mas foi no Rio de Janeiro que eles se encontraram.

Quanto ao espetáculo em si, destaco o visagismo de Anderson Milfont, com uma maquiagem incrível, cílios e sobrancelhas de papel, deixando todo mundo com uma cara tanto bela quanto debochada; a preparação corporal de Vanessa Garcia; e a dramaturgia de Natália Régia, que soube muito bem colar essa profusão de piadas e referências, que podia ter ficado muito confusa. Mas, é claro que a equipe inteira está de parabéns.

O espetáculo conta sempre com a participação de artistas convidados. Já teve a presença de Jesuíta Barbosa e Betina Polaroid, por exemplo. Quando assisti, eles me deram o prazer de ver a banda Não Recomendados ao vivo, que eu conhecia o trabalho apenas na internet. Quem quiser ver o resultado, vai no canal do Le Circo no YouTube. Eles também estão em todas as redes sociais.

Ao que tudo indica, Le Circo se apresentará no festival DIGO – Diversidade Sexual e Gênero, em Goiânia, nos dias 6 e 7 de junho. E eles também estão loucos para chegar até Brasília. Na minha humilde opinião, a capital merece esse espetáculo.



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